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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Cuidando do Ambientalista

Cuidando do Ambientalista

Traduzido do livro "The World We Have", de Thich Nhat Hanh,
por Samuel Cavalcante


Um estudante me perguntou “Existem tantas problemas urgentes, o que devemos fazer?” e eu disse “Escolha uma coisa, faça-a muito profundamente e com muito cuidado, então você estará fazendo tudo ao mesmo tempo”.

Muitas pessoas estão cientes do sofrimento da Terra e seus corações estão cheios de solidariedade. Eles sabem o que é necessário fazer e se engajam em atividades políticas, sociais e ambientais para mudar as coisas. Mas, depois de um período de intenso envolvimento, frequentemente muitos se sentem desencorajados por que lhes falta a força necessária para sustentar uma vida de ação. O intelecto sozinho não é suficiente para guiar uma vida de ação solidária. Para efetivamente influenciar o futuro de nosso mundo, precisamos de mais. A verdadeira força não pode ser encontrada no poder, dinheiro ou nas armas, mas em uma profunda paz interior. Quando temos insight suficiente, não nos deixamos apanhar mais pelas muitas situações difíceis. Podemos sair dessas situações muito facilmente. Quando mudamos as nossas vidas cotidianas – a maneira que pensamos, falamos e agimos – mudamos também o mundo. É importante para nós viver de modo a que, em cada momento, estejamos profundamente nele com nossa verdadeira presença, sempre vivos e alimentando o insight do interser. Sem paz e felicidade, não poderemos tomar conta de nós, nem das outras espécies e nem do planeta. Por isso a melhor maneira de cuidar do meio ambiente é cuidar do ambientalista.

Existem muitos ensinamentos budistas que podem nos ajudar a compreender nossa interconectividade com a Mãe Terra. Um dos mais importantes é o Sutra do Diamante, escrito sob a forma de um diálogo entre o Buda e um de seus mais importantes discípulos, Subhuti. O Sutra do Diamante é o texto mais antigo relativo á ecologia profunda. Começa com uma pergunta de Subhuti: “Se filhas e filhos de boas famílias quiserem gerar a mente mais desperta e realizada, em que eles devem se basear e o que eles deveriam fazer para dominar seus pensamentos?”.

Isto é o mesmo que perguntar “Se eu quiser usar todo o meu ser para proteger a vida, que métodos e princípios eu devo usar?”.

O Buda respondeu “Devemos fazer o melhor possível para ajudar a cada ser vivo a cruzar o oceano do sofrimento. Mas, depois de todos terem chegado às margens da libertação, nenhum ser em absoluto foi carregado até o outro lado. Se você se deixar apanhar pelas idéias de eu, pessoa, ser viv ou tempo de vida, você não será um autêntico bodhisattva”.

Eu, pessoa, ser vivo e tempo de vida são as quatro noções que nos impedem de ver a realidade.

A vida é uma unidade, não precisamos cortá-la em pedaços e chamar este pedaço de “eu”. O que chamamos de eu é feito de elementos não-eu. Quando olhamos uma flor, por exemplo, podemos pensar que ela é diferente das coisas que são “não-flor”. Mas se olharmos com mais profundidade, poderemos ver que tudo no cosmos está na flor. Sem algum dos elementos não-flor – sol, nuvens, terra, jardineiro, minerais, rios e consciência – uma flor não pode existir. É por isto que o Buda ensina que o eu não existe. Temos que descartar todas distinções entre eu e não-eu. Como é que alguém pode proteger o meio-ambiente sem este insight?

A segunda noção do Sutra do Diamante nos recomenda jogar fora é a noção de pessoa, de ser humano. Isto também não é difícil. Ao olharmos para o ser humano, poderemos ver os ancestrais humanos, os ancestrais animais, os ancestrais vegetais e os ancestrais minerais. Poderemos ver que o humano é feito de elementos não-humanos. Usualmente, costumamos discriminar entre humanos e não-humanos, pensando que somos mais importantes que as outras espécies. Mas já que somos feitos de elementos não-humanos, para protegermos a nós mesmos temos que proteger todos os elementos não-humanos. Não existe outro jeito. Se você pensar que Deus criou os seres humanos à sua imagem e semelhança e que Ele criou todos os outros seres para uso deles, então você já está discriminando e tornando as pessoas mais importantes que os outros seres. Ao vermos que os seres humanos são desprovidos de eu, vemos também que ao cuidar do meio-ambiente (dos elementos não-humanos) cuidamos da humanidade. Temos que respeitar e proteger as outras espécies para podermos ter uma chance. A melhor maneira de tomar conta dos seres humanos de modo a que eles fiquem verdadeiramente saudáveis e felizes é tomar conta dos outros seres e do meio-ambiente.

Conheço ecologistas que não estão felizes com suas famílias. Eles trabalham duro para melhorar o meio-ambiente parcialmente por que querem escapar de sua vidas familiares infelizes. Mas se alguém não é feliz consigo mesmo, como poderá ajudar o meio-ambiente? Proteger os elementos não-humanos é proteger os seres humanos e proteger os seres humanos é proteger os elementos não-humanos.

A terceira noção que devemos quebrar é a noção de ser vivo. Pensamos que os seres vivos são diferentes dos objetos inanimados, mas , de acordo com o princípio do interser, seres vivos são compostos de seres não-vivos. Quando olhamos para dentro de nós, podemos ver os minerais e outros seres não-vivos. Por que discriminar contra aquilo a que chamamos de inanimado? Para proteger os seres vivos temos que proteger as pedras, o solo, os oceanos. Antes da bomba ser jogada sbre Hiroshima, existiam muitas bancos de pedra nos parques. Quando os japoneses estavam reconstruindo a cidade eles tiveram a sensação de que aquelas pedras estavam mortas. Então eles as levaram embora e enterraram-nas e trocaram-nas por pedras vivas. Não pense que essas coisas não são vivas. Os átomos estão sempre se movimentando. Elétrons se movem quase à velocidade da luz. De acordo com o ensinamento do budismo, átomos e consciência são eles mesmos a própria consciência. É por isso que essa discriminação entre seres vivos e não-vivos deve ser descartada.

A última noção é a de tempo de vida. Costumamos pensar que nossa vida começa num determinado ponto do tempo e que antes deste momento nossa ela não existia. Esta distinção entre vida e não-vida não é correta. A vida é feita de morte e a morte é feita de vida. Temos que aceitar a morte; ela torna a vida possível. As células do nosso corpo estão morrendo todos os dias, mas nunca pensamos em organizar um funeral para elas. A morte de uma célula permite o nascimento de outra. Vida e morte são dois aspectos da mesma realidade. Precisamos aprender a morrer em paz para que outros possam viver. Esta profunda meditação produz o não-medo, a não-raiva, o não-desespero, as forças que precisamos para nosso trabalho. Nau ausência do medo, mesmo que o problema seja grande não perderemos o controle. Saberemos dar pequenos e firmes passos.

Se aqueles que trabalham para proteger o meio-ambiente olharem profundamente para essas quatro noções, eles saberão como continuar e como agir. Eles terão energia suficiente e insight para ser um bodhisattva no caminho da ação.

Existe muito sofrimento no mundo e é importante que nós estejamos em contato com esse sofrimento para sermos solidários. Mas para sermos fortes, também precisamos abraçar os elementos positivos. Quando vemos um grupo de pessoas vivendo de maneira consciente, sorrindo e se comportando com amor, ganhamos confiança no futuro. Quando praticamos a respiraçao, o descanso, o caminhar e o trabalho conscientes, nós mesmos nos tornamos um elemento positivo na sociedade e inspiraremos confiança em todos que estão à nossa volta. Esta é a maneira de evitar que o desespero tome conta de nós. Também é uma maneira de ajudar as jovens gerações a não perderem a esperança. É muito importante que possamos viver o dia-a-dia de nossas vidas de tal modo a demonstrar que o futuro é possível.

Para produzir uma mudança real na situação ecológica global, nossos esforços devem ser harmoniosos e coletivos, baseados no amor e no respeito por nós mesmos e pelos outros, e pelos nossos ancestrais e futuras gerações. Se a raiva causada pela injustiça é a fonte de nossa energia, iremos provocar mais danos, coisas que iremos nos arrepender depois. De acordo com o budismo, a solidariedade (Karuna, NT) é a única fonte de energia que é útil e segura. Com a solidariedade, nossa energia nasce do insight; não é uma energia cega. Somente sentir compaixão, não é suficiente, temos que aprender a expressá-la. É por isso que o amor tem andar sempre junto com a compreensão. Compreensão e insight nos mostram como agir.

O termo “budismo engajado” foi criado para restaurar o verdadeiro significado do budismo. Budismo engajado é simplesmente o budismo aplicado em nosso dia-a-dia. Se não é engajado, não pode ser chamado budismo. As práticas budistas não devem ser feitas somente nos monastérios, centros de meditação e institutos budistas, mas em qualquer situação na qual nos encontremos. Budismo engajado significa atividades do dia-a-dia combinadas com a prática da plena consciência.

Existe uma real necessidade de levarmos o budismo para a sociedade, especialmente quando você se encontra em uma situação de guerra ou injustiça social. Durante a guerra do vietnã se tornou muito claro que deveríamos praticar o budismo engajado, para que a solidariedade e a compreensão pudessem se tornar parte da vida do povo. Quando sua vila é bombardeada e destruída e quando seus vizinhos se tornam refugiados, você não pode simplesmente continuar a praticar a meditação sentada na sala de meditação. Mesmo que o templo não tenha sido bombardeado e a sua sala de meditação esteja intacta, ainda assim você poderá ouvir os gritos das crianças feridase poderá ver a dor dos adultos que perderam suas casas. Como é que você pode continuar a se sentar lá de manhã cedo, à tarde e à noite? É por isso que você tem que encontrar um jeito de levar a sua prática para a vida cotidiana e sair para ajudar as outras pessoas. Você pode fazer tudo o que você puder para aliviar o sofrimento. Mesmo que você saiba que se abandonar a prática de sentar-se e caminhar com plena consciência, você não será capaz de retomá-la por um longo tempo.

É importante que ao mesmo tempo em que nos tornemos voluntários ou tomemos parte no ativismo ambiental, encontremos uma maneira de continuar nossa prática de respirar, caminhar e falar com plena consciência. Não nos deixemos cair na raiva ou no desespero ao refletir sobre o estado atual do mundo, ou quando confrontados com aqueles que se engajam no desperdício dos recursos naturais. Pelo contrário, podemos fazer de nossa vida um exemplo de vida simples. A escuta profunda e a fala amorosa podem nos ajudar a apoiar a transformação dos indivíduos e da sociedade e nutrir o despertar coletivo que irá salvar nosso planeta e nossa civilização.

Se quisermos ter sucesso na prática da fala amorosa, precisamos saber como lidar com nossas emoções quando elas nos chegam à superfície. Toda vez que a raiva, a frustração ou a tristeza sugirem, temos que ter a capacidade de lidar com elas. Isso não significa lutar com elas, suprimí-las ou expulsá-las. Nossa raiva e nosso desapontamento são parte de nós, não devemos fazer isso. Quando oprimimos a nós mesmos, cometemos um ato de violência contra nós mesmos. Se soubermos como retornar à respiração consciente, criaremos um ambiente de verdadeira presença e geraremos a energia do contato. Com essa energia reconheceremos e abraçaremos nossa tristeza, raiva ou desapontamento com bondade e amor.

Trabalho social e de ajuda realizados sem a prática da plena consciência não podem ser descritos como budismo engajado. Todos os que fazem esse trabalho correm o risco de se perder no desespero, na raiva ou na frustração. Se você estiver realmente praticando o budismo engajado, então você saberá preservar-se a si próprio como praticante, ao mesmo tempo em que faz coisas para ajudar as pessoas no mundo. Budismo verdadeiramente engajado é, antes de tudo, a prática da plena consciência em tudo o que fizermos.

A prática da plena consciência nos ajuda a ficarmos vigilantes sobre o que está acontecendo. Uma vez sejamos capazes de olhar profundamente no sofrimento e reconhecer sua raízes, seremos motivados a agir e a praticar. A energia que precisamos não é o medo ou a raiva ou mas a energia da compreensão e da solidariedade. Não há necessidade de culpar ou condenar. Aqueles que estão destruindo a si mesmos, a sociedade e o planeta não o fazem intencionalmente. A dor e a solidão deles é avassaladora e eles querem escapar. Eles precisam de ajuda e não de punição. Somente a compreensão e a solidariedade no nível coletivo pode nos libertar.

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sábado, 22 de novembro de 2008

Os Sinos da Plena Consciência

Os Sinos da Plena Consciência

(Capítulo do livro de Thich Nhat Hanh "The World We Have",
tradução de Samuel Cavalcante)


Os sinos da plena consciência estão soando. Em toda a Terra, estamos experimentando inundações, secas e grandes incêndios naturais. O gelo está derretendo no Ártico e os furacões e ondas de calor estão matando milhares. As florestas estão desaparacendo rapidamente, os desertos estão se expandindo, espécies estão se extinguindo todos os dias e, mesmo assim, continuamos a consumir ignorando esses sinos que estão soando.

Todos nós sabemos que o nosso lindo planeta verde está em perigo. Nossa maneira de caminhar na Terra exerce uma grande influência nos animais e nas plantas. Mesmo assim, agimos como se nossas vidas cotidianas não tivessem nada a ver com as condições do mundo. Estamos como sonâmbulos, sem saber o que estamos fazendo ou para onde estamos indo. Se podemos acordar ou não vai depender de podermos caminhar com plena consciência sobre nossa Mãe Terra. O futuro de toda a vida, incluindo a nossa própria depende dos nossos passos vigilantes. Temos que ouvir os sinos da plena consciência que estão soando por toda a terra. Temos que começar a aprender a viver de um modo que o futuro seja possível para nossos filhos e netos.

Tenho sentado com o Buda por um longo tempo e o tenho consultado sobre o aquecimento global, e o seu ensinamento é bastante claro. Se continuarmos a viver como temos vivido até agora, consumindo sem pensar no futuro, destruindo nossas florestas e emitindo quantidades perigosas de dióxido de carbono, então mudanças climáticas devastadoras serão inevitáveis. Muito do nosso ecossistema será destruido. O nível do mar se elevará e cidades costeiras serão inundadas, forçando a saída de milhões de refugiados, criando guerras e epidemias de doenças doenças infecciosas.

Precisamos de um tipo de despertar coletivo. Entre nós, existem homens e mulheres que estão atentos, mas isso não é o suficiente; a maioria das pessoas está dormindo. Construímos um sistema que não podemos controlar. Ele se impôs a nós e nos tornamos seus escravos e vítimas. Para a maioria de nós que deseja ter uma casa, um carro, uma geladeira, uma televisão etc, precisamos sacrificar, em troca, nosso tempo e nossas vidas. Vivemos sob constante pressão do tempo. Antigamente, poderiamos dedicar três horas para tomar uma xícara de chá, desfrutando da companhia dos amigos em uma atmosfera serena e espiritual. Podíamos organizar festas para celebrar o desabrochar de uma orquídea em nosso jardim. Mas hoje não podemos mais fazer tais coisas. Dizemos que tempo é dinheiro. Criamos uma sociedade na qual os ricos se tornam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e na qual ficamos tão emaranhados em nossos próprios problemas imediatos que não temos mais condições de estar atentos ao que está acontecendo com o resto da família humana em nosso planeta terra. Na minha mente eu vejo um grupo de galinhas numa gaiola disputando um punhado de grãos, sem se darem conta de que em poucas horas irão todas ser mortas.

Os povos da China, Índia, Vietnã e outros países em desenvolvimento ainda estão sonhando o “sonho americano”, como se esse sonho fosse o objetivo absoluto da humanidade – todo mundo tem que ter um carro, uma conta bancária, um celular, uma televisão, só para si. Em vinte e cinco anos a população da China será de 1,5 bilhões de pessoas e se cada uma quiser dirigir seu próprio carro, ela precisará de 99 milhões de barris de petróleo por dia. Mas o mudo só produz 84 milhões de barris por dia. Então, o sonho americano não é possível para os povos da China, Índia ou Vietnã. O sonho americano não é mais possível nem mesmo para os próprios americanos. Não podemos continuar a viver dessa maneira. Não é uma economia sustentável.

Temos que ter um outro sonho, o sonho da fraternidade, da bondade amorosa e da solidariedade. Este sonho é possível aqui e agora. Temos o Dharma, temos os meios e temos sabedoria suficiente para sermos capazes de vivermos esse sonho. A plena consciência é o coração do despertar, da iluminação. Praticamos a respiração consciente para sermos capazes de estar aqui no momento presente de modo a reconhecer o que está acontecendo em nós e em torno de nós. Se o que está acontecendo dentro de nós é desespero, temos que reconhecê-lo e agir imediatamente. Talvez a gente não queira se confrontar com essa formação mental, mas é uma realidade, e temos que reconhecê-la para podermos transformá-la.

Não precisamos afundar no desespero por causa do aquecimento global; podemos agir. Só assinarmos uma petição, um abaixo-assinado, não vai ajudar muito. Ação urgente tem que ser feita nos níveis individual e coletivo. Todos nós temos um grande desejo de sermos capazes de viver em paz e em uma sociedade ambientalmente sustentável. O que a maioria de nós ainda não tem são maneiras concretas de fazer do nosso compromisso de viver de forma sustentável uma realidade de nossa vida no dia-a-dia. Não nos organizamos para tal. Não podemos apenas culpar os governos e as corporações da indústria química que poluem nossa água de beber, pela violência em nossos bairros, pela guerra que destrói tantas vidas. Já é tempo de cada um de nós acordar e tomar uma atitude em nossas próprias vidas.

Nós testemunhamos a violência, a corrupção e a destruição à nossa volta. Todos sabemos que as leis que temos não são fortes o bastante para controlar a superstição, a crueldade e os abusos de poder que vemos diariamente. Somente a fé e a determinação podem impedir que caiamos em um profundo desespero.

O budismo é a mais forte forma de humanismo que temos. Ele nos ajuda a aprender a viver com responsabilidade, solidariedade e amor. Cada praticante budista deveria ser um protetor do meio ambiente. Temos o poder de decidir o destino de nosso planeta. Se acordamos para nossa situação, haverá uma mudança na nossa consciência coletiva. Temos que fazer algo para despertar as pessoas. Temos que ajudar o Buda a despertar as pessoas que estão vivendo em um sonho.

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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Natureza e Não-Violência

Natureza e Não-Violência


(Capítulo do livro de Thich Nhat Hanh "The World We Have",
tradução de Samuel Cavalcante)


Suponhamos que a gente pegue uma semente de milho e a plantemos em um solo úmido. Uma semana depois ou mais, a semente irá germinar. Depois de três dias, podemos voltar e perguntar ao brotinho “querida planta, você se lembra do tempo em que você ainda era uma semente?”. O brotinho pode ter esquecido, mas como ficamos observando, sabemos que o brotinho de milho realmente veio do grão.

Quando olhamos para a planta não vemos mais a semente e, assim, pensamos que a semente morreu. Mas ela não morreu, ela se tornou a planta. Se você for capaz de ver a semente de milho no pé de milho, você tem um tipo de sabedoria que o Buda chamou de sabedoria da não-dsicriminação. Você não dsicrimina entre a semente e a planta. Você vê que elas intersão entre si, que elas são a mesma coisa. Você não pode distinguir a semente da planta e nem a planta da semente. Olhando com profundidade uma espiguinha de milho você pode ver a semente de milho lá, ainda viva, mas com uma nova aparência. A planta é a continuação da semente.

A prática da meditação nos ajuda a ver coisas que as outras pessoas não vêem. Olhamos profundamente e podemos ver que o pai e o filho , pai e filha, mãe e filho, mãe e filha, grão de milho e espiga de milho têm uma relação muito próxima. É por isso que temos que praticar pra despertamos para o fato, para a verdade de que intersomos. O sofrimento de um é o sofrimento de outro. Quando muçulmanos e cristãos, hindus e muçulmanos, israelenses e palestinos, perceberem que são irmãos e irmãs uns pros outros, que o sofrimento de um lado é o sofrimento do outro lado, então essas guerras logo acabarão. Quando virmos que nós e todos os seres vivos somos feitos da mesma natureza, como é que poderão existir ainda divisões entre nós? Como poderá ainda existir essa falta de harmonia? Quando percebermos o interser da nossa natureza, pararemos de culpar, explorar e matar, pois saberemos que todos intersomos. Este é o grande despertar que devemos cultivar para que a Terra seja salva.

Nós, seres humanos, sempre tivemos a pretensão de sermos únicos, de estarmos fora da natureza. Classificamos os outros animais e seres vivos como “natureza”, como algo aparte de nós, e agimos como se fôssemos mesmo separados. Então nos perguntamos “Como devemos tratar a natureza?”. Ora, nós devíamos tratar a natureza da mesma maneira que devemos tratar a nós mesmos: de maneira não-violenta. Seres humanos e natureza são inseparáveis. Assim como não devemos ferir a nós mesmos, não devemos ferir a natureza e vice-versa.

Causar danos em outros seres humanos, causa danos em nós mesmos. Acumular excessivamente riquezas e possuir porções excessivas dos recursos naturais tiram dos outros seres humanos a chance de viver. Participar em sistemas sociais opressivos e injustos cria um abismo entre ricos e pobres e agrava a situação da injustiça social. Toleramos excessos, injustiças e guerras sem nos atentarmos para o fato de que a espécie humana sofre como uma família. Enquanto o resto da família humana sofre e passa fome, o gozo da falsa segurança e a riqueza são ilusões.

Está claro que o destino de cada indivíduo está inextrincavelmente ligado com o destino de toda a espécie humana. Temos que deixar os outros viver se quisermos viver. A única alternativa para a coexistência é a co-não-existência. Uma civilização na qual temos que matar e explorar outros para viver não é uma civilização sadia. Para criarmos uma civilização sadia, todos temos que ter igual acesso à educação, trabalho, comida, abrigo, cidadania mundial, ar puro e água limpa e a capacidade de circular livremente e escolhermos morar em qualquer lugar do planeta. Sistemas políticos e econômicos que negam a alguém esses direitos ferem toda a família humana. A vigilância acerca do que está se passando com a família humana é necessária para reparar os danos já provocados.

Para gerar a paz no interior da família humana temos que trabalhar por uma coexistência harmônica. Se continuarmos a nos isolar do resto do universo, aprisionando-nos em preocupações estreitas e problemas imediatos, vai parecer que não queremos construir a paz ou sobreviver. A espécie humana é parte da natureza. Precisamos cultivar este insight antes para podermos ter harmonia entre as pessoas. Crueldade e destrutividade destróem a harmonia da família humana e destróem a natureza. Entre as medidas para remediar essa situação está uma legislação que não seja violenta nem para nós nem para a natureza e que nos ajude a evitar nos tornarmos destrutivos e cruéis.

Cada indivíduo e toda a humanidade é parte da natureza e deveria ser capaz de viver em harmonia com ela. A natureza pode ser cruel e destrutiva. Mas nós precisamos tratar a natureza do mesmo jeito que tratamos a nós mesmos como indivíduos e como família humana. Se a gente tentar dominar e oprimir a natureza, ela se rebela. Devemos ser amigos da natureza para lidarmos com alguns de seus aspectos e criarmos harmonia com o nosso meio ambiente. Isto requer uma compreensão inteira da natureza. Tufões, tornados, secas, enchentes, erupções vulcânicas, proliferação de insetos perigosos, tudo isso se consitui em perigo para a vida. Podemos evitar grande parte da destruição que os desastres naturais causam se trabalharmos com o ambiente desde o início, fazendo planos e construindo decisões que levam em conta a natureza do lugar, ao invés de tentar impor o controle completo sobre ela com barragens, desmatamento e outros dispositivos e políticas que, no final, causam só mais prejuízos.

Um exemplo do que acontece quando tentamos controlar completamente a natureza é o nosso uso excessivo de pesticidas, que mata indiscriminadamente muitos insetos e pássaros e perturba o equilíbrio ecológico. Um crescimento econômico que devasta a natureza ao poluir e exaurir recursos não renováveis torna impossível para os seres vivos viver no planeta Terra. Tal crescimento pode parecer temporariamente benéfico para algumas pessoas, mas na realidade, rasga e destrói a natureza como um todo. A harmonia e o equilíbrio entre os indivíduos, sociedade e a natureza está sendo destruída. Os indivíduos estão doentes, a sociedade está doente e a natureza está doente. Precisamos restabelecer o equilíbrio, mas como? Por onde começar o trabalho de cura – pelo indivíduo, pela sociedade ou pela natureza? Precisamos trabalhar nos três domínios. Pessoas de diferentes disciplinas científicas tendem a focar suas áreas particulares. Por exemplo, políticos consideram que um efetivo rearranjamento da sociedade é necessário para a salvação dos humanos e da natureza, e, portanto, enfatizam que todos devem se engajar na luta para mudar o sistema político.

Os monges budistas são como psicoterapeutas, tendemos a ver o problema pela ótica da saúde mental. A meditação objetiva criar harmonia e equilíbrio na vida do indivíduo. A meditação budista lida tanto com o corpo quanto com a mente e usa a respiração como instrumento para acalmar e harmonizar o ser humano como um todo. Como em qualquer prática terapeutica, o paciente é colocado em um ambiente que favoreça a restauração da harmonia. Usualmente os terapeutas passam o tempo observando e pontuando seus pacientes. Portanto, eu conheço alguns que, como os monges, observam a si mesmos primeiro, reconhecendo a necessidade de libertarem-se primeiro a si mesmos dos medos, ansiedade e desespero que existem dentro de cada um de nós. Muitos terapeutas parecem pensar que não têm problemas mentais, mas o monge reconhece em si mesmo sua própria suscetibilidade aos medos e ansiedades, e à doença mental causada pelo caráter desumano de nossos sistemas sociais e econômicos.

Os praticantes budistas acreditam que a natureza interconectada do indivíduo, da sociedade e da ambiente físico se revelará a nós à medida em que nos curamos e assim não seremos mais possuídos pelas ansiedades, medo e pela dispersão da mente. Dentre os três domínios – indivíduo, sociedade, natureza – é o individuo que começa a efetivar a mudança. Mas para isso, o indivíduo tem que estar inteiro. E já que isso requer um ambiente favorável à cura, o indivíudo tem que buscar um estilo de vida livre da destrutividade. Nossos esforços para mudar a nós mesmos e o meio ambiente são ambos necessários, mas um não pode acontecer sem o outro. Sabemos como é difícil mudar o meio ambiente se os indivíduos não estiverem em equilíbrio. Nossa saúde mental tem como premissa que o nosso esforço de recuperar nossa humanidade deve ser nossa prioridade.

Restaurar nossa saúde mental não significa simplesmente nos ajustarmos ao mundo moderno, de rápido crescimento econômico. O mundo está doente e se adaptar a um ambiente doente assim não trará saúde real. Muitas pessoas que precisam de psicoterapia são, na realidade, vítimas da vida moderna que nos separa uns dos outros e do resto da família humana. Uma maneira de ajudar é se mudar para uma área rural, onde se têm a chance de cultivar a terra, plantar e colher o próprio alimento, lavar as roupas no rio e viver de maneira simples, partilhando da mesma vida que milhões de camponeses mundo afora.

Para que a terapia seja efetiva, precisamos de uma mudança do meio ambiente. Atividades políticas são um recurso apenas, mas não o único. Tranquilizarmo-nos através do consumo descontrolado não é a solução. O envenenamento do nosso ecossistema, a explosão de bombas, a violência nos bairros e na sociedade, a pressão do tempo, o barulho, as multidões solitárias – tudo isso foi criado no curso desse nosso crescimento econômico e são fontes de doenças mentais. Ao fazer o que quer que seja para eliminar estas causas, estaremos praticando uma medicina preventiva.

Manter nossa saúde mental como nossa prioridade número um significa também reconhecer nossa responsabilidade pela família humana inteira. Precisamos agir para evitar que os outros fiquem doentes ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria humanidade. Quer sejamos monges , monjas, professores, terapeutas, artistas, carpinteiros ou políticos, somos todos humanos também. Se aplicarmos a nós mesmos o que tentamos ensinar aos outros, tornaremo-nos mentalmente doentes. Se apenas continuarmos com nossas vidas, convivendo com o status quo, gradualmente nos tornaremos vítimas do medo, da ansiedade e do egoismo. Uma árvore se revela a si mesma para um artista quando ele consegue estabelecer uma certa relação com ela. Alguém não suficientemente humano poderá olhar para seus similares humanos e não vê-los, poderá olhar para uma árvore e não vê-la. Muitos de nós não conseguimos ver as coisas por que não somos completamente nós mesmos. Quando somos completos, podemos ver uma pessoa e, através de uma vida integral, demonstrar para todos que a vida é possível, que o futuro é possível. Mas a questão “O futuro é possível?” não tem sentido se não formos capazes de ver os milhões de outros seres humanos que sofrem, vivem e morrem à nossa volta. Depois de conseguirmos vê-los realmente, seremos capazes de ver a nós mesmos e ver a natureza. Lembremos o tsunami no Oceano Índico de 2004, que matou centenas de milhares de pessoas da Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Índia e África. Gente vinda da Europa, Austrália e Estado Unidos, que ali passavam as férias, também morreram. Todo mundo sofreu muito e ficamos nos perguntando por quê? Por que Deus permitiu que isso acontecesse? Por que essas pessoas morreram? Eu também sofri. Mas eu pratiquei. Sentei-me e pratiquei o olhar profundo. E o que eu vi foi que quando essas pessoas morreram, nós também morremos com elas, por que todos nós intersomos com elas.

Você sabe que quando uma pessoa amada morre, uma parte de você também morre; de alguma maneira você morre com essa pessoa. Isso é fácil de entender. Assim, se tivermos compreensão e solidariedade, quando virmos outras pessoas morrendo, mesmo pessoas estranhas do outro lado do mundo, nós sofreremos e morreremos com elas. O que descobrimos é que elas morrem por nós. Assim, temos que viver por elas. Temos que viver de tal modo que o futuro seja possível para as nossas crianças e para as crianças delas. Se a morte delas terá ou não um significado, dependerá de nosso modo de vida. Este é o insight do interser. Elas são nós e nós somos elas. Quando elas morrem, também morremos. Quando continuamos a viver, elas continuam a viver conosco. Com este insight, você sofrerá menos e saberá como continuar. Você as carrega dentro de si e, sabendo disso, fica em paz.

Praticar a plena consciência e olhar profundamente na natureza das coisas é descobrir sua verdadeira natureza, a natureza do interser. Encontraremos a paz e podemos gerar a força que precisamos para estar em contato com tudo. Com este entendimento, podemos facilmente sustentar o trabalho de amor e cuidado pela Terra, e por nós mesmos, por um longo tempo.

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