segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Natureza e Não-Violência

Natureza e Não-Violência


(Capítulo do livro de Thich Nhat Hanh "The World We Have",
tradução de Samuel Cavalcante)


Suponhamos que a gente pegue uma semente de milho e a plantemos em um solo úmido. Uma semana depois ou mais, a semente irá germinar. Depois de três dias, podemos voltar e perguntar ao brotinho “querida planta, você se lembra do tempo em que você ainda era uma semente?”. O brotinho pode ter esquecido, mas como ficamos observando, sabemos que o brotinho de milho realmente veio do grão.

Quando olhamos para a planta não vemos mais a semente e, assim, pensamos que a semente morreu. Mas ela não morreu, ela se tornou a planta. Se você for capaz de ver a semente de milho no pé de milho, você tem um tipo de sabedoria que o Buda chamou de sabedoria da não-dsicriminação. Você não dsicrimina entre a semente e a planta. Você vê que elas intersão entre si, que elas são a mesma coisa. Você não pode distinguir a semente da planta e nem a planta da semente. Olhando com profundidade uma espiguinha de milho você pode ver a semente de milho lá, ainda viva, mas com uma nova aparência. A planta é a continuação da semente.

A prática da meditação nos ajuda a ver coisas que as outras pessoas não vêem. Olhamos profundamente e podemos ver que o pai e o filho , pai e filha, mãe e filho, mãe e filha, grão de milho e espiga de milho têm uma relação muito próxima. É por isso que temos que praticar pra despertamos para o fato, para a verdade de que intersomos. O sofrimento de um é o sofrimento de outro. Quando muçulmanos e cristãos, hindus e muçulmanos, israelenses e palestinos, perceberem que são irmãos e irmãs uns pros outros, que o sofrimento de um lado é o sofrimento do outro lado, então essas guerras logo acabarão. Quando virmos que nós e todos os seres vivos somos feitos da mesma natureza, como é que poderão existir ainda divisões entre nós? Como poderá ainda existir essa falta de harmonia? Quando percebermos o interser da nossa natureza, pararemos de culpar, explorar e matar, pois saberemos que todos intersomos. Este é o grande despertar que devemos cultivar para que a Terra seja salva.

Nós, seres humanos, sempre tivemos a pretensão de sermos únicos, de estarmos fora da natureza. Classificamos os outros animais e seres vivos como “natureza”, como algo aparte de nós, e agimos como se fôssemos mesmo separados. Então nos perguntamos “Como devemos tratar a natureza?”. Ora, nós devíamos tratar a natureza da mesma maneira que devemos tratar a nós mesmos: de maneira não-violenta. Seres humanos e natureza são inseparáveis. Assim como não devemos ferir a nós mesmos, não devemos ferir a natureza e vice-versa.

Causar danos em outros seres humanos, causa danos em nós mesmos. Acumular excessivamente riquezas e possuir porções excessivas dos recursos naturais tiram dos outros seres humanos a chance de viver. Participar em sistemas sociais opressivos e injustos cria um abismo entre ricos e pobres e agrava a situação da injustiça social. Toleramos excessos, injustiças e guerras sem nos atentarmos para o fato de que a espécie humana sofre como uma família. Enquanto o resto da família humana sofre e passa fome, o gozo da falsa segurança e a riqueza são ilusões.

Está claro que o destino de cada indivíduo está inextrincavelmente ligado com o destino de toda a espécie humana. Temos que deixar os outros viver se quisermos viver. A única alternativa para a coexistência é a co-não-existência. Uma civilização na qual temos que matar e explorar outros para viver não é uma civilização sadia. Para criarmos uma civilização sadia, todos temos que ter igual acesso à educação, trabalho, comida, abrigo, cidadania mundial, ar puro e água limpa e a capacidade de circular livremente e escolhermos morar em qualquer lugar do planeta. Sistemas políticos e econômicos que negam a alguém esses direitos ferem toda a família humana. A vigilância acerca do que está se passando com a família humana é necessária para reparar os danos já provocados.

Para gerar a paz no interior da família humana temos que trabalhar por uma coexistência harmônica. Se continuarmos a nos isolar do resto do universo, aprisionando-nos em preocupações estreitas e problemas imediatos, vai parecer que não queremos construir a paz ou sobreviver. A espécie humana é parte da natureza. Precisamos cultivar este insight antes para podermos ter harmonia entre as pessoas. Crueldade e destrutividade destróem a harmonia da família humana e destróem a natureza. Entre as medidas para remediar essa situação está uma legislação que não seja violenta nem para nós nem para a natureza e que nos ajude a evitar nos tornarmos destrutivos e cruéis.

Cada indivíduo e toda a humanidade é parte da natureza e deveria ser capaz de viver em harmonia com ela. A natureza pode ser cruel e destrutiva. Mas nós precisamos tratar a natureza do mesmo jeito que tratamos a nós mesmos como indivíduos e como família humana. Se a gente tentar dominar e oprimir a natureza, ela se rebela. Devemos ser amigos da natureza para lidarmos com alguns de seus aspectos e criarmos harmonia com o nosso meio ambiente. Isto requer uma compreensão inteira da natureza. Tufões, tornados, secas, enchentes, erupções vulcânicas, proliferação de insetos perigosos, tudo isso se consitui em perigo para a vida. Podemos evitar grande parte da destruição que os desastres naturais causam se trabalharmos com o ambiente desde o início, fazendo planos e construindo decisões que levam em conta a natureza do lugar, ao invés de tentar impor o controle completo sobre ela com barragens, desmatamento e outros dispositivos e políticas que, no final, causam só mais prejuízos.

Um exemplo do que acontece quando tentamos controlar completamente a natureza é o nosso uso excessivo de pesticidas, que mata indiscriminadamente muitos insetos e pássaros e perturba o equilíbrio ecológico. Um crescimento econômico que devasta a natureza ao poluir e exaurir recursos não renováveis torna impossível para os seres vivos viver no planeta Terra. Tal crescimento pode parecer temporariamente benéfico para algumas pessoas, mas na realidade, rasga e destrói a natureza como um todo. A harmonia e o equilíbrio entre os indivíduos, sociedade e a natureza está sendo destruída. Os indivíduos estão doentes, a sociedade está doente e a natureza está doente. Precisamos restabelecer o equilíbrio, mas como? Por onde começar o trabalho de cura – pelo indivíduo, pela sociedade ou pela natureza? Precisamos trabalhar nos três domínios. Pessoas de diferentes disciplinas científicas tendem a focar suas áreas particulares. Por exemplo, políticos consideram que um efetivo rearranjamento da sociedade é necessário para a salvação dos humanos e da natureza, e, portanto, enfatizam que todos devem se engajar na luta para mudar o sistema político.

Os monges budistas são como psicoterapeutas, tendemos a ver o problema pela ótica da saúde mental. A meditação objetiva criar harmonia e equilíbrio na vida do indivíduo. A meditação budista lida tanto com o corpo quanto com a mente e usa a respiração como instrumento para acalmar e harmonizar o ser humano como um todo. Como em qualquer prática terapeutica, o paciente é colocado em um ambiente que favoreça a restauração da harmonia. Usualmente os terapeutas passam o tempo observando e pontuando seus pacientes. Portanto, eu conheço alguns que, como os monges, observam a si mesmos primeiro, reconhecendo a necessidade de libertarem-se primeiro a si mesmos dos medos, ansiedade e desespero que existem dentro de cada um de nós. Muitos terapeutas parecem pensar que não têm problemas mentais, mas o monge reconhece em si mesmo sua própria suscetibilidade aos medos e ansiedades, e à doença mental causada pelo caráter desumano de nossos sistemas sociais e econômicos.

Os praticantes budistas acreditam que a natureza interconectada do indivíduo, da sociedade e da ambiente físico se revelará a nós à medida em que nos curamos e assim não seremos mais possuídos pelas ansiedades, medo e pela dispersão da mente. Dentre os três domínios – indivíduo, sociedade, natureza – é o individuo que começa a efetivar a mudança. Mas para isso, o indivíduo tem que estar inteiro. E já que isso requer um ambiente favorável à cura, o indivíudo tem que buscar um estilo de vida livre da destrutividade. Nossos esforços para mudar a nós mesmos e o meio ambiente são ambos necessários, mas um não pode acontecer sem o outro. Sabemos como é difícil mudar o meio ambiente se os indivíduos não estiverem em equilíbrio. Nossa saúde mental tem como premissa que o nosso esforço de recuperar nossa humanidade deve ser nossa prioridade.

Restaurar nossa saúde mental não significa simplesmente nos ajustarmos ao mundo moderno, de rápido crescimento econômico. O mundo está doente e se adaptar a um ambiente doente assim não trará saúde real. Muitas pessoas que precisam de psicoterapia são, na realidade, vítimas da vida moderna que nos separa uns dos outros e do resto da família humana. Uma maneira de ajudar é se mudar para uma área rural, onde se têm a chance de cultivar a terra, plantar e colher o próprio alimento, lavar as roupas no rio e viver de maneira simples, partilhando da mesma vida que milhões de camponeses mundo afora.

Para que a terapia seja efetiva, precisamos de uma mudança do meio ambiente. Atividades políticas são um recurso apenas, mas não o único. Tranquilizarmo-nos através do consumo descontrolado não é a solução. O envenenamento do nosso ecossistema, a explosão de bombas, a violência nos bairros e na sociedade, a pressão do tempo, o barulho, as multidões solitárias – tudo isso foi criado no curso desse nosso crescimento econômico e são fontes de doenças mentais. Ao fazer o que quer que seja para eliminar estas causas, estaremos praticando uma medicina preventiva.

Manter nossa saúde mental como nossa prioridade número um significa também reconhecer nossa responsabilidade pela família humana inteira. Precisamos agir para evitar que os outros fiquem doentes ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria humanidade. Quer sejamos monges , monjas, professores, terapeutas, artistas, carpinteiros ou políticos, somos todos humanos também. Se aplicarmos a nós mesmos o que tentamos ensinar aos outros, tornaremo-nos mentalmente doentes. Se apenas continuarmos com nossas vidas, convivendo com o status quo, gradualmente nos tornaremos vítimas do medo, da ansiedade e do egoismo. Uma árvore se revela a si mesma para um artista quando ele consegue estabelecer uma certa relação com ela. Alguém não suficientemente humano poderá olhar para seus similares humanos e não vê-los, poderá olhar para uma árvore e não vê-la. Muitos de nós não conseguimos ver as coisas por que não somos completamente nós mesmos. Quando somos completos, podemos ver uma pessoa e, através de uma vida integral, demonstrar para todos que a vida é possível, que o futuro é possível. Mas a questão “O futuro é possível?” não tem sentido se não formos capazes de ver os milhões de outros seres humanos que sofrem, vivem e morrem à nossa volta. Depois de conseguirmos vê-los realmente, seremos capazes de ver a nós mesmos e ver a natureza. Lembremos o tsunami no Oceano Índico de 2004, que matou centenas de milhares de pessoas da Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Índia e África. Gente vinda da Europa, Austrália e Estado Unidos, que ali passavam as férias, também morreram. Todo mundo sofreu muito e ficamos nos perguntando por quê? Por que Deus permitiu que isso acontecesse? Por que essas pessoas morreram? Eu também sofri. Mas eu pratiquei. Sentei-me e pratiquei o olhar profundo. E o que eu vi foi que quando essas pessoas morreram, nós também morremos com elas, por que todos nós intersomos com elas.

Você sabe que quando uma pessoa amada morre, uma parte de você também morre; de alguma maneira você morre com essa pessoa. Isso é fácil de entender. Assim, se tivermos compreensão e solidariedade, quando virmos outras pessoas morrendo, mesmo pessoas estranhas do outro lado do mundo, nós sofreremos e morreremos com elas. O que descobrimos é que elas morrem por nós. Assim, temos que viver por elas. Temos que viver de tal modo que o futuro seja possível para as nossas crianças e para as crianças delas. Se a morte delas terá ou não um significado, dependerá de nosso modo de vida. Este é o insight do interser. Elas são nós e nós somos elas. Quando elas morrem, também morremos. Quando continuamos a viver, elas continuam a viver conosco. Com este insight, você sofrerá menos e saberá como continuar. Você as carrega dentro de si e, sabendo disso, fica em paz.

Praticar a plena consciência e olhar profundamente na natureza das coisas é descobrir sua verdadeira natureza, a natureza do interser. Encontraremos a paz e podemos gerar a força que precisamos para estar em contato com tudo. Com este entendimento, podemos facilmente sustentar o trabalho de amor e cuidado pela Terra, e por nós mesmos, por um longo tempo.

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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Que Acontece Quando Morremos?

Transcrição de uma palestra de
Dharma dada por Thây em Hong Kong, em 15 de Maio de 2007
Tradução: Samuel Cavalcante




Para responder ao que acontece conosco quando morremos, precisamos responder a uma outra questão: o que acontece quando estamos vivos? O que está acontecendo agora mesmo conosco? Em inglês costumamos dizer 'nós somos', mas é mais adequado dizer 'nós nos tornamos', por que as coisas estão sempre se tornando algo. Não somos a mesma pessoa em dois minutos consecutivos. Uma foto de quando você era bebê é diferente de você agora. De fato, você não é exatamente a mesma pessoa quando bebê e nem uma pessoa totalmente diferente. Em uma foto sua com cinco anos, você não é exatamente o mesmo e nem outra pessoa - a forma, os sentimentos e as formações mentais são diferentes.

No caminho do meio não existe nem a condição do que é o mesmo e nem a condição do que é diferente. Você pode pensar que ainda está vivo mas, de fato, você tem morrido todos os dias, a cada minuto células morrem e nascem - e nem por isso realizamos funerais ou aniversários (risos). A morte é a principal condição para o nascimento. Sem morte, não há nascimento. Eles intersão* e acontecem a todo momento para o praticante experiente. Por exemplo uma nuvem deve ter morrido muitas vezes, sob a forma de chuvas, rios, água. A nuvem deve querer cair rumo a si mesma na terra. A chuva é a continuação da nuvem. Praticando-se a meditação, nada fica escondido. Quando eu bebo chá, tenho a certeza de que estou bebendo nuvens.

Quando somos pais, morremos e renascemos como nossos filhos. "Vocês são minha continuação. Amo vocês". O Buda nos disse como assegurar uma linda continuação - um pensamento solidário**, um pensamento belo. Perdão é nossa continuação. Se raiva, separação e ódio surgem, então conseguiremos assegurar uma bela continuação. Ao pronunciarmos uma palavra que é solidária**, boa e bela, assim também será nossa continuação.

Quando uma nuvem é poluída, a chuva é poluída. Assim, ao purificarmos nossos pensamentos, palavras e ações, criaremos uma bela continuação. Podemos ver os efeitos de nossa fala em nossas crianças. Meus discípulos são minha continuação - tanto os monásticos, quanto os leigos. Desejo transmitir a fala, a ação e o pensamento amáveis. Isto é chamado karma no budismo.

O meu corpo se desintegrará, mas meu karma irá continuar - karma significa ação. Meu karma já está no mundo. Minha continuação está em toda parte. Quando você observar um dos meus discípulos caminhando de maneira solidária**, saberá que ele é minha continuação. Não quero transmitir minhas emoções negativas, quero transformá-las antes de transmití-las. A dissolução deste corpo não é o meu fim. Com certeza eu continuarei após a essa dissolução. Portanto não se preocupem com a minha morte, eu não morrerei.

Vamos meditar acerca do nascimento de uma nuvem. Ela tem uma certidão de nascimento? (Thay ri). Examine a noção de nascimento - a noção de que algo pode vir do nada, de ninguém, tornar-se alguém. É possível alguma coisa coisa vir do nada? Do ponto de vista da ciência, isto não é possível. A nuvem era água no oceano, nos lagos, rios e o calor do sol deu origem a ela - o momento de continuação da água. Por exemplo, nascimento - antes de você nascer você estava no ventre de sua mãe. O momento do nascimento é um momento de continuação. O momento da concepção é o começo? Metade de você provém do seu pai e metade da sua mãe, também isso faz parte do momento de continuação. Ao praticar a meditação você poderá ver coisas como essas.

É impossível a nuvem morrer. Ela pode se tornar água, neve - ela não poderá se tornar nada. É impossível nós morrermos. A nossa fala, ação e pensamento irão continuar no futuro. A pessoa que morre ainda continua, se não vemos isso é por que não somos capazes de usar nossa meditação para ver. Ela continua em nós e em torno de nós. Todos os ancestrais estão vivos em nós. Nossos ancestrais estão em nossos cromossomos. Há um tempo atrás, escrevi um livro chamado "Sem morte e nem medo" (No Death , No Fear publicado pela Parallax Press). Quando as condições são suficientes eu me manifesto e quando não são, não. Não existe vir ou ir. Antes de algo se manifestar, costumamos dizer que era algo não existente. Mas antes de sua manifestação, você não podia chamá-lo de não-ser. Ser e não-ser são pares de opostos.

Meditar sobre a natureza da criação e do ser é a melhor maneira de entender Deus. O teólogo Paul König descreve Deus como sendo a "Base do Ser". Quem então seria a base do não-Ser? Isto diminui Deus. No budismo, ambas as noçoes de ser e não-ser não podem descrever a realidade. De maneira similar, acima e abaixo, Europa e aqui. Nirvana é a ausência de todas as noções, nascimento e morte, ir e vir, mesmo e diferente. De acordo com o Budismo 'ser ou não-ser' não é realmente uma questão. A meditação nos leva para além, para um lugar onde não há medo. Somos demasiado ocupados, assim nos tornamos vítimas da raiva e do medo. Se conseguirmos tocar nossa natureza sem nascimento/morte, saberemos que morrer é uma das condições para nos tornarmos reais.

Temos que aprender a morrer em cada momento para estarmos verdadeiramento vivos. Este ensinamento do caminho do meio é o melhor do ensinamento do Buda. Muitos dos nossos ancestrais realizarm isso e não tinha medo da morte. Devemos ser capazes de relaxar nossas tensões. Nós somos o karma que produzimos no dia a dia de nosso cotidiano.(...) Tenho um discípulo que quer construir uma Stupa para guardar as minhas cinzas. Ele quer pôr uma placa com os dizeres " Aqui jaz o meu amado professor". Mas eu escreveria "Aqui não existe nada!" (muitos risos). Por que se você observar em profundidade existe uma continuação. Eu guardo o tempo que me resta principalmente para a minha prática. Quero gerar energia de amor, solidariedade e compreensão, para que assim eu continue de uma maneira bela.

Gostaria que vocês fizessem o mesmo. Usem o seu tempo de maneira sábia. A cada momento, produza belos pensamentos, bondade amorosa, perdão. Diga coisas bonitas, inspire, perdoe, aja no sentido de proteger e ajudar. Sabemos que somos capazes de produzir um belo karma para uma boa continuação e para a felicidade de outras pessoas.

Quando chegar a hora da dissolução do corpo, você poderá soltá-lo facilmente. Não desejará se agarrar a ele - liberando tanto o corpo quanto a percepção. Lembre-se da imagem da nuvem no céu vendo sua continuação no arroz ou no sorvete. Você já pode ver sua continuação. A arte de viver é uma continuação. Para mim e para todos os seres.


* intersão - verbo (inter+ser) criado por Thây para definir uma existência interdependente.
** solidário = compasivo. Ver nota do tradutor)

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terça-feira, 8 de julho de 2008

Nota de Tradução

Já li diversas vezes em textos do Thây que a tradução de karuna por "compaixão" não era uma boa tradução. No livro "Ensinamentos Sobre o Amor" ele nos diz explicitamente:

"O segundo do aspecto do amor verdadeiro é karuna, a intenção e a capacidade de aliviar e transformar o sofrimento e abrandar as tristezas. Em geral, a tradução de karuna é compaixão, mas isso não está inteiramente correto. 'Compaixão' compõe-se de com (junto com) e paixão (sofrimento). Mas não precisamos sofrer para eliminar a dor de outra pessoa. Os médicos, por exemplo, podem aliviar a dor de seus pacientes sem que eles padeçam da mesma doença. Se sofrermos muito, poderemos ficar arrasados e incapazes de ajudar os outros".

Outros tradutores, os que são budistas pelo menos, também sentem o mesmo incômodo ao usar a palavra compaixão, principalmente devido ao fato de ela ser carregada de conotações cristãs tradicionais ligadas à piedade, etc. Além disso, a palavra compaixão carrega um sentido altamente dualista que fere a unidade budista original, isolando o sujeito (aquele que age com compaixão) e o objeto (aquele que interage na ação), fazendo-nos esquecer de que ambos intersão, segundo verbo cunhado por Thây (interbeing/interser), que ambos são interdependentes.

Uma senhora certa vez criticou o meu uso dessa tradução dizendo que poderia sentir compaixão por um assassino, mas jamais sentiria solidariedade. Essa crítica só fez acender mais ainda um alerta para o uso indevido da palavra "compaixão" em um contexto não-cristão.

Tenho percebido que quando alguém diz que sente compaixão por alguém que comete um crime, mesmo que horrendo, na verdade ela está pensando "Que Deus tenha piedade dessa alma, eu não posso fazer nada!". Mas o Budismo não encara dessa maneira, o budista estende a mão a essa pessoa, por que sabe que ela está sofrendo e não consegue lidar com o seu sofrimento. E essa pessoa pode qualquer um mesmo, eu, você, Hitler, Thich Nhat Hanh, o casal Nardoni, a moça que matou os pais e assim por diante.

O praticante budista sabe que nós mesmos carregamos essas sementes que espalham terror, guerra e morte em nós mesmos, ao lado das sementes de amor, fraternidade, bondade, liberdade e felicidade que devemos cultivar.

Por outro lado, a palavra solidariedade se encaixa perfeitamente na definição budista tradicional de karuna. Solidariedade vem da palavra solidário que por sua vez vem da palavra latina solidu (sólido). É interessante notar que é raro alguém se lembrar que a palavra solidariedade tem a mesma raiz de solidez – e me parece óbvio que a solidariedade só pode ser praticada se houver solidez. Uma palavra que se baseia em solidez e compartilha, inclusive, a mesma raiz, em minha opinião, só pode ser a palavra mais adequada para traduzir a palavra karuna. E com a vantagem de não ser trazer em si sentido religioso algum (sei que isso pode ser também uma desvantagem, para alguns).

Em todos os seus textos e palestras, Thây sempre enfatiza o fato de que para uma ação ser realmente “compassiva”, ou seja, ser impregnada por karuna, é preciso solidez e estabilidade – mesmo na curta citação acima isso é claro. Solidez é necessária para que ocorra a transformação do sofrimento, a libertação, a felicidade. Não podemos simplesmente nos lançar a ajudar os outros, temos que cultivar a estabilidade e a solidez em nós mesmos para não sermos arrasados pela dor e sofrimento dos outros, para sermos capazes de ajudá-los a transformar seu sofrimento tal como fizemos nós mesmos.

No texto Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, o filósofo André Comte-Sponville nos diz:

“... ser solidário é pertencer a um conjunto in solido, como se dizia em latim, isto é, “para o todo”. Assim devedores são ditos solidários, na linguagem jurídica, se cada um pode e deve responder pela totalidade da soma que tomou emprestada coletivamente. Isso tem suas relações com a solidez, de que a palavra provém: um corpo sólido é um corpo em que todas as partes se sustentam”.


Talvez essa não seja a melhor solução, talvez fosse melhor recorrer ao um neologismo. Mas acho que é melhor usar expressões consagradas pelo uso do que criar novas palavras que podem criar mais confusão e dar um ar demasiado intelectual aos textos que, essencialmente, têm finalidade prática e não especulativa.

Por favor, se você não concordar com a minha visão pessoal, basta substituir mentalmente a palavra solidariedade por compaixão de novo para entrar em contato com o sentido mais adequado à sua prática – pelo menos era isso que eu fazia (secretamente). Agora torno pública a minha interpretação.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Princípios Para a Prática da Plena Consciência

Princípios Para a Prática da Plena Consciência

Traduzido do livro de Thich Nhat Hanh, Transformation and Healing –
Sutra On The Four Establishments of Mindfulness, Capítulo VI,
Parallax Press. Tradução: Samuel Cavalcante

1. Os Dharmas São Mente

Todos os dharmas – físicos, fisiológicos e psicológicos – são objetos da mente, mas isso não significa que eles existam separadamente (da mente). Todos os Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência – corpo, sensações, mente e dharmas – são objetos da mente. Como a mente e os dharmas são um, ao observar seus objetos, a mente é essencialmente mente observadora. A palavra dharma no budismo é entendida como significando tanto o objeto quanto o conteúdo da mente. Os dharmas são classificados em doze reinos (em sânscrito, ayatanas). Os primeiros seis são os órgãos do sentido: olhos, ouvido, nariz, língua, corpo e mente. Os seis restantes são: forma, som, cheiro, gosto, tato e dharmas. Os dharmas são os objetos da mente assim como os sons são os objetos dos ouvidos. O objeto da cognição e o sujeito da cognição não existem independentemente um do outro. Tudo o que existe tem que emergir da mente. A melhor maneira de expressar essa verdade é “Tudo é apenas mente. Todas as coisas são somente consciência”, conceito que se desenvolveu na escola Vijñanavada do Budismo Mahayana.

Nas tradições do Budismo do Sul, a idéia da mente como fonte de todos os dharmas também é muito clara. O termo cittasamutthana (o que emerge da mente) e o termo cittaraja (nascido da mente) são freqüentemente usados nos escritos do Abhidhamma em Páli. No Patthana (equivalente ao sânscrito Mahapakarana) encontramos a frase cittam samutthanam ca rupanam (“e a mente é o ponto de emergência das formas”).

O objeto de nossa observação consciente pode ser a nossa respiração ou nosso dedo do pé (objeto fisiológico), uma sensação, uma percepção (objeto psicológico) ou uma forma (objeto físico). Seja o fenômeno que observamos fisiológico, psicológico ou físico, sabemos que ele não é separado da nossa mente e é substância única com ela. A mente pode ser entendida como individual e coletiva. Os ensinamentos da Escola Vijñanavada dizem de maneira clara. Precisamos evitar a noção de que o objeto que observamos é independente de nossa mente. Temos que nos lembrar que esse objeto se manifesta a partir de nossa consciência individual e coletiva. Nossa mente observadora é também um fenômeno que se manifesta devido à consciência. Observamos de modo a que nossa mão direita tome a nossa mão esquerda e se tornem um.

2. Observar é ser um com o objeto da observação

O sujeito de nossa observação é a nossa plena consciência, a qual também emana da mente. A plena consciência tem a função de iluminar e transformar. Quando, por exemplo, a nossa respiração é objeto da nossa plena consciência, ela se torna respiração consciente. A plena consciência joga sua luz sobre nossa respiração, transforma o esquecimento embutido nela em plena consciência e dá a ela sua qualidade de calma e cura. Nosso corpo e nossas sensações também são iluminados e transformados sob a luz da consciência. A plena consciência é a mente observadora, mas ela não fica fora do objeto de observação. Ela vai diretamente no objeto e se torna um com ele. Justamente porque a natureza da mente observadora é a plena consciência, ela não se perde no objeto, mas o transforma ao iluminá-lo, como faz a luz penetrante do sol ao transformar árvores e plantas.

Se quisermos ver e compreender, teremos que penetrar e se tornar um com o objeto. Se ficarmos fora do objeto para observá-lo, não poderemos vê-lo e entendê-lo. O trabalho de observação é um trabalho de penetrar e transformar. É por isso que o Sutra (Acerca dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência, NT) diz “observar o corpo no corpo, observar as sensações nas sensações, observar a mente na mente, observar os dharmas nos dharmas”. A descrição é muito clara. A mente da observação profunda não é meramente observadora, mas participante. Somente quando o observador é participante poderá haver transformação.

Na prática chamada de observação una, a plena consciência já influencia o objeto da consciência. Quando chamamos uma inspiração de “inspiração”, a existência da nossa respiração se torna muito clara. A plena consciência já penetrou nossa respiração. Ao continuarmos a nossa observação consciente, não haverá mais dualidade entre observador e observado. Plena consciência e respiração são um. Nós e nossa respiração somos um. Se nossa respiração é calma, estamos calmos. Nossa respiração acalma o nosso corpo e nossas sensações. Este é o método ensinado no Sutra Acerca dos Quatro estabelecimentos da Plena Consciência e no Sutra Sobre a Plena Consciência da Respiração. Quando a nossa mente é consumida por um desejo ou por aquilo que observamos, a plena consciência não está presente. A respiração consciente alimenta a plena consciência e esta gera a respiração consciente. Quando a plena consciência está presente, não temos nada a temer. O objeto de nossa observação se torna vívido e sua fonte, origem e verdadeira natureza se tornam evidentes. É assim que ele (o objeto, NT) será transformado. Não terá mais o efeito de nos segurar.

Quando o objeto de nossa observação consciente é totalmente claro, a mente que observa é também revelada completamente com grande clareza. Ver os dharmas claramente é ver a mente claramente. Quando os dharmas se revelam na sua verdadeira natureza, a mente obtém a natureza da mais alta compreensão. O sujeito e o objeto da cognição não são separados.

3. A Mente Verdadeira e a Mente Ilusória São Um.

“Mente Verdadeira” e “Mente Ilusória” são dois aspectos da mente. Ambas emergem da mente. A mente ilusória é a mente esquecida e dispersa que emerge do esquecimento. A base da mente verdadeira é a compreensão desperta, o qual emerge da plena consciência. A observação consciente revela a luz que existe na mente verdadeira, de modo que a vida poderá ser revelada em sua realidade. Sob esta luz, confusão se torna compreensão, visões errôneas se tornam visões corretas, miragens se tornam realidade e a mente ilusória se torna mente verdadeira. Uma vez que a observação consciente nasça, penetrará o objeto da observação, iluminá-lo-á e, gradualmente, revelará sua verdadeira natureza. A mente verdadeira emerge da mente ilusória. As coisas em sua verdadeira natureza e as ilusões são da mesma substância básica. É por isso que praticar é uma questão de transformar a mente ilusória e não buscar a mente verdadeira em outro lugar. Do mesmo modo como a superfície de um mar agitado e a de um mar tranqüilo são, ambas, manifestações do mesmo mar, a mente verdadeira não poderia existir se não houvesse a mente ilusória. No ensinamento das Três Portas da Libertação (em páli: vimokkhamukha), a ausência de meta (em sânscrito: apranihita) é uma das fundações para a realização. O que a ausência de meta quer dizer é que não devemos procurar algo fora de nós mesmos. No Budismo Mahayana, o ensinamento da não-realização é a mais alta expressão da unidade entre a mente verdadeira e a mente ilusória.

Se a rosa está a caminho de se tornar lixo, o lixo também está a caminho de se tornar uma rosa. Aquela que observa com discernimento verá o caráter não-dual da rosa e do lixo. Ela será capaz de ver que existe lixo na rosa e que existem rosas no lixo. Ela saberá que a rosa precisa do lixo para sua existência e que o lixo precisa da rosa, pois logo ela se tornará lixo. Portanto, ela saberá aceitar o lixo para transformá-lo em rosas e não sentirá medo quando a rosa murchar e se transformar em lixo. Este é o princípio da não-dualidade. Se a mente verdadeira (a rosa) pode ser descoberta no material bruto da mente ilusória (o lixo), então poderemos reconhecer a mente verdadeira na substância mesma da ilusão, na substância mesma da ilusão, na substância do nascimento e da morte.

Libertar-se não é fugir ou abandonar os Cinco Skhandas, forma, sensações, percepções, formações mentais e consciência. Mesmo que nosso corpo seja cheio de impurezas e mesmo que o mundo seja da natureza da ilusão, isso não significa que para nos libertarmos tenhamos que fugir do nosso corpo ou do mundo. O mundo da libertação e da compreensão desperta vem diretamente deste corpo e deste mundo. Uma vez que a Correta Compreensão se realize, transcendemos as discriminações entre puro e impuro e entre objetos da percepção ilusórios e reais. Se o jardineiro for capaz de ver que a rosa vem diretamente do lixo, então o praticante no caminho da meditação poderá ver que o nirvana vem diretamente do nascimento e da morte, e não mais fugirá ou buscará o nirvana (fora de si mesmo, NT). “As raízes da aflição (em sânscrito: klesha) são as mesmas do estado desperto. O nirvana e o nascimento/morte são imagens ilusórias no espaço”. Esta citação expressa um profundo insight acerca da não-dualidade. A substância deste insight é a equanimidade ou o largar (to let go, NT. Em sânscrito: upeksha), uma das Quatro Mentes Incomensuráveis (também conhecida como as Quatro Moradas de Brahma, brahmaviharas em sânscrito, NT).
O Buda ensinou muito claramente que não deveríamos nos apegar ao ser ou ao não-ser. Ser significa o reino do desejo. Não-ser significa o reino do niilismo. Libertar-se é tornar-se livre de ambos.

4. O Caminho do Não-Conflito

A realização da não-dualidade naturalmente leva à prática de oferecermos alegria, paz e não-violência. Se o jardineiro sabe lidar com o lixo orgânico sem conflito e nem discriminação, então o praticante de meditação também deveria saber como lidar com os Cinco Agregados sem conflito e nem discriminação. Os Cinco Agregados são a base do sofrimento e da confusão, mas também são a base da paz, da alegria e da libertação. Não deveríamos desenvolver uma atitude de apego ou aversão a eles. É claramente dito no Sutra (Acerca dos Quatros Estabelecimentos da Plena Consciência, NT) que o praticante faz a observação pondo de lado todo sentimento de apego e rejeição para com esta vida (vineyya loke abhijjha domanassam).

Antes de realizar o estado desperto, Siddharta manteve práticas austeras, reprimindo seu corpo e suas sensações. Este tipo de método é violento por natureza e os resultados são sempre negativos. Depois desta fase, ele mudou e praticou a não-violência e o não-conflito em relação ao seu corpo e às suas sensações.
O método ensinado pelo Buda no Sutra Acerca dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência claramente expressa o espírito da não-violência e do não-conflito. A plena consciência reconhece o que está acontecendo no corpo e na mente e continua a iluminar e observar em profundidade esses objetos. Durante essa prática, não há apego, busca ou repressão do objeto. Este é o verdadeiro significado do termo observação nua. Não há cobiça e nem rejeição. Sabemos que o nosso corpo e as nossas sensações somos nós mesmos e, portanto, não os reprimimos, pois se assim o fizermos estaremos reprimindo a nós mesmos. Ao contrário, aceitamos nosso corpo e nossas sensações. Aceitar não significa apegar-se. Ao aceitar, atingimos um grau de paz e compreensão. Paz e alegria surgem quando abandonamos as discriminações entre certo e errado; entre mente que observa e corpo observado (que costumamos dizer que é impuro); entre a mente que observa e as sensações que são observadas (que costumamos dizer que são dolorosas).

Ao aceitarmos nosso corpo e nossas sensações, nós os tratamos de maneira terna e não-violenta. O Buda nos ensinou a praticar a plena consciência dos fenômenos fisiológicos e psicológicos para observá-los e não para suprimi-los. Quando aceitamos nosso corpo, fazemos as pazes com ele e acalmamos o seu funcionamento, sem sentirmos aversão, estamos seguindo os ensinamentos do Buda: “Inspirando, sou consciente de todo o meu corpo, expirando acalmo as funções do meu corpo” (Sutra Acerca dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência). Na observação feita enquanto meditamos, não nos transformamos num campo de batalha entre um lado bom e um lado mal. Se pudermos ver a não-dualidade da rosa e do lixo, das raízes da aflição e da mente desperta, não sentiremos mais medo. Aceitaremos essas aflições e as trataremos como as mães tratam os filho, conseguindo assim transformá-las.
Quando reconhecemos as raízes da aflição em nós e nos tornamos um com elas, a possibilidade de nos enredarmos nelas ou não vai depender do estado da nossa mente. Quando estamos em estado de esquecimento, podemos ser apanhados por essas raízes transformando-nos nelas. Quando estamos conscientes, podemos ver claramente as raízes da nossa aflição e transformá-las. Portanto, é essencial ver as raízes de nossa aflição com plena consciência. Enquanto a lâmpada da plena consciência jorrar sua luz, as trevas serão transformadas. Precisamos nutrir a plena consciência em nós mesmos pela prática da respiração consciente, da escuta do sino, da recitação de gathas e de muitos outros meios hábeis.

Precisamos de uma atitude de ternura e não-violência em relação ao nosso corpo. Não devemos olhar o nosso corpo apenas como um instrumento ou tratá-lo mal. Quando estamos cansados ou sentindo dor, nosso corpo está tentando nos dizer que ele não está feliz e nem tranqüilo. O corpo tem sua própria linguagem. Como praticantes da plena consciência, deveríamos saber o que o nosso corpo está querendo nos dizer. Se sentirmos muita dor nas pernas durante a meditação sentada, devemos sorrir e mudar a posição nossa posição lenta e gentilmente, com plena consciência. Não há nada de mal em mudar nossa posição. Não é perda de tempo. Enquanto a plena consciência for mantida o trabalho de meditação continua. Não devemos nos intimidar. Quando fazemos força demais não apenas perdemos a nossa paz e nossa alegria, perdemos também a plena consciência e a concentração. Nós praticamos a meditação sentada para sentirmos libertação, paz e alegria e não para nos tornarmos heróis capazes de agüentar dor.

Também precisamos de uma atitude não-violenta em relação às nossas sensações. Quando somo conscientes de que somos as nossas sensações, não as negligenciamos e nem as oprimimos. Nós as abraçamos afetivamente com os braços da plena consciência, como uma mãe abraça seu filho recém-nascido quando ele chora. Uma mãe abraça o filho com todo o seu amor para que ele se sinta confortável e pare de chorar. A plena consciência, nutrida pela respiração consciente, tomas as sensações nos seus braços, torna-se um com elas, acalma-as e transforma-as.

Antes de o Buda atingir a plena realização do caminho, tentou vários métodos que usavam a mente para suprimir a mente, mas nunca conseguiu. Foi por isso que ele terminou por escolher praticar de um modo não-violento. No Mahasaccaka Sutra (Madhyama Agama 36) o Buda nos diz:

“Então pensei, por que não trinco meus dentes, pressiono a língua contra o céu da boca e utilizo a mente para reprimir a minha própria mente? Como um lutador que segura firmemente a cabeça ou o torço de alguém mais fraco e, para restringi-lo e coagi-lo, tem que segurá-lo todo o tempo sem relaxar nem um momento, assim trinquei meus dentes, pressionei minha língua contra o palato e usei minha mente para dominar e reprimir a minha mente. Ao fazer isso, fiquei banhado de suor. Apesar de não me faltar forças, e apesar de ter mantido a plena consciência sem cessar, meu corpo e minha mente não estavam em paz e senti-me exaurido por esses esforços. Esta prática causou outras sensações de dor, além das dores associadas às práticas austeras, e não fui capaz de domar minha mente”.

Torna-se claro, a partir dessa passagem, que o Buda encarava esse tipo de prática como inútil. Apesar disso, a seguinte passagem foi inserida no Vitakkasanthana Sutra (Madhyama Agama 20), com o sentido oposto à intenção do Buda:

“Da mesma forma que um lutador pega a cabeça ou o torço de alguém mais fraco, restringe-o e o coage e o segura sem relaxar um só momento, assim também um monge que medita para frear todos os pensamentos não-saudáveis de desejo e aversão, e eles continuam a emergir, deve trincar os dentes, pressionar a língua contra o palato e fazer o possível para usar sua mente para abater e derrotar sua mente”.

A mesma passagem foi inserida no Sutra Acerca dos Quatro Fundamentos da Plena Consciência, que aparece como a segunda versão neste livro: “O praticante que observa o corpo enquanto corpo fecha seus lábios com força ou trinca seus dentes, pressiona sua língua contra o palato e usa sua mente para restringir e se opor à sua mente”. Esta passagem não aparece na maioria das versões do Sutra (observem a primeira e terceira versões), mas se acha também no Kayasmrti Sutra (Madhyama Agama 81) cujo conteúdo é bastante similar ao da segunda versão. Como os sutras foram, por séculos, transmitidos oralmente antes de serem registrados por escrito, esse tipo de erro era inevitável. É necessário fazer estudos comparativos dos sutras, à luz de nossa própria experiência de meditação, para ver o que é o material original e o que foi adicionado depois.

5. Observação Não Significa Doutrinação

Em centros budistas espalhados pelo mundo, ensina-se aos estudantes a recitação de frases do tipo “corpo é impuro, sensações são sofrimento, mente é impermanente, dharmas não possuem ego” enquanto observam os Quatro Estabelecimentos. O autor dessas linhas foi ensinado dessa maneira, quando era noviço, e sentiu que era um tipo de lavagem cerebral.

O método dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência é observar profundamente no espírito do “não-desejo e sem sentir repugnância“. A plena consciência não se apega, despreza, repreende ou reprime, desse modo a verdadeira natureza de todos os dharmas pode revelar-se à luz da observação consciente. Que a natureza impermanente, impura e sem identidade intrínseca de todos os dharmas tem por efeito causar sofrimento, pode ser vista enquanto observamos, não é por que repetimos fórmulas como essas acima de maneira automática. Quando olhamos em profundidade e vemos a natureza de todos os dharmas, eles se revelarão por si mesmos.

Se repetirmos mecanicamente, “o corpo é impuro”, estaremos recitando um dogma. Se observarmos todos os fenômenos fisiológicos e vemos sua natureza impura, isto não é dogma. É nossa experiência. Se, durante a nossa observação consciente, vemos que os fenômenos são, às vezes, puros e, às vezes, impuros, então esta é a nossa experiência. Se olharmos ainda mais profundamente e vermos que os fenômenos não são puros ou impuros, que eles transcendem os conceitos de puro e impuro, descobriremos aquilo que é ensinado no Sutra do Coração Prajñaparamita. Este sutra também nos ensina a resistir a todas as atitudes dogmáticas. Não devemos nos forçar a ver o corpo como impuro ou as sensações como sofrimento. Mesmo que haja alguma verdade nessas sentenças, repeti-las dogmaticamente tem apenas o efeito de nos encher com conhecimento. Enquanto observamos com plena consciência, veremos que existem muitas sensações dolorosas, mas também vemos que também existem sensações de alegria e paz e muitas sensações neutras. E se olharmos mais profundamente, veremos que as sensações neutras podem se tornar sensações de alegria e que sofrimento e felicidade são interdependentes. O sofrimento é porque a felicidade é e a felicidade é porque o sofrimento é. Ao repetirmos “mente é impermanente”, nossa atitude ainda é dogmática. Se a mente é impermanente, então o corpo deve ser impermanente e assim também as sensações. O mesmo é verdadeiro para “dharmas são sem ego”.Se os dharmas são sem ego, assim também o são o corpo, a mente e as sensações.

Portanto, o ensinamento especial do Sutra Acerca dos Quatro estabelecimentos da Plena Consciência é observar todos os dharmas sem ter, sobre eles, nenhuma idéia fixa, apenas manter a observação consciente sem comentar, sem assumir nenhuma atitude em relação ao objeto que se está observando. Dessa maneira, a verdadeira natureza do objeto será capaz de revelar-se por si mesma à luz da observação consciente, e você poderá obter insight sobre descobertas maravilhosas tais como o não-nascimento, não-morte, nem puro nem impuro, nem crescente e nem decrescente, interpenetração e interser.


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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Transformação na Base

Transformação na Base

("Transformation At The Base" -
traduzido do livro The Path of Transformation,
de Thich Nhat Hanh, Parallax Press.
Tradução: Samuel Cavalcante
)

Transformação significa transformação na base (ashraya-paravritti), que significa verdadeira transformação e não apenas alívio temporário. Para que a transformação na base tenha lugar, você tem que praticar a observação profunda. Somente olhando profundamente a natureza do nosso sofrimento podemos descobrir suas causas e identificar as fontes dos elementos que o alimentam e trazem à existência. Depois de praticarmos por algum tempo, veremos que a transformação sempre ocorre nas profundezas da consciência. Nossa consciência armazenadora é como o suporte, a base, a fundação de nossa consciência – do mesmo modo que as pernas são um suporte para a mesa. Ashraya significa suporte ou base e paravritti significa transformação na base.

Observando profundamente, ganhamos insights que podem nos libertar e transformar nossas aflições que estão em forma de semente. A formação mental é manifestada no nível da mente, mas a semente da formação mental permanece na consciência armazenadora. Se soubermos como reconhecer e ver a presença das formações mentais, abraçá-las, acalmá-las e observá-las em profundidade, ganharemos insight. Se a semente da raiva se manifesta e a semente da plena consciência também se manifesta, a energia da plena consciência abraça a energia da raiva.

Transformação e emancipação somente podem ter lugar quando o insight é atingido. O insight é atingido pela prática de parar e olhar profundamente. Meditação é composta de dois elementos. O primeiro é shamatha, parar, concentrar-se e acalmar-se. Se você for à China você verá um símbolo muito comum nas estradas. Significa “Pare”. Sugiro que você ponha esse símbolo em algum lugar da sua casa. Quando você o olhar você poderá praticar a respiração consciente por 5 ou 10 minutos e assim conseguir parar. O segundo elemento da meditação é a vipashyana. Significa observar profundamente, analisar, olhar. É difícil observar profundamente sem parar. Se você é capaz de olhar profundamente, então você é capaz de parar.

Como já sabemos, temos que lidar com a energia que está sempre nos pressionando e nos impedindo de parar. Descrevi, certa vez, nossa energia de hábito como um cavalo em fuga. O Buda propôs parar a energia do hábito com a plena consciência. Toda vez que nos sentimos agitados – não importa a hora do dia ou o que estamos fazendo – devemos praticar a respiração consciente para reconhecer nossa energia de hábito. Dizemos “Oi, energia de hábito. Sei que você está aí”. E sorrimos para ela. Vashana é o nome desta energia. Como mencionei antes, todos nós recebemos essa energia de nossos pais e ancestrais, que foram inábeis em transformá-la. Por causa disso, ela nos foi transmitida. Devemos aprender a lidar com ela. Se não soubermos como transformá-la, iremos transmiti-la aos nossos filhos.

Todo verão, em Plum Village, celebramos o Dia de Ação de Graças à nossa maneira. Grupos de estudantes de diferentes países se reúnem, cozinham algum prato nacional e o colocam no altar dos ancestrais. Se tivermos pessoas de 25 países praticando, teremos 25 pratos diferentes. Cada grupo se reúne e discute que prato irá oferecer. Os estudantes preparam seus pratos com plena consciência, tocando seus ancestrais e sua cultura nacional.

Transmissão

Certa vez, um jovem americano foi comprar provisões em Sainte-Foy-La Grande. Ele estava em Plum Village havia três semanas e sentia maravilhoso – em paz e com muita alegria. Cercado por uma Sangha de praticantes, ele praticava meditação andando e sentada e trabalho com plena consciência. Sozinho em Sainte-Foy-La Grande, ele se sentiu subitamente com pressa. Mas com sua prática de três semanas de respiração e caminhada consciente, ele foi capaz de identificar a energia negativa da agitação e da pressa . Sua plena consciência foi suficiente para que ele retornasse à sua respiração. Ele inspirou e expirou, sorrindo, e disse: “Oi mãe, sei que você está aqui!”. Ele percebeu que a energia da agitação vinha de sua mãe. Sempre agitada e com pressa, ela transmitiu essa energia para ele. Durante três semanas de prática no Upper Hamlet (Plum Village, NT) ele estava cercado por uma Sangha poderosa e a semente da agitação não teve oportunidade de aparecer. Somente quando foi ao mercado sozinho, o ambiente pôde tocar aquela semente que estava nele e permitiu que ela se manifestasse. Depois que ele reconheceu essa energia com a respiração consciente, a agitação desapareceu e retornou à sua forma de semente. Daquele dia em diante, ele continuou a prática da respiração consciente mantendo sua paz e alegria.

Regando Nossas Sementes Positivas

Como disse antes, todos nós recebemos sementes negativas e positivas de nossos pais e ancestrais. Alguns de nós foram abusados quando crianças – tratados violentamente pelos nossos pais – e sofreram muito. Comprometemo-nos a nunca nos comportarmos como eles depois que crescermos. Mas se não soubermos transformar nossa energia negativa, trataremos nossos filhos exatamente como nossos pais nos trataram.

Vi isto acontecer muitas vezes. Quando criança, você sofreu por que seus pais lhe trataram mal e lhe abandonaram. A criança ferida em você ainda está viva. Você está vulnerável e com medo que seus amigos, companheiros e outras pessoas também lhe tratem mal. Você conhece a dor de ser abandonado e você não quer que os outros sofram como você. Mas se você não souber como curar a criança ferida dentro de você ou transformar suas energias negativas, você fará seus filhos e amigos sofrer como você sofreu. Você culpará as pessoas por terem feito você sofrer. Você sabe que não é bom abusar dos outros, tratá-los mal, excluí-los ou ferir a já ferida criança interior deles, mas mesmo assim você age do mesmo jeito. Se os seus filhos não tiverem a chance de estar com uma Sangha e com um bom professor eles não serão capazes de transformar essas sementes em si mesmos e irão transmitir essas sementes aos filhos deles. Este é o ciclo vicioso chamado samsara. Praticar significa interromper este ciclo e terminar com ele. Deveríamos reconhecer nossas aflições negativas – nossos elementos negativos – e perceber que elas estão na base da nossa consciência. Temos que intervir e praticar para que haja uma verdadeira transformação, não apenas um alívio temporário. Isso é o que chamamos de transformação na base e pode ser atingida de duas maneiras.

A primeira maneira é a contemplação direta da natureza da semente. Convidamos a semente do sofrimento a vir para a superfície. Se já tivermos cultivado a energia da plena consciência, não será difícil convidá-la a vir á tona, abraçá-la e olhar profundamente a sua natureza. Esta é a maneira direta de desintegrá-la. Somente à luz do insight e da compreensão pode transformar nossas sementes de aflição. A segunda maneira é indireta e igualmente efetiva. Nós plantamos e regamos nossas sementes positivas. Ao invés de chamar a semente para cima, para abraçá-la e observá-la profundamente, nós a deixamos onde está e fazemos outras coisas para ajudar a sua transformação. Podemos fazer isso individualmente ou como uma Sangha. Tocar os elementos positivos, refrescantes e curativos da vida todos os dias é uma prática prazeirosa que pode levar à cura e à transformação.

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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Como Chegar em Plum Village em 7 Passos

Guia para chegar a Plum Village/ Village des Pruniers na França, centro de prática da plena consciência fundado pelo Mestre Thich Nhat Hanh.

1. Você deve preencher um formulário disponível aqui e enviar para um dos seguintes endereços:

Upper Hamlet / Hameau du Haut / Aldeia de Cima
(para homens desacompanhados e casais)
Le Pey, 24240
Thenac, France
Tel.: +(33) 5.53.58.48.58
Fax.: +(33) 5.53.58.49.17
E-mail: UH-office@plumvillage.org
Website: www.plumvillage.org

New Hamlet / Hameau Nouveau / Aldeia Nova
(para mulheres desacompanhadas e casais)
13 Martineau
33580 Dieulivol, France
Tel.: +(33) 5.56.61.66.88
Fax.: +(33) 5.56.61.61.51
E-mail: NH-office@plumvillage.org
Website: www.plumvillage.org

Lower Hamlet / Hameau du Bas / Aldeia de Baixo
(para mulheres desacompanhadas e casais)
Meyrac 47120
Loubes-Bernac, France
Tel.: +(33) 5.53.94.75.40
Fax.: +(33) 5.53.94.75.90
E-mail: LH-office@plumvillage.org
Website: www.plumvillage.org

Son Ha / Templo do Sopé da Montanha
(para homens desacompanhados e casais)
Fontagnane 24240
Puyguilhem , France
Tel.: +( 33) 5.53.22.88.89
Fax.: +( 33) 5.53.22.88.90
Email: sonhatemple@orange.fr
Website: www.plumvillage.org

2. Normalmente os períodos de retiro são definidos anualmente mais existe um padrão:
- abril, maio e junho - período bastante tranqüilo, poucas pessoas, muito silêncio. Durante esse período, muitas vezes, Thay não está presente em Plum Village, pois viaja frequentemente para conduzir retiros em outros países da Europa;
- julho - retiro de verão, milhares de pessoas, muitos jovens da europa, estados unidos e canadá. É o principal retiro de Plum Village, o mais internacional e o mais focado na família. Thay dá palestras de Dharma quase diariamente;
- agosto, setembro, outubro - outro período tranquilo - e também aqui, com uma freqüente ausência de Thay que nesse período viaja à Ásia;
- novembro, dezembro, janeiro, fevereiro - retiro de inverno - milhares de pessoas também,neste período temos vários eventos com muita gente (durante o natal, fim do ano, ano novo chinês e cerimônias de ordenação); é um período interessante por causa da diversidade de coisas interessantes que acontecem neste período. Thay utiliza esse período para ensinar baseado especialmente nos sutras/suttas.

3. Prefira um vôo direto para Bordeaux, o preço de trem de Paris para Bordeaux é quase o mesmo e tornará a viagem mais cansativa.

4. Ao chegar em Bordeaux, na frente do aeroporto, caminhe para a parada de ônibus onde pára o "Shuttle". É um micro-ônibus que vai do Aeroporto e passa por diversos pontos de Bordeaux terminando na estação (Gare) Saint Jean. Eles custa cerca de 5 euros.

5. Na Gare Saint Jean pegue um trem para a cidade de Saint Foy La Grande. O bilhete deve custar cerca de 11 euros. A viagem dura cerca de 1 hora.

6. Ao chegar em Sainte Foy la Grande, existem duas hipóteses: a) se você chegar na sexta-feira você pode combinar com os monges que eles irão buscar você na estação; b) você pode pegar um taxi direto para o hamlet onde você se registrou - existe um hotelzinho perto da estação onde você pode ligar por alguns centavos, pode inclusive pedir ao atendente para pedir um taxi para você se você não for muito fluente no francês. As pessoas no sudoeste da França são muito cordiais e simpáticas. O taxi irá custar cerca de 25 euros.
Importante: não diga ao taxista que deseja ir à "Plum Village" ou ao "Village des Pruniers", diga o nome da aldeia onde quer chegar e o endereço por exemplo: Hameau du Bas, Meyrac 47120 Loubes-Bernac ( Meyrac é o nome do lugarejo e Loubés Bernac é o nome do município).

7. Finalmente: preços (para maiores de 17 anos) - pode variar , mas é útil para se ter uma base:
-
Quarto com 2 camas e banheiro - 456 euros por semana;
Quarto com 2 camas sem banheiro - 371 euros por semana;
Quarto com 3 a 4 camas e banheiro - 392 euros por semana;
Quarto com 3 a 4 camas sem banheiro - 350 euros por semana;
Quarto com 5 a 10 camas e banheiro -328 euros por semana;
Quarto com 5 a 10 camas sem banheiro -297 euros por semana;

Pode parecer caro, mas em relação aos preços de pousadas na França, é muito mais barato. Todas as refeições (fartos café, almoço e janta) e lanches entre as refeições, chás, cafés, estão inclusos nessas taxas.

PS: Os preços são por semana, não se pode passar menos que isso. Outros detalhes só podem ser resolvidos pessoalmente com o monge responsável...Eles são muito compreensíveis, abertos e tolerantes.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Raiva e Reconciliação

Raiva e Reconciliação

Retirado do Capítulo V do livro de Thich Nhat Hanh -
"Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other"
Tradução Samuel Cavalcante


Era uma vez uma montanha onde muitos deuses viviam. Os deuses eram muito felizes. Eles pareciam não ter nada o que fazer. Eles passavam uma grande parte do tempo somente sentados ou caminhando. Havia um lindo riacho na montanha - a água era límpida e clara. Parecia que cada vez que alguém bebia daquela água se sentia leve e livre, sem desejo e sem raiva. Ao longo do riacho havia muitas cerejeiras que pareciam florir por todo o ano e os botões de cerejeira caíam na correnteza e se iam junto com a água. Alguns deles viajavam bastante longe, até a cidade que ficava no sopé da montanha.

Existia um homem nessa cidade que sofria tanto que queria morrer. Um dia, ele viu uma pétala de flor de cerejeira na correnteza e decidiu seguir seu caminho até a fonte. Ele disse a si mesmo que iria encontrar a fonte, mesmo que levasse anos. Depois de muitos anos de caminhada, ele chegou à montanha dos deuses e eles o convidaram a se aproximar, sentar-se junto da correnteza e tomar um pouco da água com as mãos. Depois de beber a água, o homem sentiu que não tinha mais desejo, nem mesmo desejo de cura e transformação. Ele se sentiu muito cansado, não queria mais nada - queria desistir de tudo.

Ele se deitou à margem do riacho e caiu em sono profundo. Durante o sono, a água continuou a trabalhar em seu corpo e em sua mente, transformando e purificando. Como ele se permitiu dormir profundamente, o trabalho de cura e transformação foi bastante fácil para ele. Ele não fez nada, apenas se deitou e permitiu que a água que havia bebido trabalhasse nele. Alguns dos deuses tomaram conta dele - pegaram dois seixinhos que pareciam olhos de gato, foram ate ele enquanto dormia e trocaram seus olhos pelos seixos. Agora ele tinha novos olhos.

O homem dormira por muito tempo. Depois de uma semana, ele se acordou. Ficou em pé, viu o céu, as árvores como nunca tinha visto antes. Quando ele chegou, o céu e as árvores já estavam ali, mas ele parecia não ter visto do mesmo jeito, pois agora tinha novos olhos. De fato, tudo nele havia mudado. Tinha agora novos ossos, novo coração, novos intestinos - estava completamente transformado. Sentia-se agora como se fosse um dos deuses e não queria mais ir embora. Ele disse: "Eu não quero voltar pra casa, para aquele lugar, eu quero ficar aqui com vocês". Mas um dos deuses replicou: "Você tem que voltar pra casa e ajudar o seu povo". E o homem disse: "Se voltar pra casa, ficarei sozinho. Não conseguirei lidar com isso lá embaixo. É tão difícil! Eu não quero voltar nunca mais para aquele lugar". Um dos deuses, porém disse-lhe: "Olhe, quando você voltar pra casa, não verá mais as coisas do mesmo jeito que via no passado. Antes, você enxergava o céu e as árvores, mas agora, depois de uma semana, você já vê realmente o céu e as árvores. Não tenha medo de voltar pra casa. Com seus novos olhos, novos pulmões e novos ossos você verá as coisas de maneira diferente, não precisará sofrer. E sabe de uma coisa? Mesmo quando você voltar você continuará a nos ver. Nós não estamos somente aqui, estaremos lá embaixo com você".

O homem então entendeu. Disse adeus aos deuses, à montanha e ao riacho e começou a jornada de volta. Mas desta vez, não levou vários anos, como para subir. Levou apenas uma manhã. Os deuses estavam certos. Quando chegou em casa com seu novo ser, ele não viu a situação de maneira tão ruim e desesperadora como antes. Ele agora era capaz de olhar com solidariedade e clareza, seu coração estava aberto e era capaz de redescobrir os seres humanos de uma forma nova.Ele sentiu a
solidariedade crescendo nele por que viu que muitos seres humanos estavam presos a idéias, ideologias, religião e cultura e que, por isso, sua verdadeira natureza humana não podia ser vista. Mas agora, depois que se tornou uma pessoa livre, pôde descobrir seres humanos mesmo dentro de verdadeiros cadáveres. Por isso, quando ele os olhava e os ouvia, não se sentia mais irritado ou frustrado. Com seu sorriso, podia ajudá-los a mudar sua situação. Ele descobriu que não estava sozinho. Todos os deuses com os quais se encontrara na montanha estavam bem ali para ajudá-lo e para lhe fazer companhia.

Essa estória é feliz por que o homem foi capaz de passar sete dias na montanha permitindo a si mesmo ser objeto de transformação e cura através da água da
solidariedade. Ele não fez absolutamente nada durante o tempo em que ficou na montanha. Não praticou nada, praticou a não prática. Apenas permitiu a si mesmo ser abraçado pela montanha, pelo riacho, pelas árvores, para se renovar. Assim, ele conseguiu novos olhos, novos ouvidos, novos ossos e novo coração. Se ele tivesse ido à montanha somente para procurar idéias e respostas para levar pra casa, não teria sido capaz de retornar solidário e sem medo. Ele não foi à montanha em busca de teorias, ideologias, táticas ou estratégias. Ele foi lá para se renovar e deixou que essa renovação ocorresse. Quando voltou para casa, não levou ensinamentos, práticas ou respostas - apenas levou a si mesmo, totalmente renovado.

Vocês (israelenses e palestinos, NT) não precisam de respostas de outras pessoas sobre como mudar suas relações pessoais e com o resto do mundo. Se vocês mudarem seus olhos e corações, não precisarão de mais nada. Não precisam de nenhuma prática ou estratégias. Encontrem o riacho, bebam da sua água, deitem-se e permitam que a água faça o resto.
Como Seres Humanos, Somos Exatamente o Mesmo


Às vezes é mais fácil ficar com raiva do que expressar seu próprio sofrimento. Os israelenses pensam que não são árabes, mas são muito semelhantes aos árabes. São seres humanos. Eles não querem morrer, mas viver em segurança. Eles querem fraternidade, irmandade e paz. Estamos separados por nomes como "Budista","Cristão","Judeu", "Muçulmano". Quando ouvimos uma dessas palavras, vemos uma imagem e nos sentimos alienados, não nos sentimos conectados. Construímos muitas estruturas para estarmos separados uns dos outros e para fazermos sofrer uns aos outros. Por isso é importante descobrir o ser humano na outra pessoa, e ajudar a outra pessoa a descobrir o ser humano em nós. Como seres humanos, somos exatamente o mesmo. Se você tem muitas camadas de roupa sobre si mesmo, você evita que outras pessoas vejam você como um ser humano. Ser "Budista" pode ser uma desvantagem, por que se você carrega esse título pode ser um obstáculo e as pessoas podem não ser capazes ver o ser humano em você. Da mesma maneira se se carregar a marca "Muçulmano", que pode fazer muitas pessoas se desviarem de você, pois elas estão tão agarradas a essas noções que não podem se reconhecer umas às outras como seres humanos. É uma pena. É por isso que o Mestre Lin Chi disse que você tem que queimar todos esses obstáculos, jogá-los fora e queimá-los. Esta é uma prática verdadeira - queimar tudo para que o ser humano seja revelado. Este é o trabalho da paz.

Em 1963, eu estava sentado com alguns dos meus estudantes no campus da Universidade de Columbia em Nova Iorque. A manhã estava linda, o sol estava brilhando e estávamos conversando entre nós sobre a prática budista de remover conceitos. De repente, alguém passou, parou, olhou para mim por alguns segundos e me perguntou: "Você é budista?". Olhei para ele e disse "Não". Disse uma mentira? Espero que meus estudantes tenham me entendido naquele momento. Se eu tivesse dito "Sim, sou budista", ele poderia ser apanhado pela idéia do que um budista deva ser, e isso não vai ajudá-lo. Assim, "Não" foi de mais ajuda que um "Sim". Esta é a linguagem do Zen. Se você diz ou faz alguma coisa é para ajudar a desfazer os nós nas mentes das pessoas e não amarrá-las. É por isso que a linguagem que usamos deve ter como objetivo a libertação.

Quando ouvimos os palestinos e todo o sofrimento pela qual passam, entendemos seu sofrimento por que sofremos também. Não queremos comparar nosso sofrimento com o deles, mas entendermos o sofrimento como uma realidade. Esta é a Primeira Nobre Verdade, "o sofrimento existe". É claro, queremos que o sofrimento acabe. Não queremos que eles sofram mais. E se alguém dissesse: "Estamos sofrendo. Fomos vítimas. Você ficará do nosso lado? Você estará comigo para se opôr a todos aqueles que criaram esse sofrimento?". Então seria muito difícil de responder. Você está com eles, compreende profundamente seu sofrimento, mas se pedem pra você se juntar a eles na luta pela destruição daqueles que acreditam ser seus inimigos, você reluta, você sabe que eles tentaram esse método por vários anos e não conseguiram. Eles não estavam sozinhos nesta luta - tiveram apoiadores tanto no país quanto no estrangeiro, mas essa corrente de ação - tentar destruir os chamados inimigos - não deu em nada e, de fato, não diminuiu o sofrimento, apenas o aumentou.

Reluto em dizer que estou do seu lado, que eu apoio vocês de todo coração, que farei tudo o que vocês quiserem que eu faça. Não estou pronto pra escolher um lado assim. Eu perguntaria: "Sim, estou pronto pra ficar do seu lado, mas você está pronto pra ficar do meu? Sou um ser humano como você, você sabe qual o meu lado? É o de que o sofrimento deve parar. Concordo com você que algo tem que ser feito e deveria ter sido feito para parar o sofrimento. Mas eu não posso concordar com outras coisas da sua posição. Quero agir, quero ter
solidariedade, mas não quero agir baseado na raiva, na violência e na discriminação. Se você ficar do meu lado, estarei com você cem por cento".

Quando você apóia alguém, você traz consigo todo o seu ser nesse apoio. No seu ser está sua sabedoria e
solidariedade. Sem essa sabedoria e solidariedade você não pode apoiar ninguém. Se eu ficar do seu lado, não vai significar que eu irei ajudar a construir uma cerca, destruir uma cidade ou levar uma bomba para explodir os passageiros. Apesar de estar com você no seu sofrimento e no seu desejo de acabar com o sofrimento, não posso estar com você nesse tipo de ação. Acredito que existem muitas maneiras de acabar com o sofrimento e ajudar os chamados inimigos a também acabar com o sofrimento deles. Para mim existe um caminho bastante claro. Se mantivermos os venenos do desespero, da raiva e da violência dentro de nós, continuaremos a sofrer, e qualquer ação que fizermos não beneficiará ninguém.

Por isso, ir à montanha, deitar-se e deixar que a água da
solidariedade transforme você e remova esses venenos é crucial. Não estou aqui na montanha para pedir aos deuses que se juntem a mim no combate aos meus inimigos. Estou aqui para permitir aos deuses que me ajudem a remover os venenos da violência, medo, desespero e raiva. Então eu sei que, quando eu voltar para casa como uma nova pessoa, poderei ajudar muitas outras pessoas, pois desta vez, estarei equipado com os elementos da compreensão, solidariedade, serenidade e solidez.

Injustiça é sofrida pelos dois lados. Os palestinos têm sofrido muito. E quando os israelenses vêm e descrevem para nós o seu sofrimento, somos capazes de ver que também têm sofrido. Esse tipo de compreensão é crucial. Uma vez que a compreensão e a
solidariedade tenham nascido em nosso coração, os venenos da raiva, discriminação, ódio e desespero serão transformados. Por isso é que a única resposta é remover o veneno e deixar que o insight e a solidariedade entrem. Então eles irão se descobrir uns aos outros como seres humanos e não ficarão desapontados com as aparências externas como "Budismo", "Islã", "Judaísmo", "Pró-americano", "Pró-árabe" etc. Este é o processo de libertação da nossa ignorância, idéias e noções e da nossa tendência a discriminar. Quando vejo você como um ser humano que sofre bastante, não terei coragem de atirar em você. Pedirei a você que venha trabalhar comigo para que tenhamos chance de vivermos juntos em paz. É uma pena - a Terra é tão bonita e existe ainda tanto espaço para todos - que continuemos a nos matar uns aos outros.

PS: Compaixão = solidariedade (ver Nota do Tradutor)
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quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Paz Começa Aqui - Parte 3

O Tempo Certo Para Um Pic-Nic - Parte 3

Livro "Peace Begins Here: Palestinians and Israelis
Listening To Each Other"
Tradução: Samuel Cavalcante


Os Cinco Reinos da Paz

Nós temos nosso próprio território de paz dentro de nós, que é composto de cinco reinos - nosso corpo, nossos sentimentos, nossas percepções, formações mentais e consciência. Temos que trazer paz ao nosso corpo e remover seus conflitos, tensão e dor. Existem também muitas tempestades, aflições e dor no reino de nossas emoções. Temos que aprender a trazer a paz para esse território de sentimentos e emoções.

Quando eu olho para a minha caneta, eu tenho uma percepção dela. Se minha percepção corresponde fa realidade da caneta ou não é uma questão real - por que vivemos com muitas percepções errôneas. Acreditamos que somos os únicos a sofrer, que os outros estão nos fazendo sofrer e que eles não sofrem de jeito nenhum. Este é um tipo de percepção errônea. Se acharmos tempo para inspirar e expirar e encontrar a paz em nós mesmos, poderemos ver que as outras pessoas também sofrem enormemente, assim como nós, e precisam ser ajudadas, não punidas. Por isso a paz não poderá ser possível sem a remoção dos elementos de percepção. Quando nossas percepções nascem da raiva e do medo, elas não podem ser chamadas de percepções corretas. Por sua vez, nossas percepções erradas dão origem ao medo, à raiva e ao desespero, que podem nos levar a cometer atos de violência, punição e morte. Por causa disso, é muito importante praticar a meditação sentada e andando, para podermos trazer paz aao reino das nossas percepções e remover os elementos errôneos.

O quarto reino é aquele das formações mentais, cittasamskara. Uma formação (samskara) é algo que se manifesta quando muitas condições são reunidas. Uma flor é uma formação física - chuva, o sol, a terra, o tempo, o espaço se reuniram para que a flor se manifestasse. Nosso corpo é uma formação fisiológica. Todas as formações são impermanentes e estão em constante mudança. Nosso medo, nossa raiva, nossa discriminação, esperança, alegria e nossa plena consciência são formações mentais. Na tradição budista, identificamos cinquenta e uma formações mentais. Quando contemplamos nossa mente, não estamos olhando para um espaço claro e vazio, olhamos para as nossas formações mentais.

Por fim temos o reino da consciência. Temos que voltar para o lar da nossa consciência, poor que nossa consciência é o chão de todas as coisas. Nosso corpo, nossos sentimentos, percepções e formações mentais nascem do chão da consciência. Não somente o nosso corpo contém nossa consciência, nossa consciência também contém o nosso corpo.

Eu Sou Sólido, Eu Sou Livre

O que significa ser sólido? Significa estar no momento presente. Nós temos uma tendência a sermos jogados em direção ao passado. Sentimos remorso por alguma coisa ou nos sentimos culpados e nos perdemos em meio a tudo isso. Não somos sólidos por que somos vítimas do passado. Não somo capazes de viver no momento presente por que o passado se tornou como um fantasma, sempre nos puxando de volta. Existem pessoas que somente pensam no passado, que não são capazes de viver no presente, que não são livres e nem sólidas.

Muitos de nós estamos amarrados por nossas preocupações, medo e incerteza em relação ao futuro. Essas preocupações não permitem estar presentes e tocar a vida. Quando dizemos "Cheguei, estou em casa", "você não pode me pegar, estou no aqui e no agora" ou "eu sou mestre de mim mesmo", então nos tornamos sólidos. "Eu sou sólido" não é conversa fiada. Se você for capaz de chegar e se sentir em casa, então se tornará sólido naturalmente. Isto é um sinal de que você está aqui e agora, em casa. Nâo é mais uma esperança, é realidade, você se torna consciente de que está mais sólido. Se você gastar três minutos caminhando, chegando e se sentindo em casa em cada momento, a solidez se tornou uma realidade, um fato. Você saberá quando estiver sólido ou não. Você será sólido quado estiver completamente estabelecido no aqui e no agora. O passado não pode te pegar e nem o futuro; você é livre. Por isso dizemos "Eu sou sólido, eu sou livre".

Livre de que? Livre do passado, das minhas preocupações, do meu medo. É por isso que solidez e liberdade não são duas coisas. Quando somos sólidos, somos livres; quando somos livres, somos sólidos. É como o aqui e agora. Solidez e liberdade são o fundamento da paz e da liberdade. Cada passo consciente que damos nos ajuda a cultivar mais solidez e mais liberdade. Seja você mesmo, seja livre, estabeleça-se no aqui e no agora. Toque a vida profundamente e receba o alimento e a paz que você tanto necessita.

A onda está agora repousando na água. Você está repousando no absoluto, em Allah, em Deus, em sua natureza de Buda. Não é um questão de tempo. O absoluto está disponível aqui e agora; a água está disponível para a onda aqui mesmo, nete exato momento. O absoluto é o nosso fundamento. Caminhando e respirando dessa maneira, você estará sempre em contato com Deus, não como uma noção, uma idéia, mas enquanto uma realidade. Você pode tocar em Deus, tocando em uma flor, tocando o ar, tocando outra pessoa. Fora dessas coisas não há Deus. Se você remover todas as ondas, não haverá mais água. Tocar as maravilhas da vida em você e à sua volta significa tocar o absoluto.

A Paz Está Em Cada Momento

A Sala de Meditação é maior que a sala que você usa para se sentar. Ela inclui o ar e a terra em volta e até mesmo o banheiro que você usa. Você pode achar que o banheiro não é tão sagrado quanto a sala de meditação, mas isso não é verdade. No espírito do Zen, o banheiro é tão sagrado quanto a sala de meditação ou o salão do Buda. É por isso que pomos um vaso de flores no banheiro, para mostrar que ali também é um lugar para praticar. Quando você lavar suas mãos no banheiro aprecie a água escorrendo pelos seus dedos – isso é Deus, isso é felicidade. Você é capaz de apreciar a água, essa maravilha da vida,escorrendo pelos seus dedos? Se você estiver aqui, agora – plenamente consciente e concentrado – sentir a água escorrendo nos seus dedos será maravilhoso, e isso lhe servirá de alimento e cura. Aproveite cada segundo e sorria para si mesmo. A paz está aqui e agora, disponível. Escove seus dentes de tal modo que a paz e a alegria sejam possíveis. Desafie a si mesmo: quando estiver escovando os dentes, pergunte a si mesmo se você é feliz ou não. Dê a si mesmo tempo suficiente para apreciar. E também ao urinar, desfrute esse momento. Por que ter pressa? Desfrute do seu tempo no banheiro.

A paz e a alegria deveriam ser possíveis em cada momento. Por favor, tente. Quando caminhamos juntos, como um grupo, desfrutamos da energia coletiva da plena consciência e da concentração. Se nos perdermos em pensamentos, se formos carregados pelos nossos projetos, pelo passado ou pelo futuro, então o caminhar sólido de um irmão à nossa direita ou de uma irmã à nossa esquerda nos trará de volta ao lar do nosso aqui e agora e, assim, poderemos retomar nossa caminhada plenamente consciente. Cada passo dado assim nos serve como cura e alimento. Não pense nisso como uma prática difícil. A prática deve ser alegre e prazeirosa. Se você sofrer durante o caminhar, o sentar ou o comer, então você não estará praticando corretamente. É um pic-nic – você deveria ser capaz de apreciar cada momento.

De tempos em tempos convidamos o sino a soar. O sino é a voz de Deus, do Buda, de Allah em nós, chamando-nos para o nosso verdadeiro lar, para o aqui e o agora. Sempre que o telefone tocar, é também a voz de Deus nos chamando de volta ao momento presente. Se você estiver ajudando na cozinha ou trabalhando no jardim, desfrute cada minuto do ato de cozinhar ou de cuidar do jardim. Você está sempre no Reino de Deus – não o deixe. O passaporte para entrar no Reino de Deus é a plena consciência e a concentração. Mantenha esse passaporte com você e você estará apto a permanecer no Reino de Deus e não terá que deixá-lo.

Aproveite o seu pic-nic.

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sábado, 29 de setembro de 2007

Um Lugar Seguro

Um Lugar Seguro

Trecho do Livro de Thich Nhat Hanh “Keeping the Peace – Mindfulness
and Public Service”, capítulo 8 - A Safe Place.
Tradução: Samuel Cavalcante


Em Plum Village, temos centenas de monges, monjas e leigos praticando juntos como um organismo. Nós temos um código de comportamento chamado de Treinamentos da Plena Consciência. Este código é tão antigo quanto o Buda e tem sido passado adiante por milhares de anos, mas não é imposto a nós por ninguém. É algo com o qual temos que concordar para a nossa própria felicidade.

Como um indivíduo, você tem que ter um código de comportamento para proteger a si mesmo. De maneira similar, sua família e seu local de trabalho também têm que ter algumas práticas de comum acordo para se protegerem enquanto família ou comunidade. Talvez vocês concordem em se sentarem juntos calmamente antes das refeições ou se sentar sozinho quando estiverem com raiva, antes de conversar com alguém. Esses acordos mútuos podem proteger e nutrir vocês mesmos, suas famílias ou sua comunidade de trabalho.

Para funcionar como um organismo, é necessário haver um comportamento que seja aceitável e desejável por todos. Você não pode apenas usar a autoridade de pai ou mãe para obrigar um filho a fazer alguma coisa. Se eles estão fazendo algo que está ferindo sua família, você tem que explicar isso com bondade. Você não pode simplesmente escrever algumas leis: tipo "Não volte para casa depois de tal e tal hora"; "você pode gastar somente esse tanto de dinheiro"; ou "quando eu falar com você, você tem que escutar e não replicar". Todas essas coisas podem ser de ajuda, mas não são suficientes. O código de comportamento tem que ser criado e praticado de tal modo que a comunicação entre todos na família seja possível e proveitosa.

É a mesma coisa no ambiente de trabalho. Só por que você supervisiona as pessoas no trabalho, dar ordens e forçá-las a obedecer não vai funcionar. Como professor, eu não uso a minha autoridade para forçar os meus estudantes a fazer o que eu quero. Não funciona. Ao invés disso, eu sento com meus estudantes e mostro a eles que seu comportamento ou ação negativa não está trazendo felicidade nem pra eles e nem pra comunidade.

Muitos de nós somos professores. A escola devia ser um lugar onde a prática da plena consciência pode ser um agente de proteção e cura. Muitos estudantes vêm de família e situações difíceis. Muitos professores têm suas próprias dificuldades e as levam para a sala de aula. Frequentemente, tanto os estudantes quanto os professores trazem os seus próprios problemas para a escola e aumentam o sofrimento uns dos outros. Para praticar a plena consciência é preciso ter um código de ética que crie um lugar seguro para a energia coletiva da plena consciência possa abraçar aqueles que estão sofrendo. É preciso muita paciência para aceitá-los e dar-lhes a chance de se transformarem.

Para mim, compreensão é o próprio fundamento do amor. Se você não compreender as dificuldades dos outros, seu sofrimento, dor e suas aspirações profundas, você não poderá cuidar deles e fazê-los feliz. É por isso que compreensão é amor. Você tem tempo para observar e compreender? Você compreende a si mesmo? Você compreende as raízes de seu próprio sofrimento, de sua própria tristeza e dor? Você sabe lidar consigo mesmo com solidariedade? Se você nãosouber lidar consigo mesmo com solidariedade, como poderá se relacionar com os outros com compreensão e solidariedade? Este é o tipo de prática que pode promover um código de comportamento que fará o ambiente de trabalho harmonioso, feliz e cheio de paz.

Por isso, professores, policiais, assistentes sociais e todos nós que estamos frequentemente em contato com pessoas que estão sofrendo, precisamos aprender a lidar com nossas próprias frustrações e raiva. Podemos dizer: "Inspirando, eu sei que a raiva está em mim. Expirando, abraço a minha raiva com carinho. Não devo fazer meus alunos ou clientes sofrer por causa da minha raiva, mesmo se alguns deles se comportarem de maneira violenta".
Mais Acordo, Menos Autoridade

Quando um jovem policial diz "Eu adoro ser tira", pode ser que ele simplesmente goste de seu trabalho como policial e queira ajudar as pessoas. Mas pode ser também que ele goste da autoridade que possui. As pessoas o respeitam como policial e ele usufrui dessa situação. Mas se ele não praticar, mais tarde ele irá sofrer. O treinamento de um policial deveria incluir um treinamento sobre como não identificar-se, o seu ego, com o poder a ele conferido. Isto é muito importante.

Se você estiver treinando policiais, professores ou qualquer outra pessoa em posição de autoridade, você deveria deixar claro, desde o início, que a autoridade não está aí para ser motivo de abuso.

Especialmente nos países budistas, os monges são tratados com muita reverência e respeito. Se não praticarmos a compreensão de que não somos nossos trajes, que não somos autoridades, cairemos vítimas de nossos egos e faremos sofrer a nós e a nossa comunidade. Teremos falhado em nossas vidas como monges. O traje de um monge representa o Dharma. Quando você se torna um monge, você toma os votos de incorporar em si o Dharma, de fazer do Dharma o objeto absoluto de sua vida. Se alguém reverencia você, se alguma pessoa demonstra por você um extremo respeito, não pense que ela está venerando você, o seu ego. Se você pensar assim, você estará perdido. Às vezes, milhares de pessoas se inclinam com extrema reverência a mim. Por causa da plena consciência, eu sei que eles estão reverenciando o Dharma. Eles estão reverenciando o bom, o belo e o verdadeiro. Não estão reverenciando o meu ego. Assim eu permaneço livre. Eu me protejo com a energia da plena consciência. Se eu for pego em orgulho, se eu tiver um pensamento errôneo, uma compreensão errônea, uma percepção errônea de sua veneração, eu morrerei enquanto monge.

Cada vez que um jovem se torna monge ou monja é dado a ele ou ela um traje para vestir - imediatamente eu digo para que ele ou ela pratiquem o ato de soltar-se do ego. Se você se veste em trajes de monge, você será objeto de veneração e respeito para muitas pessoas. Não pense que eles estão mostrando respeito e veneração ao seu ego. Não. Você pode ter ainda muita raiva, ignorância e aversão em você. Eles não estão reverenciando seu ego, mas o símbolo de verdade e beleza que você representa. Mas não diga "Não, não sou digno de seu respeito". Você não tem direito de dizer isso porque você está trajando vestes de monge. Assim, a única coisa que você pode fazer é se sentar muito calmamente, inspirando e expirando, e percebendo que eles estão reverenciando a verdade, a beleza e o Dharma e você estará a salvo.

Quando você veste uma roupa de monge, torna-se um símbolo do Dharma, assim como quando você põe uma farda de policial se transforma em um símbolo da lei, ou quando você se senta atrás de um birô de professor você se transforma em um símbolo de autoridade. Isto pode ser um perigo, mas também dá a você a chance de pensar um modo de trabalhar com as pessoas para criar um código de ética em uma comunidade.

Se vocês estiverem treinando policiais, professores, médicos ou assistentes sociais, por favor, digam de antemão que se as outras pessoas demonstram muito respeito e temor, na verdade demonstram isso para a lei, para a medicina, para a educação. Eles estão demonstrando respeito a um código de conduta e não a você como um indivíduo. Se você sente que as pessoas demonstram deferência, mas você aprecia da maneira errada, você sofrerá mais tarde e o sofrimento poderá se espalhar pelo seu departamento ou pela sua família.

Isso não significa que você não possa apreciar o fato de ser uma pessoa que serve à sociedade. O poder foi conferido a você para que você possa ser útil. Você pode ajudar a proteger as pessoas, oferecer a elas segurança e ajudá-las a curar a violência nelas mesmas, de modo que elas não a usarão para atacar. Aquela pessoa que carrega uma arma e está prestes a dar um tiro é também objeto de seu serviço. Se você puder evitar que ela ou ele atire estará fazendo um bom serviço. E você o faz com solidariedade. Você não os considera seus inimigos. Se você os considerar seus inimigos, isto não estará na linha do pensamento correto. Você não serve apenas aos cidadãos pacíficos, mas também aos criminosos em potencial. Seu trabalho é evitar a violência.

Se você se engajar numa disputa de poder com aqueles os quais você serve, jamais poderá undi-los de maneira feliz, enquanto comunidade. Se você deixar de lado esta necessidade de autoridade, tornar-se-á possível para policiais, professores, agentes prisionais, viverem felizes enquanto escola, departamente, comunidade e apreciar a compreensão e o apoio das pessoas de fora.

Como criar um código de ética mútuo com aqueles aos quais você serve? Deveria haver um tempo para professores e estudantes sentarem juntos para conversar sobre suas dificuldades e sofrimento. A compreensão mútua removerá a raiva e a aversão - e professores e estudantes se comportarão como membros de uma mesma família. Transformação e cura poderão ser possíveis na escola, pois a escola se tornou o lugar para uma segunda chance, uma segunda família. Se professores e alunos tiverem sucesso, serão capazes de levar a cura para casa e para a suas famílias.

Isto é mais difícil de fazer em profissões do tipo policial, mas é possível. Imagino que o departamento de polícia pode organizar sessões de casa aberta e convidar as pessoas da sua área para vir e se encontrar como seres humanos, capazes de dançar, cantar, ser gentis e felizes. As revistas dos departamentos de polícia deviam ser cheias de artigos positivos, estórias e poemas para que a compreensão mútua surja entre os policiais e as pessoas às quais servem. E acho que nós, como civis, deveríamos organizar, de vez em quando, uma festa e convidar nossos policiais a vir e apreciar um concerto, música, dança, para que possamos ver a humanidade do policial. Isto é muito importante.

Não é impossível. Uma vez que os tenhamos visto enquanto seres humanos, poderemos perceber que compartilhamos objetivos, esperança e ética.

PS:Solidariedade = compaixão (ver Nota do Tradutor)

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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A Paz Começa Aqui - Parte 2

O Tempo Certo Para um Pic-Nic - Parte 2


Livro "Peace Begins Here"
Tradução: Samuel Cavalcante

Caminhando Conscientemente

Em Plum Village, quando caminhamos, tomamos refúgio em cada passo e entramos em contato com o absoluto em nossos passos. Damos um passo e tomamos refúgio inteiramente nele. O absoluto se torna disponível para nós naquele momento. Você tem que trazer cem por cento do seu corpo e do seu espírito ao tomar refúgio nos seus passos.

Na nossa vida diária, temos o o hábito de correr. Buscamos paz, sucesso, amor, Deus - estamos sempre correndo - e nossos passos são o meio para fugirmos do momento presente. Deus está disponível somente no momento presente. Dar um passo e tomar refúgio nele significa parar de correr. Para aqueles que estão acostumados a estar sempre correndo é uma revolução dar um passo e parar de correr. Damos um passo e, se soubermos como dar este passo, a paz e Deus estarão disponíveis no momento em que tocarmos a terra com nossos pés.

Enquanto caminho devagar, quando inspiro, dou um passo e quando expiro, dou outro passo. eu me entrego inteiramente ao dar o passo enquanto inspiro. Tomo refúgio inteiramente no passo, encontro o absoluto, Deus e a vida, por que a vida é disponível apenas no momento presente. Estas são coisas bastante simples, mas nunca encontramos tempo para percebê-las. O passado já se foi, o futuro não está aqui ainda,somente o momento no qual podemos estar realmente vivos: o momento presente. É por isso que é tão importante tomar refúgio na nossa inspiração e no nosso passo, por que eles são os únicos meios para nos levar ao nosso lar no momento presente, onde podemos tocar a vida e encontrá-la profundamente.

Eu Cheguei

Imagine que você está em um avião, voando para Nova Iorque. Uma vez sentado lá dentro, você pensa "Tenho que me sentar quieto durante seis horas até chegar lá". Sentado no avião, você pensa somente em Nova Iorque, não é capaz de viver os momentos que lhe são oferecidos agora. Mas é possível, para você, caminhar no avião de tal modo que você desfrute de cada momento de paz. Você não precisa chegar em Nova Iorque para estar em paz e feliz. Ao longo de sua caminhada, cada passo traz a você felicidade e você chega em cada momento. Chegar significa chegar em algum lugar. Quando você pratica a meditação andando você chega em cada momento - você chega ao destino da vida. O momento presente é um destino. Inspirando, dou um passo, outro passo e digo a mim mesmo "eu cheguei, eu cheguei".

"Eu cheguei" é a nossa prática em Plum Village. Quando você inspira, toma refúgio em sua inspiração, e diz "Eu cheguei". Quando você dá um passo, você toma refúgio no seu passo e diz "Eu cheguei". Isto não é uma declaração para si mesmo ou pra outra pessoa. "Eu cheguei" significa eu parei de correr. Eu cheguei no momento presente, por que somente o momento presente é vida. Quando eu inspiro e tomo refugio em minha inspiração, toco a vida profundamente. Quando dou um passo e tomo refúgio inteiramente no meu passo, também toco a vida profundamente e, desse modo, paro de correr. Parar de correr é uma prática muito importante. Corremos durante toda a nossa vida. Acreditamos que a paz, a felicidade e o sucesso estão presentes em algum lugar e em algum tempo. Não sabemos que tudo - paz, felicidade e estabilidade - deveriam ser procurados no aqui e agora. Este é o endereço da vida - a interseção do aqui e do agora.

Isto parece ser fácil, e todos podem fazê-lo, mas precisa de algum treinamento. A prática de parar é crucial. Como eu paro? Paramos através de nossa inspiração, de nossa expiração e de nossos passos. É por isso que a nossa prática básica consiste em respirar conscientemente, andar com plena consciência. Se você dominar estas práticas, então você poderá praticar o comer consciente, o beber consciente, o cozinhar consciente e o dirigir carros consciente - e você sempre estará em paz. Não devemos ser como o professor e seus alunos que estavam sempre correndo até virem um funeral e perceberem que este era o pic-nic final. Temos que desfrutar o nosso pic-nic aqui mesmo, neste exato momento. E temos os meios de fazê-lo. Se você acha muito difícil inspirar ou dar um passo com plena consciência, você está errado. São coisas bastante agradáveis. Você pode tocar a paz apenas pela inspiração ou com um passo. Você pode tocar a semente de paz que existe dentro de você e remover a tensão e o conflito em seu corpo, em seus sentimentos e em suas percepções.

Nossa prática é a prática da plena consciência - ao respirar, caminhar, comer, lavar os pratos e ao cozinhar - sempre habitando no aqui e no agora. e não permitindo sermos expulsos pelas nossas preocupações, projetos para o futuro ou remorsos em relação ao passado. Temos que reivindicar a nossa liberdade, por que nós a perdemos. Fomos apanhados pelo nosso passado e pelas preocupações com o futuro. Não temos capacidade de estar aqui e agora tocando a vida. É por isso que é muito importante aprender a arte de tornar-se paz aqui e agora.

A presença de uma comunidade com a qual praticar torna isso mais fácil. À sua esquerda há um amigo que sabe como inspirar e expirar e tocar o momento presente. À sua direita está outro amigo que sabe dar um passo e habitar pacificamente e com alegria no presente momento. Atrás de você há uma irmã e à sua frente um irmão que podem fazer o mesmo. Você está cercado de pessoas que dominam a arte de viver no momento presente, a arte de parar, de tocar as sementes de paz e alegria que estão em cada um de nós, a arte de se tornar um instrumento de paz para as pessoas que nos cercam.

"Eu cheguei" é uma prática, não uma afirmação ou uma declaração. Eu cheguei no aqui e agora e posso tocar a vida profundamente com todas as suas maravilhas. A chuva é uma maravilha, o brilho do sol é uma maravilha; as árvores são maravilhosas; os rostos das crianças são maravilhas. Existem tantas maravilhas da vida à nossa volta e dentro de nós. Nossos olhos são maravilhas - precisamos apenas abrí-los para ver todo o tipo de cores e formas. Nosso coração é uma maravilha - se o nosso coração parar de bater , nada poderá continuar.

Quando vamos ao nosso lar no presente momento, tocamos as maravilhas da vida que estão dentro de nós e em torno de nós. Devemos apenas apreciar - não precisamos esperar por amanhã para encontrar a paz e a alegria. Quando você inspirar diga "eu cheguei" e você saberá se você chegou ou não, se você está correndo ou não. Mesmo sentando-se pacificamente, você poderá estar correndo em sua mente. Quando você sentir que chegou, se sentirá muito feliz. Você deve contar pros seus amigos "querido amigo, eu realmente cheguei". Esta é uma boa notícia.

Quando você dá um passo, é maravilhoso chegar em cada momento. É por isso que não conversamos enquanto estamos caminhando. Se estamos ocupados conversando, como poderemos chegar? Se precisamos dizer algo, podemos parar e dizê-lo completamente presentes. Fazemos uma coisa de cada vez. Depois de terminada a conversa, podemos retornar à caminhada e desfrutar de nossos passos. Se você souber como caminhar dessa maneira, estará sempre no Reino de Deus, na presença de Allah, na Terra Pura do Buda, assim como a onda está sempre no reino da água. Eu tenho o prazer de caminhar no reino de Deus todos os dias. É algo que você pode fazer agora mesmo - não é algo na qual se ter esperança. Por que me privar dessa alegria? É algo que cura e nutre bastante. Meus amigos podem fazer isso também, se eles realmente quiserem. Se tudo o que vocês quiserem da vida for um diploma ou um grande salário, isso toma tempo, mas se você quiser desfrutar de uma caminhada no Reino de Deus, você poderá fazê-lo agora - assim que você conseguir voltar ao lar do momento presente.

Quando você inspirar, você pode dizer "Eu cheguei". Quando você expirar, você pode dizer "estou em casa". Nosso verdadeiro lar é o aqui e agora. Somente no aqui e agora é que encontramos nosso real refúgio. No presente podemos estar em contato com nossos ancestrais, com Deus,com nossos filhos e netos. Estas coisas já estão disponíveis no momento presente. Ele é seu verdadeiro lar. Se você se sente em casa, então você não precisa mais correr e sua prática foi bem sucedida. Se você ainda sente que precisa correr, então você ainda não chegou, não está em casa ainda. A sua casa não é apenas o Oriente Médio, a Holanda, Inglaterra ou a América. Sua casa é aqui - aqui significa vida. Todas as maravilhas da vida são disponíveis aqui e agora, e isso traz muita alegria, paz e felicidade.

A Paz Começa Aqui - Parte 3

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