segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Dois Bodhisattvas

Dois Bodhisattvas: Protetor-da-Terra e Tesouro-da-Terra

Trecho do livro de
Thich Nhat Hanh - Openning The Heart of The Cosmos
(Tradução - Samuel Cavalcante)


No final do capítulo 25 do Sutra do Lótus, um bodhisattva leigo chamado Dharanimdhara é mencionado. Seu nome significa "segurar, proteger, preservar a Terra". Poderíamos chamá-lo de Protetor-da-Terra. Este bodhisattva ajuda a promover a comunicação entre os humanos e as outras espécies. Ele é um tipo de engenheiro cuja tarefa é criar espaços saudáveis para vivermos, construir pontes para nos conectar uns com os outros e construir estradas de modo que possamos ir aonde as pessoas que amamos estão. É dito que quando Buda desejou visitar sua mãe Mahamaya no Céu de Tushita foi Protetor-da-Terra que construiu a estrada pela qual Buda viajou. Apesar de ser mencionado apenas brevemente no Sutra do Lótus, nós criamos um novo capítulo para este bodhisattva por que ele é muito necessário nesses nossos tempos.

Protetor-da-Terra trabalha para preservar este planeta para os seres vivos tomando conta do ar, da água e do solo. Aqueles que trabalham pra proteger o meio ambiente e manter um ecossistema sadio neste planeta Terra são todos aliados deste bodhisattva. Nós todos devemos nos tornar os braços e as mãos deste bodhisattva para proteger e preservar a Terra para as futuras gerações.

A situação no nosso planeta é muito alarmante. A destruição das florestas, da terra, da água e da atmosfera continua a um ritmo muito perigoso. Os governos da maioria das nações, focadas apenas no desenvolvimento econômico, estão permitindo que o meio ambiente natural sob o seu controle seja explorado, poluído e destruído em nome do "progresso". Muitas espécies da Terra já foram destruídas, e muitas outras morrem dia após dia. As florestas tropicais, os pulmões de nosso planeta, estão sendo dizimadas. A camada de ozônio, protetora de nossa atmosfera, está sendo degradada. As Nações Unidas avisam que o estado do meio ambiente da Terra é extremamente precário.

Temos que estudar a prática do Bodhisattva Protetor-da-Terra e fazer da preservação e proteção da Terra uma prioridade máxima. O presidente, o primeiro-ministro ou o chefe de Estado de todas as nações têm que tomar consciência da situação terrível do planeta. Temos de trabalhar para essa tomada de consciência, por que somente a plena consciência, o despertar para o que está acontecendo, pode nos salvar do desastre certo para o qual nos encaminhamos.

Nós não podemos dizer que estamos ocupados demais para estudar essa prática. Nossos líderes políticos estão sempre ocupados e parecem sempre estar com sua atenção voltada para outros assuntos, como o desenvolvimento econômico ou a consolidação do poder político. Os governos não serão capazes de resolver o problema do meio ambiente enquanto ficarem circunscritos aos seus interesses locais, nacionais. Temos que ajudar nossas sociedades e líderes a verem que a situação da Terra afeta todas as nações e povos e temos que estar envolvidos nos esforços para proteger o meio ambiente.

Nos anos sessenta e setenta, nossa comunidade budista e nossos amigos nos movimentos ambientalista e pacifista trabalharam para ajudar na conscientização sobre a situação da terra. Em 1969, apoiados pelo Comitê Internacional de Reconciliação, uma organização pacifista, criamos o Dai Dong, Grande Unidade (togetherness). Falávamos de deterioração ambiental, de depleção dos recursos naturais, superpopulação e fome; falávamos sobre a guerra e sobre o que poderia ser feito para criar os meios de sair desses problemas. Nós não estávamos agindo como os governos, que defendem seus próprios interesses nacionais, masem favor de todos os povos da Terra, no espírito da Grande Unidade. Naquela época não havia ainda muita discussão pública ou consciência dos problemas ambientais. Nós continuamos a realizar retiros, discussões de Dharma e conferências para atrair um maior interesse. Com a colaboração de cientistas e ambientalistas de todo o mundo, pouco a pouco, trabalhando dessa maneira, tornávamo-nos capazes de chamar mais atenção sobre a situação do planeta.

Agora, mesmo que as preocupações e assuntos ambientais sejam muito mais discutidos e exista uma maior consciência geral, a destruição do solo, do ar e da água do planeta persistem. Por isso é que o Bodhisattva Protetor-da-Terra é muito necessário em nossos tempos. Cada um de nós deve se tornar consciente da presença deste bodhisattva em nós mesmos, para que assim nos tornemos suas mãos e braços e possamos agir rapidamente para proteger a Terra.

Se existe a consciência do que está realmente acontecendo, então existe a possibilidade de darmos passos imediatos para mudar a situação, pelo bem do nosso planeta. Chefes de Estado têm que se tornar mais informados, eles devem ser expostos diretamente à verdade sobre como está o planeta. Todas partes conflitantes no mundo têm que ser convencidas de que os seus conflitos deveriam ser resolvidos logo, o mais rápido possível, para que as nações possam tomar as medidas necessárias para salvar o planeta.

Na minha mente eu tenho a imagem de galinhas em uma pequena gaiola lutando por pequenos pedaços de comida, sem saber que em poucas horas serão mortas. Muitos de nós nos preocupamos somente com prosperidade e crescimento econômico de nossa própria comunidade ou nação e não nos damos conta da gravidade da situação global. Se tomássemos consciência do que está acontecendo ao planeta Terra, pararíamos nossas disputas e nos voltaríamos para o grande trabalho de curar o planeta, lar de todos nós.

Existe um outro bodhisattva mencionado no Sutra do Lótus, chamado Tesouro-da-Terra (Kshitigarbha). Kshitigarbha significa “ ventre ou armazém da Terra”. A Terra é bastante sólida, contém e preserva muitos tipos de jóias. Assim, esse nome descreve as qualidades desse bodhisattva: solidez, longevidade e preservação de muitas virtudes. O Bodhisattva Tesouro-da-Terra representa uma esfera de ação que é muito necessária atualmente. Ele se comprometeu a não descansar até que todos os infernos estivessem vazios. Ele não entrará no Nirvana e não gozará do estado de Buda. Ele não parará de trabalhar para levar todos os seres ao estado de Buda. O Bodhisattva Tesouro-da-Terra é alguém que se comprometeu a ir nos lugares mais obscuros do universo para resgatar aqueles que estão nos estratos de maior desespero, nas situações de maior sofrimento. Ele se comprometeu a ir àqueles lugares onde não há liberdade, democracia, solidariedade ou dignidade humana, onde há opressão, injustiça, desigualdade social e guerra. O inferno é o lugar para onde ele quer ir porque é onde a necessidade de ajuda é maior.

Muitas pessoas escolhem ir para lugares de grande sofrimento no mundo para ajudar aqueles que são oprimidos e não tem meios de viver uma vida decente. Muitos jovens querem abandonar a sua cultura de materialismo onde cresceram e fazem trabalho voluntário nesses lugares, onde podem expressar seu amor, solidariedade e entendimento, construindo escolas, barragens, ensinando, oferecendo ajuda médica etc. Isso é muito bom, mas para ajudar dessa maneira não precisamos ir a outros lugares, a algum país distante. O inferno é bem aqui, em nossa própria sociedade, e se quisermos nos tornar as mãos e braços do Bodhisattva Tesouro da Terra, temos de ser capazes de reconhecer o sofrimento nos infernos que estão em todos os lugares, dentro e em torno de nós.

Podemos identificar muito facilmente aqueles que estão no inferno e que precisam de nossa ajuda, da ação do Bodhisattva Tesouro-da-Terra. Existem muitos fantasmas famintos vagando à nossa volta o tempo todo. Sempre que organizamos uma cerimônia para oferecer comida para os fantasmas famintos, evocamos o nome desse bodhisattva. Pedimos a ele pra trazer os fantasmas famintos para nós e oferecemos a eles comida, bebida e a oportunidade de ouvir o Dharma, para que assim eles possam transformar seu sofrimento e nascer na Terra Pura do Buda. E nós sempre lembramos Tesouro da Terra do seu voto.

Uma pessoa que não estiver bem enraizada na sua família, na sua sociedade e na suas tradições, torna-se um fantasma faminto. Ele não sabe pra onde ir. Ela não acredita em ninguém e em nada. Quando você encontra alguém assim você poderá reconhecê-lo de imediato, na maneira que ele anda, na maneira que eles olham, na maneira que eles se comportam. Existe muito sofrimento neles porque suas raízes foram cortadas. Não estão enraizados na suas famílias, portanto, na prática, não têm família. Talvez, quando eles olhassem para como seus pais agiam um em relação ao outro, eles não se sentissem inspirados a se casar ou fazer uma parceria e criar uma família eles mesmos. Eles não acreditam na existência de relações saudáveis e amorosas, rejeitam sua famílias e não criam vínculos fortes e, desse modo, sofrem bastante.

Outros fantasmas famintos não estão enraizados em sua comunidade, em sua sociedade ou em suas tradições culturais e espirituais. Deixaram sua igreja ou sinagoga ou templo; não aceitam nenhum ensinamento e rejeitam a fé e a religião. Eles sentem como se essas coisas não fossem relevantes para eles por que elas não tem nada a ver com a atual experiência cotidiana de suas vidas. Então eles se tornam completamente alienados, cortados de qualquer coisa que pudesse trazer a eles apoio e estabilidade.

Milhares de fantasmas famintos são criados todos os dias em nossa sociedade. Nossa cultura de consumo enfatiza o materialismo e o individualismo em vez do serviço e da comunidade e nossas instituições religiosas e sociais frequentemente perderam contato com o real sofrimento do povo e fazem muito pouco para aliviá-lo. Em alguns casos, essas instituições se tornaram tão corruptas que acabam por criar ainda mais sofrimento na sociedade. Como resultado, mais e mais fantasmas famintos aparecem em todo lugar à nossa volta.

Para ajudar um fantasma faminto você tem que ser muito paciente, por que a energia de hábito de medo e desconfiança é muito forte em suas mentes e corações. Quando oferecemos a eles algo que pode satisfazer suas necessidades, eles não acreditam e frequentemente passam por dificuldades em aceitar a nossa ajuda. Eles são desesperadamente famintos por entendimento e amor, mas não acreditam que ninguém possa realmente entendê-los ou amá-los. Mesmo que falem sobre amor, eles realmente não entendem ou sabem o que é o amor e são muitos desconfiados. A única maneira de ajudar um fantasma faminto é passar um longo tempo com ele ou ela. Através do seu jeito de falar, agir e estar com um fantasma faminto em um longo período de tempo, você pode gradualmente ganhar a sua confiança até que ele comece a escutar você, receba sua ajuda e entendimento e comece a se transformar.

Leva muito tempo para um fantasma faminto se enraizar numa família ou numa comunidade. Criar um fantasma faminto é fácil demais e acontece muito rápido, mas curá-lo, ajudá-lo ou ajudá-la a se enraizar na comunidade humana é difícil e leva um longo tempo. Alguns sofrem tanto que não suportam mais, então tentam esquecer esse sofrimento nas drogas, no álcool, sexo etc, e isso faz com que sofram ainda mais. Talvez achemos que não temos como ajudar tal pessoa. O inferno está ali, o fantasma faminto está ali, mas talvez não tenhamos como ajudá-lo – e se não tomarmos conta de nós mesmos, corremos o risco de nos tornarmos, nós mesmos, fantasmas famintos. Assim, precisamos invocar a energia da Bodhisattva Kshitigarbha para nos ajudar.

Precisamos muita paciência e coragem para ser amigo deste bodhisattva, se tornar seus braços e mãos e fazer o seu trabalho no mundo.


PS: Solidariedade = Compaixão (ver Nota do Tradutor)

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3 comentários:

Heide disse...

querido Samuel,
obrigado pelo despertar.
-^- shanti

Anônimo disse...

Por que nao:)

Marilene disse...

Tão importante este texto, Samuel. Não teria como fazer um link direto para o Facebook? Muito obrigada por postar; o que vemos muito hoje são fantasmas famintos, os jovens no crack, a classe média nos shoppings, a dificuldade de nos enraizarmos em uma sangha ...muito atual esta questão.