sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Karma, Continuação e o Nobre Caminho Óctuplo

Karma, Continuação e o Nobre Caminho Óctuplo


Thich Nhat Hanh – Plum Village , Agosto de 2005

Publicado na revista Mindfulness Bell - Karma, Continuation and The Noble Eightfold Path (Tradução: Samuel Cavalcante)


Hoje, eu gostaria de falar sobre reencarnação, renascimento e continuação. Se olharmos para laranjeira, poderemos ver que ela faz um esforço diário para ter uma longa continuação. Todo dia a laranjeira faz mais folhas e, na primavera, faz flores de laranjeira que, por sua vez, se tornam pequenas laranjas. Nessas laranjas estão as sementes e assim é como a laranjeira assegura sua continuação. A laranjeira tem que continuar.

E nós também. Somos humanos e existe uma tendência natural para nos prepararmos para continuar. Assim, continuação, renascimento, reencarnação, é normal. Como continuamos? Esta questão inicia nossa meditação juntos. Cada vez que você produz um pensamento, esse pensamento é uma continuação. Esse pensamento tem efeitos em nós, em nosso corpo, em nossa mente e no mundo. O efeito desse pensamento é nossa continuação. Produzir um pensamento é a causa; o efeito é como esse pensamento impacta a nós e ao mundo.

Pensar é uma ação. Como o pensamento pode ser muito forte, pode causar dor, pode modificar nosso corpo, mudar nossa mente, mudar o mundo. Desse modo, o pensamento é uma forma de ação.

No Budismo, usamos a palavra karma. Karma significa ação, ação enquanto causa, ação enquanto efeito/fruto. Quando a ação é uma causa, nós a chamamos karmahetu. A palavra chinesa para karmahetu contém dois caracteres, um significando karma e outro significando “semente”. Quando produzimos um pensamento, esta produção é karmahetu, karma-causa. Esse pensamento terá um efeito sobre a nossa saúde física e mental e sobre a saúde do mundo. E esse estado de saúde, bom ou ruim, é fruto deste karma, fruto deste pensamento. Karmaphala é o karma-fruto. Assim, pois, karma é ação, ação na causa e também no fruto.

Pensar Correto

Quando produzimos um pensamento, temos de nos assegurar que seja bom, um pensamento correto, por que, se assim for, ele nos trará saúde física e mental e ajudará o mundo a se curar. Nossa prática é tentar viver de um modo tal que, todo dia, só produzamos bons pensamentos, pensamentos em direção ao pensar correto. Temos que nos treinar para que seja assim. Um mau pensamento pode destruir a saúde física e moral de nós todos e do mundo inteiro. Dessa maneira, temos que ser cuidadosos para produzir apenas bons pensamentos.

O pensar correto é recomendado a todos nós por Buda. Trata-se da ação em forma de pensamento. Cada vez que produzimos um pensamento, esse pensamento carregará nossa assinatura. Você não poderá dizer “Não, eu não produzi esse pensamento”. Isso chama-se karma. Karma-causa, karma-fruto. Se existe uma causa, haverá um fruto – e esse fruto pode ser amargo ou doce, vai depender da natureza do karma.

Fala Correta

Primeiro, temos de entender que falar é ação. Quando dizemos algo, esta fala terá um efeito em nosso corpo, em nossa mente e no mundo inteiro. A boa fala nos trará alegria e saúde – tanto física quanto moral – e mudará o mundo em direção à bondade. Nós devemos produzir uma fala correta, que inspire entendimento, alegria, esperança, fraternidade e irmanamento. Sua fala é uma semente, uma causa. E o que ela produzir em você e no mundo é um karma-fruto, karmaphala. Ação enquanto causa e enquanto fruto.

Algumas vezes, a ação-fruto se manifesta imediatamente depois do karma-causa. Às vezes, leva meses ou anos – mas, cedo ou tarde, esta ação se tornará efeito.

Ação Correta

O terceiro tipo de ação é o ato físico, o ato levado a termo pelo corpo. Com o corpo você capaz de fazer coisas. Pode matar uma pessoa, um animal ou matar uma árvore. Pode salvar uma pessoa, um animal, salvar uma árvore. O Buda recomenda a Ação Correta por que ela terá efeito na sua saúde física e moral, assim como na saúde do mundo. Temos que nos assegurar que nossas ações vão no caminho da ação correta.

Jean-Paul Sartre era um filósofo da tradição existencialista. Ele disse que o homem era a soma de suas ações. Quando uma criança nasce, ela ainda não agiu ainda, então ela não pode ser definida desse jeito. Mas assim que o homem começa a agir, podemos observar suas ações e ver o homem. O homem é definido pelos seus atos. O que J-P. Sartre disse está bastante próximo do Budismo.

Mas a declaração de Sartre, não é detalhada o suficiente, por que temos demos de incluir aí os pensamentos. Nossa fala advém do que nós pensamos; o pensamento é a base de toda a fala e de toda a ação. O que nós podemos dizer é que o homem é a soma de seus pensamentos, palavras e atos. Acho que Jean-Paul Sartre concordaria, porque usando a palavra 'atos' ele quisesse incluir pensamento e fala. Pensamento como ação e fala como ação.

Os pensamentos, a fala e a ação criam karma e nós produzimos essa energia em cada momento da nossa vida diária. Você continua a dizer coisas, a fazer coisas, e cada pensamento, cada palavra, cada ato carregará a sua assinatura. Isto é sua continuação. Nada é perdido.

O cientista Lavoisier disse, “Nada se perde”. Ele é um budista, essencialmente. Nada é criado, nada se perde. Tudo o que você produziu de, pensamentos, atos e fala continua a influenciar o mundo – e isto é a sua continuação. Sua continuação é o seu renascimento e sua reencarnação. Nada é perdido. Então você tem que garantir um bom futuro, uma boa continuação.

Queremos continuar belos / na beleza (em estado de graça). Mas nós sabemos que para isso acontecer devemos garantir que nos pensamentos sejam corretos, nossa fala seja a fala correta e nossos atos, ações corretas. Estes são três ramos do Nobre Caminho Óctuplo que nos foi recomendado por Buda.

Visão Correta

O que é a visão correta? É a nossa maneira de compreender o mundo; ela carrega consigo um insight da realidade última. Nós somos tão frequentemente vítimas de visões incorretas que criamos sofrimento para nós e para os outros – temos de evitar visões encorretas, evitar percepções erradas. Se continuamos a sofrer por causa da violência e do terrorismo é por que precisamos da visão correta. Os terroristas têm uma visão incorreta acerca de si mesmos e dos outros e os anti-terroristas do mesmo modo com relação a si mesmos e aos terroristas. Quando nos baseamos em visões incorretas continuamos a nos matar uns aos outros, por isso, temos que observar mais profundamente para obter a visão correta. Com ela, tornamo-nos capazes de parar a violência e o terrorismo. É a base de todo o pensamento correto, da fala correta e ação correta e é por isso mesmo que Buda começou por ela, a visão correta.

Buda descreve a visão correta de um modo preciso, profundo e claro: a visão correta reflete sabedoria, a natureza da existência.

Impermanência

Por exemplo, Buda falou sobre a impermanência das coisas e dos fenômenos e outros homens sábios assim também o fizeram. Heráclito disse que você jamais se banhará num rio duas vezes, porque o rio está mudando constantemente. A visão correta e o insight da impermanência andam sempre juntos. Uma visão que que não está baseada no entendimento da impermanência é uma visão incorreta. Quando possuímos uma visão correta, não sofremos e podemos criar felicidade.

Isto não é somente filosofia, é vida. Quando você tem problemas com sua companheira e vocês estão prestes a discutir, Buda diria a vocês: “Queridos amigos, fechem seus olhos e imaginem sua amada ou seu amado daqui a trezentos anos. Em que ela ou ele terá se transformado?” Quando você conseguir ver o que vai acontecer daqui a trezentos anos, verá que não vale a pena discutir, por que a vida é impermanente. Se vocês puderem tocar na impermanência, quando abrirem seus olhos, vocês nãos sentirão mais raiva. Estarão a salvo, por causa do insight sobre a impermanência.

De um ponto de vista intelectual, você pode concordar que as coisas são impermanentes mas, na sua vida prática, você age como se elas fossem permanentes. Buda não falou da impermanência como uma filosofia, mas como uma prática. Devemos praticar a concentração na impermanência. Por exemplo, durante todo o dia, quando você olhar algo, ouvir alguma coisa, você deveria estar em contato com o insight sobre a impermanência.

Olhando uma flor, você vê que ela é impermanente. Olhando para alguma pessoa, você vê que ele ou ela é impermanente. Desse modo, o insight sobre a impermanência estará conosco o tempo todo e é assim por que isto não é uma teoria, mas uma concentração. É a concentração na impermanência que irá porá você a salvo, não a idéia da impermanência.

Com a plena consciência podemos manter o insight sobre a impermanência vivo – e isso nos protegerá de produzirmos pensamentos incorretos ou fala incorreta. Assim, a visão correta é a visão que contém a natureza da impermanência.

Não-eu

Imaginemos que cada pessoa tenha uma alma separada que permanece sempre a mesma, mesmo que o corpo envelheça e se decomponha. Esta é uma visão incorreta, pois vais de encontro à verdade da impermanência. Nada permanece o mesmo por dois momentos consecutivos. Então, se aceitarmos a realidade da impermanência, teremos de aceitar a verdade do não-eu.

Impermanência é a visão a partir da perspectiva do tempo. A mesma coisa, da perpesctiva do espaço é o não-eu. Não-eu e impermanência são a mesma coisa. Quando um filho vê o pai como uma outra pessoa, que lhe causou muito sofrimento e dificuldade, ele irá querer puní-lo com suas palavras e ações. Ele não sabe que fazer seu pai sofrer é fazer sofrer a si mesmo, ao mesmo tempo. Você precisa entender que você e seu pai compartilham a mesma realidade. Você é a continuação de seu pai. Se seu pai sofre, você sofrerá também, mas se puder ajudá-lo a não sofrer, então a sua felicidade será possível. Com a ajuda do insight do não-eu podemos evitar muitos erros, por que este insight se traduz em visão correta..

Terroristas e anti-terroristas imaginam a si mesmos como dua entidades separadas. O anti-terrorista diz “Temos de punir o terrorista, temos de eliminá-lo”; o terrorista também pensa que o outro é a causa do sofrimento no mundo e, para que ele mesmo sobreviver, o outro também tem de ser eliminado. Eles não sabem que são uma mesma coisa.

Todas as partes em conflito têm compreender o insight do não-eu. Se o outro lado continua a sofrer, se não houver segurança, paz ou entendimento, então não haverá segurança, paz ou entendimento no nosso lado. Quando ambos constatarem que ele inter-são, quando tocarem a natureza do não-eu, então haverá ali uma visão correta. Com a visão correta, pensaremos, falaremos e agiremos da maneira correta. Assim, a segurança poderá se tornar realidade. A visão correta é uma visão da realidade que se traduz na impermanência, não-eu e interser.

Interser

Quando observamos profundamente um flor, vemos os elementos que se juntaram para permitir que ela se manifestasse. Podemos ver as nuvens, manifestando-se como chuva. Sem chuva nada pode crescer. Assim, quando eu toco a flor, estou tocando as nuvens, tocando a chuva. Isto não é poesia, é realidade. Se retirarmos as nuvens e a chuva da flor, a flor não estará lá. Com os olhos de Buda, vemos as nuvens e a chuva na flor. Podemos, ainda tocar o sol, sem queimarmos os dedos. Sem o sol nada pode crescer, portanto, não podemos retirar o sol da flor. A flor não pode existir separadamente; ela tem de inter-ser com a luz, com as nuvens, com a chuva. A palavra “interser” está mais próxima da realidade que a palavra “ser”. Ser, na verdade, significa interser.

Esta verdade é a mesma para mim, para você e para Buda. Buda tem de inter-ser com tudo. Interser e não-eu são objetos para nossa contemplação. Temos de nos treinar para sermos capazes de, na nossa vida diária, tocar a verdade do inter-ser, do não eu, em cada momento. Você estará em contato com as nuvens, com a chuva, com as crianças, com as árvores, rios e este contacto revelará a verdadeira natureza da realidade, a natureza da impermanência, a natureza do interser, do não-eu, da interdependência. Se você puder tocar a realidade desse modo, você terá a visão correta. Tendo a visão correta, todos os seus pensamentos, palavras e ações serão corretos.

É por esta razão que cultivar a visão correta é a base da prática do Budismo. E podemos praticá-la como indivíduos, como comunidade e como nação. Se estivermos fechados na prisão da permanência, do eu, não obteremos a visão correta. Para cultivarmos a visão correta, temos de ter concentração. Somos cheios de inteligência para entender as noções de impermanência e não-eu, mas as noções não irão nos ajudar. Por isso, temos de treinar para ver as coisas em sua verdadeira natureza. Temos de manter este insight vivo a todo instante. Por isso é que a concentração é tão importante.

Concentração Correta

A palavra sânscrita para concentração correta é samadhi. As noções de impermanência e não-eu são úteis, mas não são suficientes para libertá-lo, para dar a você uma visão correta. Assim a concentração é necessária. Samadhi prajna é a visão correta, o insight que está na base de todo pensamento correto, fala correta e ação correta. Mas para cultivar o prajna temos de praticar a concentração. Temos de viver em concentração para tocar profundamente as coisas em todos os momentos. Nós viveremos profundamente quando pudermos ver a natureza da impermanência, do não-eu e do interser na flor, e podemos fazer isso graças à prática da concentração. Sem samadhi, não há prajna, não há insight. A concentração é a porta que se abre para a realidade última. Ela nos dá a visão correta.

Plena Consciência Correta

Mas antes da concentração, temos de cultivar a plena consciência. Plena consciência é smrti.

A plena consciência é a energia que pode nos ajudar a trazer a mente de volta ao corpo para que assim possamos nos estabelecer no momento presente. Desse modo, poderemos observar o céu azul. Poderemos observar as nuvens. Poderemos observar a criança que está sentada diante de nós. Tocaremos profundamente as maravilhas da vida. Isto é plena consciência.

Plena consciência é a capacidade de reconhecer o que está acontecendo no momento presente. Quando a dor se manifestar, seremos capazes de abraçá-la e, assim fazendo, transformá-la. Com uma forte plena consciência, podemos perceber que o Reino de Deus está disponível e que a alegria de viver é possível.

Andre Gide disse que Deus é alegria. Gosto disso. E ele disse ainda: “Deus está disponível vinte e quatro horas por dia”. Também nisso eu concordo com ele. Se Deus está disponível 24 horas por dia, então seu Reino também está. A única questão que surge é se estamos disponíveis para o Reino de Deus, disponíveis para a felicidade. A plena consciência nos torna disponíveis para o Reino de Deus, para as maravilhas da vida que estão bem aqui, no momento presente. Sei que existem muitos budistas na França, incluindo Jean-Paul Sartre e Andre Gide e o cientista Lavoisier.

Plena consciência é que praticamos em Plum Village. Nós caminhamos de maneira que cada passo produz plena consciência. Quando respiramos, lavamos as mãos, cozinhamos, fazemos tudo com plena consciência. Gerar a energia da plena consciência é uma prática básica, por que a plena consciência é a portadora, aquela energia que traz a concentração.

Quando você está plenamente consciente de algo, você está concentrado. A energia da concentração está na plena consciência. Na medida em que você prossegue com a prática, essa concentração se torna cada vez mais forte. Com uma concentração vigorosa você poderá penetrar profundamente na realidade e, assim, tocar a impermanência como realidade. Você poderá tocar o interser, o não-eu.

Buda começou com a visão correta, mas eu gostaria de começar pela plena consciência.

Meio de Vida Correto

Bem, temos o meio de vida correto, nosso trabalho, nosso emprego. Os Cinco Treinamentos da Plena Consciência nos instruem a escolher um meio de vida que nos ajude a produzir pensamentos, palavras e ações corretas. Infelizmente existem certos tipos de trabalho que nos ferem, que ferem o meio ambiente, que carrega a violência. Temos que observar com plena consciência que trabalho devemos ter no qual seja possível praticar o pensamento, a fala e a ação corretos.

Professores podem praticar de tal forma que seus pensamentos, palavras e ações nutram seus estudantes em cada momento do dia. As crianças as quais ele ensina podem carregar em si muito sofrimento. Talvez seus pais não tenham lhes oferecido suficientemente tipos apropriados de alimento. Talvez, não tivessem ainda chance de receber um pouco de pensamento correto, de fala e ações corretas, e possam estar feridos.

Como um professor, você pode olhar para a criança e ver o sofrimento. E você sabe que com o pensamento, a e açãos corretos, você se tornará capaz de curar as feridas. Poderá ter a habilidade de dar àquela criança uma segunda chance, fazendo o papel de pai ou mãe para ela. A sala de aula pode se tornar uma família. Se você é um médico ou um terapêuta, voce pode fazer a mesma coisa. Se você tiver discernimento e solidariedade você terá bastante poder, pois quando as pessoas vierem em sua direção, seus pensamentos ajudarão a curá-las. Você poderá ajudá-las por que curou-se a si mesmo, desenvolvendo a energia do entendimento e da solidariedade .

Buda falou de meio de vida correta não para os monges e monjas, mas para todos. O meio de vida correto, ajuda você a produzir pensamentos, fala e ações corretos. Precisamos nos dedicar um tempo para observar se o nosso trabalho fortalece a produção dessas energias - todos os dias.

Bons pensamentos sempre andam juntos com a compreensão e com o amor. Uma ocupação que leve você a produzir pensamentos de raiva e discriminação não é bom nem para a sua saúde e nem para a saúde do mundo. Talvez você tenha de aceitar um outro trabalho, com um salário mais baixo, mas que lhe dará a chance de gerar bons pensamentos e boa fala. É possível viver de um modo mas saudável e alegre. Se você possui uma visão correta, você terá coragem o bastante para parar a corrente de violência e apego. Portanto, o meio de vida correto é muito importante e podemos definir sua importância a partir do pensamento, fala e ação corretos.

O Esforço Correto

O oitavo meio é a diligência correta, o esforço correto. Buda nos ensinou a cultivar e cuidar de nossa energia, e ele também ensinou como praticar para conservar esta energia. Na psicologia budista podemos ver nossa consciência como tendo duas camadas. A camada de baixo é chamada de armazenadora. Ela está sempre operando, mesmo quando dormimos. Ela recebe as informações e as classifica e toma muitas decisões sem a intervenção da consciência mental, que é a camada superior.

Quando você dirige um carro, você pensa que é a sua consciência mental que está dirigindo mas, na verdade, uma grande parte do serviço é realizado pela camada armazenadora, sem o nosso pensar consciente. Quando você executa suas tarefas rotineiras, a camada armazenadora desempenha um papel importante.

Quando a camada armazenadora opera, ela gasta menos energia metabólica que a mente ao pensar. A consciência mental gasta um bocado de açúcar, glicogêncio e proteínas para funcionar. No nível da camada armazenadora as coisas são feitas de um modo rápido e econômico, de tal modo que a maioria das coisas são conduzidas por ela e a consciência mental só faz a parte final. Na camada armazenadora muita sementes estão enterradas, sementes boas e más. A semente da raiva está lá. A do desespero está lá. As sementes da mesquinharia e da solidariedade estão lá. E também a da alegria. Assim para cultivar o esforço correto, Buda propôs quatro práticas.

Quatro Práticas para Cultivar o Esforço Correto

A primeira prática é não alimentar as sementes ruins. Você sabe que existem sementes negativas em você e que se você manifestá-las irá sofrer. Assim deixe-as dormindo em paz. Quando você vê um filme, quando você lê um jornal, ouve uma música, existe a possibilidade de estar alimentando alguma semente e esta se manifeste. Nós temos que consumir em estado de plena cosnciência para que as sementes ruins não sejam regadas. Quando nos amamos uns aos outros temos de assinar um tratado de paz. “Querido(a), prometo nunca regar as sementes ruins que existem em você ou em mim, e você deve fazer o mesmo. Você também tem essas sementes. Você não deve regá-las em você e nem em mim”.

A segunda prática é a de que cada vez que uma formação mental ruim se manifeste, devemos fazer com que volte a dormir novamente, por que se a mantermos aqui durante muito tempo ela se fortalece lá na base. Se a deixarmos aqui por uma hora, será uma hora de fortalecimento. Isto é perigoso.

A terceira prática é permitir que as boas sementes sejam regadas para que elas se manifestem na mente. Por exemplo, uma palestra sobre o Dharma é um tipo de chuva que rega as boas sementes em você. Quando elas se manifestarem na sua consciência mental, a paisagem fica muito mais bela.

A quarta prática é a de quando uma boa semente tenha já se manifestado, ajudar a mantê-la na viva na consciência mental o máximo de tempo possível. È como se você tivesse um bom amigo que viesse lhe visitar trazendo boas novas, você tenta mantê-lo consigo o mais possível.

Este é o ensinamento de Buda sobre o esforço correto, sobre a diligência correta e sobre como conservar energia. É muito concreto e prático e feito de maneira natural e relaxada. Não precisamos lutar ou brigar; não precisamos fazer esforços exaustivos. Naturalmente e com muito prazer, podemos desfrutar da prática.

Estas são as oito práticas corretas, representando o Nobre Caminho Óctuplo proposto por Buda para todos nós. Se um ensinamento pode revelar o Nobre Caminho, é um autêntico ensinamento de Buda.

A Visão Correta da Reencarnação.

A sua continuação está acontecendo agora mesmo, por que todos os dias você produz pensamentos, palavras e ações que carregam a sua assinatura. Não precisamos esperar que o corpo se decomponha para continuarmos.

A maioria das pessoas pensa em reencarnação em termos de uma alma permanente. Este é o Budismo popular. Mas nós temos de nos elevar à altura da visão correta. Continuação é uma necessidade, é uma verdade. Mas esta continuação deve ser vista à luz do não-eu e da impermanência.

Se por exemplo, você quiser reconhecer a minha continuação, não olhe nesta direção (Thay aponta para si mesmo). Há uma parte da minha continuação que vem nesta direção, mas quando vocês olharem em volta, verão muitas outras formas de continuação. Por isso, não espere o corpo se decompôr. Nós mesmos já começamos a nossa continuação. Você tem o poder de mudar. Você pode garantir uma linda continuação. Vamos supor que ontem você produzise um pensamento que não fosse digno de você mas, hoje, você se desculpa. Você pensa: “ Eu não quero ser continuado daquele jeito”. Você pode se corrigir e transformar aquela continuação;

Se você tiver tocado a visão correta, estará apto a produzir um pensamento diferente, digno de você, hoje, um pensamento carregado de entendimento, solidariedade e não-discriminação. No momento em que você produzir este pensamento maravilhoso, ele pode agarrar aquele que você produziu ontem. E, no espaço de meio segundo, ele será capaz de tranformá-lo.

Assim, você tem a chance de corrigir o passado – isto é maravilhoso. Nós dizemos que o passado já foi, mas ele está sempre retornando, com suas novas manifestações as quais ficam disponíveis para serem corrigidas.

Se você tiver dito algo que não é digno de você, diga outra coisa coisa hoje – isto irá transformar tudo. Faça algo diferente hoje, baseado na visão correta, e transforme toda a situação. Isso é possível.

Se você tiver uma Sangha que lhe apóie, você será apoiado pela visão correta coletiva, então ficará mais fácil produzir tais pensamentos, tais palavras, tais ações, para transformar tudo agora mesmo, para assegurar um bom futuro, uma boa continuação.

O ensinamento do Buda é muito profundo e, ao mesmo tempo, muito prático. Este ensinamento tem a capacidade de nos curar, de transformar nossa dor, nosso medo. É bom ter tempo suficiente para aprender mais sobre ele e colocá-lo em prática na nossa vida diária.

PS: Solidariedade = Compaixão (Nota do Tradutor)

Voltar para: interserblog.blogspot.com

3 comentários:

ie disse...

ele inicia nos falando sobre a questao da açao e das consequencias de tais açoes nas vidas das pessoas,mas jamais separadamente,pois coloca logo adiante a questao do inter-ser. portanto trata-se de um compromisso e uma responsabilidade mútua.
depois ele explana graciosamente sobre alguns dos aspectos da senda óctupla, e sobre a impermanencia tambem. mas ele o faz com devoçao e amor,portanto quando lemos, sentimos que estamos sendo abraçados amorosamente por alguem que conhece a dor mas que quer retirar esta dor do nosso caminho. não há obstaculos nem liçoes de moral vazias e duras. ao contrario, ha apenas um convite para que nos entendamos,pois nao existimos separadamente. ...excelente.

Paulo disse...

Ótimo texto.

Com ele percebemos que falar em "reencarnação" não faz sentido, afinal, só continuamos naquilo que é "não-eu".

Sérgio de Castro disse...

Parabéns pelo texto. Muito bom!

Com as mãos postas em reverência,
Gassho