sábado, 1 de agosto de 2009

Cinco Treinamentos da Plena Consciência - Nova Versão


Os Cinco Treinamentos da Plena Consciência

Reverência à Vida
Ciente do sofrimento causado pela destruição da vida, eu me comprometo a cultivar o insight do Interser e da solidariedade e a aprender maneiras de proteger a vidas das pessoas, animais, plantas e de todo o planeta Terra. Estou determinado a não matar, a não deixar que outros matem e a não apoiar nenhum ato de matança no mundo, seja na minha maneira de pensar ou no meu modo de vida. Ao ver que as ações que causam sofrimento surgem a partir da raiva, do medo, da avidez e da intolerância – que por sua vez se baseiam no pensamento dualista e discriminativo, cultivarei a abertura, a não discriminação e o não apego a pontos de vista para transformar a violência, o fanatismo e o dogmatismo em mim mesmo e no mundo

Verdadeira Felicidade
Ciente do sofrimento causado pela exploração, injustiça social, roubo e opressão, eu me comprometo a praticar a generosidade no meu modo de pensar, de falar e de agir. Eu me comprometo a não roubar e a não possuir nada que porventura pertença a outros e a compartilhar meu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que precisam. Praticarei a observação profunda para ver que a felicidade e o sofrimento dos outros não estão separados da minha própria felicidade e sofrimento. Praticarei para ver que a verdadeira felicidade não é possível sem compreensão e solidariedade – e que buscar riqueza, fama, poder e prazeres sensoriais podem gerar sofrimento e desespero. Estou ciente de que a felicidade depende do meu estado de espírito e não de condições externas e que posso ser feliz no momento presente, bastando me lembrar que já possuo todas as condições para isso. Eu me comprometo a praticar o Meio de Vida Correto de forma a reduzir o sofrimento dos seres vivos na Terra e, especialmente, frear o processo de aquecimento global.

Verdadeiro Amor
Ciente do sofrimento causado pelo má condução da vida sexual, eu me comprometo a cultivar a responsabilidade e a aprender maneiras de proteger a segurança e a integridade dos indivíduos, casais, famílias e da sociedade como um todo. Consciente de que desejo sexual não significa amor e que a atividade sexual motivada pelo desejo irá somente ferir a mim e aos outros, eu me comprometo a não me engajar em relações sexuais sem verdadeiro amor e sem um compromisso profundo e de longo prazo apoiado pela minha família e pelos meus amigos. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para proteger as crianças do abuso sexual e para evitar que famílias sejam desfeitas pela má conduta sexual. Percebo que corpo e mente são um só, eu me comprometo a aprender maneiras apropriadas de cuidar da minha energia sexual e a cultivar a bondade amorosa, a solidariedade, a alegria e a inclusividade que são os quatro elementos básicos do verdadeiro amor. Ao praticar o verdadeiro amor, poderei continuar de maneira mais bela no futuro.

Fala Amável e Escuta Profunda
Ciente do sofrimento causado pelo fala inconsequente e pela minha inabilidade de ouvir os outros, eu me comprometo a cultivar a fala amável e a escuta solidária para aliviar o sofrimento e promover a reconciliação e a paz em mim mesmo e entre as pessoas, grupos religiosos, étnicos e nações. Sabendo que a as palavras podem criar tanto felicidade quanto sofrimento, eu me comprometo a falar a verdade com palavras que inspirem confiança, alegria e esperança. Ao perceber a raiva se manifestando em mim, eu me comprometo a não falar. Praticarei a respiração e o andar consciente para reconhecer minha raiva e olhar com profundidade em suas raízes – especialmente quando se tratar de percepções errôneas ou falta de compreensão do meu próprio sofrimento e o das outras pessoas. Irei falar e ouvir de modo a aliviar o sofrimento tanto em mim mesmo quanto nos outros e a resolver situações difíceis. Eu me comprometo a não espalhar notícias as quais não tenha certeza e a não usar palavras que possam causar divisão ou discórdia. Praticarei a Diligência Correta como um meio de nutrir minha capacidade de compreensão, amor, alegria e inclusividade e também para transformar gradualmente a raiva, a violência e o medo presentes em minha consciência.


Nutrição e Cura
Ciente do sofrimento causado pelo consumo inconsequente, eu me comprometo a cultivar a boa saúde tanto física quanto mental em mim mesmo, em minha família e na sociedade como um todo através da prática de comer, beber e consumir de maneira consciente. Praticarei a observação profunda no que diz respeito ao meu consumo dos Quatro Tipos de Nutrientes, a saber: comida, impressões sensoriais, vontade e consciência. Eu me comprometo a não beber álcool, tomar drogas, praticar jogos de azar ou usar produtos com conteúdo tóxico, como alguns sites de internet, jogos eletrônicos, programas de TV, filmes, revistas, livros e a não me engajar em conversas com conteúdo similar. Retornarei ao momento presente como um modo de estar em contato com os elementos refrescantes, saudáveis e revigorantes em mim mesmo e à minha volta – e não me deixarei arrastar ao passado pelo arrependimento e pela tristeza ou permiterei que a ansiedade, o medo e a avidez me empurrem para longe. Eu me comprometo a não tentar preencher minha solidão, ansiedade ou qualquer outro sofrimento, através do consumismo. Contemplarei tanto o Interser quanto o ato de consumir de um modo que preserve a paz, a alegria e o bem-estar no meu corpo, na minha consciência e no corpo e na consciência coletivos da minha família, da sociedade e do nosso Planeta.

sábado, 16 de maio de 2009

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O que é Plum Village?



Plum Village é o centro internacional da Ordem fundada por Thich Nhat Hanh. É um monastério composto de vários monastérios menores que ficam localizados uns próximos dos outros...Ao todo temos Upper Hamlet/Aldeia de Cima, Son Ha/Templo do Sopé da Montanha, Lower Hamlet/Aldeia de Baixo, New Hamlet/Aldeia Nova, West Hamlet/Aldeia Oeste, Middle Hamlet/Aldeia do Meio. Os únicos que são habitados por monásticos o tempo todo são: Upper Hamlet e Son Ha (por monges) e Lower Hamlet e New Hamlet (por monjas), os outros são ocupados ocasionalmente...Cada monastério é um Centro de Prática e funciona de maneira coordenada com os outros e com atividades semanais conjuntas.

Plum Village, portanto é um complexo formados por Centros de Práticas especializados em organizar retiros para monges, monjas, leigos e leigas. Os retiros acontecem durante todo o ano, com exceção de uns poucos dias - que são os dias de folga para os monásticos...
Os dois períodos do ano mais concorridos são o Retiro de Inverno (4 meses) e o Retiro de Verão (1 mês), sendo que este último é o maior em número de pessoas, consegue aglutinar milhares de pessoas de vários países do mundo, principalmente jovens.

Plum Village também é um centro de difusão do que se convencionou chamar de "budismo socialmente engajado", ou seja, do budismo empenhado na transformação do mundo através da transformação das pessoas e estimulando uma nova cultura de relacionamente entre homens, mulheres e natureza, baseada na solidariedade e na compreensão de que tudo contém o todo (o que Thay chama de interser, interbeing) o que nos torna interconectados e interdependentes com todas as coisas e seres vivos.

Em geral as atividades são dadas em inglês, francês ou vietnamita, sempre dependendo de disponibilidade de tradução. Mas a língua franca é o inglês. Em determinadas oportunidades é possível haver traduções simultâneas para o alemão, holandês, italiano e para o espanhol.

As atividades são variadas e mesmo as atividades mais rotineiras, como a meditaçao sentada e andando, variam de acordo com o dia. Em alguns dias se acorda de madrugada, às 5:00, outros às 6:00 outros e outros dias, como o chamado "lazy day", dia da preguiça em tradução livre, pode-se acordar à hora que quiser e não há nada estipulado, nem as refeições...

Normalmente as refeições (vegetarianas) são feitas com um período de silêncio e depois das refeições tem o trabalho comunitário...de manhã e à tarde...
Algo que chama a atenção de quem vai pela primeira vez é o fato de que sempre que algum sino toca (e eles tocam muito) todos devem parar o que estão fazendo, por alguns segundos, e retornar sua atenção à respiração.
Outras atividades rotineiras são várias dinâmicas de grupo com focos diferenciados: compartilhar de alegrias, resolução de conflitos ou de sentimentos não-saudáveis entre as pessoas, festinhas silenciosas (ou quase), cerimônias do chá, encontros na floresta ou nas salas de meditação ou nos quartos - todas muito leves e sem muita formalidade (a única formalidade é o uso do sino para regular o início, desenvolvimento e o fim das atividades.

Outro detalhe interessante é que Plum Village não é um lugar de estudo, mas de prática. Para aqueles que quiserem estudar sutras e se tornarem versados na literatura budista, Plum Village não é o melhor local. As práticas estão firmemente ancoradas no que há de melhor e profundo da psicologia budista e @s visitantes podem entrar em contato com ela através das diversas atividades de meditação (sentada, andando, trabalhando, comendo, tomando chá, contemplando a natureza etc) e das atividades de partilha de experiências, de dores, de alegrias, amizade e solidariedade - tudo voltado para esse retorno ao nosso eu ( ou ao nosso não-eu) que nos torna capazes de nos transformarmos e transformar as coisas à nossa volta.



Samuel Cavalcante

quinta-feira, 19 de março de 2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

sexta-feira, 6 de março de 2009

Meditação da Comida

Este pedaço de pão é um embaixador do cosmos inteiro.

Comer uma refeição juntos é uma prática meditativa. Devemos tentar oferecer nossa presença para cada refeição. Podemos começar a praticar já no momento em que nos servimos, refletindo sobre quantos elementos, como a chuva, o sol, a terra, o ar e amor se reuniram para constituir essa refeição. De fato, através da comida podemos ver que o universo inteiro está sustentando nossa existência.

Ficamos conscientes de toda a comunidade enquanto nos servimos e devemos pegar apenas aquela quantidade que é necessaŕia para nós. Antes de comer, convidamos o sino a soar por três vezes, desfrutamos da nossa respiração e praticamos as seguintes cinco contemplações:

- Esta comida é uma dádiva da terra, do céu, de numerosos seres vivos e de muito trabalho duro;
- Que possamos comer com plena consciência e gratidão para que mereçamos receber o alimento em nosso corpo;
- Que possamos reconhecer e transformar nos formações mentais não-saudáveis, especialmente nossa avidez, e aprendamos a comer com moderação;
- Que possamos manter viva a nossa solidariedade comendo de modo a reduzir o sofrimento dos seres vivos, proteger nosso planeta e impedir o processo de aquecimento global;
- Aceitamos esta comida como uma maneira de nutrir nossa fraternidade, fortalecer nossa comunidade (Sangha) e alimentar o nosso ideal de servir a todos os seres.

Devemos comer com calma, mastigando bem cada porção, no mínimo 30 vezes, até que a comida se liqüefaça. Fazer isso ajuda o nosso processo digestivo. Vamos aproveitar cada pedaço de nossa comida e a presença de nossos irmãos e irmãs de dharma à nossa volta. Vamos nos estabelecer no momento presente, comendo de tal forma que a solidez, a alegria e a paz sejam possíveis durante a refeição.

Ao comermos em silêncio, a comida se torna real com a nossa plena consciência e ficamos totalmente atentos ao processo de nutrição acontecendo. Para aprofundar nossa prática de comer com plena consciência e alimentar a atmosfera de paz, permanecemos sentados durante o período de silêncio. Depois de vinte minutos de silêncio, convidamos o sino a tocar novamente duas vezes. Nesse momento, podemos conversar algo saudável como nossos amigos e começar a nos levantar da mesa.

Ao finalizar a refeição, dedicamos alguns momentos para tomarmos consciência de que acabamos de comer, de que o nosso prato está vazio e de que nossa fome está saciada. Assim, enchemo-nos de gratidão ao percebermos como somos afortunados por termos uma refeição para comer, sentimento que nos apóia no nosso caminho de amor e sabedoria.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Como praticar os Três Toques da Terra

Como praticar os Três Toques da Terra:

Em pé respire conscientemente três vezes. Leia o Primeiro Toque da Terra - uma boa alternativa é ter o texto gravado, assim é mais fácil se concentrar nas palavras e ter as mãos livres e relaxadas. Depois de ouvir ou ler o texto junte as palmas da mãos, eleve-as juntas para perto da testa e depois abaixe-as lentamente e sempre juntas, passando-as próximo da boca e do coração (simbolizando as ações da mente, do corpo e da fala) e, sem se desolocar, ajoelhe-se, ponha a sola dos pés para cima, incline-se (apoiando-se nas mãos) até que a testa encoste no chão (se não conseguir não tem problema). Depois vire as palmas das mãos para cima, ao lado da cabeça, relaxe e pratique mais três respirações conscientes, entregando todo o peso de seu corpo e de sua mente, todas as atribulações e preocupações à nossa Mãe Terra.

Após as terceira respirações ponha-se de pé novamente (e sem se deslocar) e prepare-se para o próximo Toque.

Esta é uma prática bastante utilizada pela tradição do ven. Thich Nhat Hanh como meio de nos tornarmos mais conscientes da nossa herança, dos nossos ancestrais e da nossa conexão com todas as formas de vida.

Ao tocar a Terra nos beneficiamos da sua solidez, energia e estabilidade e por sua vez entregamos a seus cuidados todas as nossas preocupações, raiva, atribulações, ansiedades e medo.

domingo, 30 de novembro de 2008

Colegiado Buddhista Brasileiro - Comunicado

Colegiado Buddhista Brasileiro

Comunicado 001/2008 - Sobre Dana e a Orientação de Dharma


Estimados praticantes, estudiosos e simpatizantes buddhistas,


O Colegiado Buddhista Brasileiro (CBB), entidade voltada para o
favorecimento do diálogo entre as tradições buddhistas e o mais
correto e saudável exercício de entendimento sobre os fundamentos do
Dharma no Brasil, gostaria de apresentar a todos os interessados sua
posição acerca de questões relevantes que têm sido ultimamente
levantadas por diferentes pessoas ao CBB sobre a natureza do
exercício de Dana e a real condição de autoridade na orientação do
Dharma por diferentes monásticos ou estudiosos seculares.

Este comunicado, no entendimento da diretoria fundadora do Colegiado,
se faz necessário neste momento devido ao constante fluxo de dúvidas
apresentadas diretamente ao CBB referentes a episódios associados ao
exercício de eventos, cursos ou práticas buddhistas, onde a própria
competência de conhecimento ou experiência na orientação buddhista
por parte dos organizadores e o modo de solicitação dos recursos de
contribuição para tais eventos são questionados.

O CBB apresenta suas considerações sobre o assunto sem, no entanto,
pretender manifestar-se de forma legisladora ou julgadora em relação
à liberdade de atuação das escolas e centros buddhistas tradicionais,
ou de estudiosos e pesquisadores não-buddhistas que pretendam se
posicionar sobre o tema buddhista de forma acadêmica ou histórica.

Nosso objetivo, muito mais simples, é apenas esclarecer aos
simpatizantes e praticantes pouco experimentados sobre os fundamentos
do exercício ético e moral no buddhismo, deixando a cada um a
responsabilidade de ponderar, analisar e atuar da forma mais
consciente e amadurecida possível no momento em que irão decidir
sobre sua participação em eventos e práticas, ou filiar-se a grupos e
espaços de Dharma.

Para tal, o Colegiado Buddhista Brasileiro apresenta as seguintes
argumentações:

I. Sobre o exercício de Dana

1. O exercício de Dana (Generosidade, Doação, Apoio), na tradição
buddhista, representa essencialmente a ação consciente e atenta de
ajuda e contribuição (seja material, de tempo ou outras) para que o
Dharma possa ser estudado e exercido sob condições úteis e
abrangentes a todos. Em Dana temos não somente a ação de ajuda e
proteção (física, psicológica ou social) a pessoas em necessidade,
mas também a ação justa e honesta para que o Dharma seja divulgado
sob as bases tradicionais da ética buddhista, na forma e apoio às
instituições e seu corpo monástico ou dos centros e espaços de
prática.

2. É preciso fazer distinção entre monges solicitarem contribuição e
centros cobrarem por atividades. Monges vivem de doações, são
sustentados pelo mosteiro, e não deveriam pedir dinheiro em troca de
ensinamentos. Centros atuam de forma diferente; sendo espaços sem
vínculo formal com as regras monásticas (e muitas vezes sustentados
por praticantes seculares), eles dependem de uma organização
financeira onde as contribuições servem para favorecer as condições
materiais dos professores e do próprio ambiente de estudos, os quais
ali estão para facilitar o ensino do Dharma.

3. Assim, é igualmente necessário fazer a distinção correta entre um
centro solicitar contribuição para realizar retiros, cursos etc (algo
perfeitamente compreensível em relação às necessidades de despesas),
e monásticos que porventura venham a pedir dinheiro. Um monge adota
um estilo de vida e pode alertar as pessoas sobre o Dana, mas as
pessoas não oferecem Dana para o monge ensinar, e sim para permitir
que o monástico possa se manter na sua condição de monge ou monja. O
dinheiro, portanto, não é dado ao monge pessoalmente, e sim à
instituição buddhista. O Buddhismo não faz barganhas com o Dharma; as
organizações buddhistas não pedem dinheiro em troca da promessa de
sabedoria, cura, iluminação ou qualquer tipo de prêmio espiritual. O
Dana é solicitado (e deve ser conscientemente oferecido) para que as
condições materiais e humanas das instituições possam se manter, e
assim a prática possa sempre ser valorizada.

4. Portanto, os praticantes e estudantes precisam estar atentos ao
fato de que as solicitações de contribuição não podem ser feitas de
forma abusiva ou voltadas para lucro pessoal de monges ou monjas. As
solicitações de contribuição feitas pelos centros devem ser justas e
adequadas às suas necessidades, e jamais podem se constituir
excessivas. Os coordenadores dos centros de Dharma, sendo pessoas
honestamente comprometidas com a prática ética buddhista, sempre
estarão à disposição para facilitar os modos de contribuição dos
praticantes, considerando-se as possibilidades e limites financeiros
de todos.

5. Os praticantes e interessados precisam compreender que são, eles
mesmos, livres para contribuir ou não. Ninguém pode exigir de outrem
participação em eventos buddhistas ou centros de prática; a tradição
buddhista não pratica pressão psicológica, material ou espiritual
para manter pessoas entre seu corpo de estudantes ou praticantes. Ao
mesmo tempo, nenhuma pessoa deveria se subordinar a qualquer espaço
buddhista na pretensão de que, assim agindo, estarão garantindo algum
tipo de retorno espiritual ou benefício místico. A prática do Dharma
ocorre de forma livre, consciente e madura, ou então jamais será
possível.

II. Sobre a correta orientação de Dharma no Brasil

6. Em relação à competência e autoridade daqueles que se apresentam
como professores ou orientadores, é preciso esclarecer que a tradição
buddhista brasileira possui uma profunda capacidade de formação de
monásticos ou leigos dignos de serem respeitados como orientadores
sérios e competentes. Entretanto, é preciso que as pessoas saibam
reconhecer tal competência através da análise e observação atenta das
ações destes professores de Dharma. Estes sempre serão pessoas
coerentes em suas ações éticas e morais. Embora muitas vezes firmes e
exigentes, também saberão ser pacientes e compreensíveis, sem nunca
agir de forma irresponsável e arrogante.

7. O ensino correto buddhista se dá principalmente através do
exemplo, e da dedicação dos seus professores com o próprio
treinamento em Plena Consciência, base dos ensinos de Shakyamuni
Buddha. Neste sentido, pretensos professores de Dharma jamais poderão
agir de forma autoritária, agressiva, preconceituosa ou abusiva em
relação a seus alunos e praticantes. Por outro lado, cabe aos
praticantes reconhecer e respeitar a experiência e sabedoria dos
orientadores – monásticos ou leigos – quando estas virtudes forem
evidentes nas palavras e atos destas pessoas, agindo desta forma com
respeito e atenção aos seus conselhos e posição.

8. Ninguém no âmbito da orientação buddhista deve se
autodenominar "Mestre" ou assim deve ser chamado apenas por envergar
manto monástico ou, sendo leigo, apresentar-se como alguém
entronizado em sabedoria mística ou semelhante. O título de Mestre se
constitui de grande significado, e somente é dado àqueles que
representam no buddhismo o mais digno exemplo de amadurecimento na
prática contemplativa e sabedoria no exercício do Dharma. Os
praticantes precisam ficar atentos a pessoas que vaidosamente se
autodenominam mestres ou líderes místicos, ou que pretendam criar em
torno de si grupos de discípulos sem realmente demonstrar os mais
básicos fundamentos em coerência e comportamento. Professores sérios
tem linhagem clara e um mestre de escola tradicional que os
autorizou; a citação de linhas múltiplas e extensos currículos de
diferentes correntes místicas é um quesito a ser olhado com extremo
cuidado, para não dizer com precaução.


O CBB, ao apresentar tais ponderações, espera ter contribuído para
conscientizar todos os simpatizantes e praticantes, facilitando sua
reflexão atenta no momento em que entrarem em contato com
organizações buddhistas ou monásticos pertencentes às tradições
reconhecidas.

O Colegiado se mantêm aberto a dar mais esclarecimentos a todos os
interessados, através de seu e-mail oficial em: cbb@bodhimandala.com


Em nome do Dharma,

Assina o Sr. Presidente do Colegiado Buddhista Brasileiro,
Prof. Shaku Hondaku (Maurício Ghigonetto)


Assinam os membros da Diretoria Fundadora do Colegiado Buddhista
Brasileiro,
Rev. Shaku Haku-Shin (Wagner Bronzeri)
Monge Meihô Genshô (Petrúcio Chalegre)
Prof. Dhanapala (Ricardo Sasaki)
Prof. Tam Huyen Van (Claudio Miklos)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Cuidando do Ambientalista

Cuidando do Ambientalista

Traduzido do livro "The World We Have", de Thich Nhat Hanh,
por Samuel Cavalcante


Um estudante me perguntou “Existem tantas problemas urgentes, o que devemos fazer?” e eu disse “Escolha uma coisa, faça-a muito profundamente e com muito cuidado, então você estará fazendo tudo ao mesmo tempo”.

Muitas pessoas estão cientes do sofrimento da Terra e seus corações estão cheios de solidariedade. Eles sabem o que é necessário fazer e se engajam em atividades políticas, sociais e ambientais para mudar as coisas. Mas, depois de um período de intenso envolvimento, frequentemente muitos se sentem desencorajados por que lhes falta a força necessária para sustentar uma vida de ação. O intelecto sozinho não é suficiente para guiar uma vida de ação solidária. Para efetivamente influenciar o futuro de nosso mundo, precisamos de mais. A verdadeira força não pode ser encontrada no poder, dinheiro ou nas armas, mas em uma profunda paz interior. Quando temos insight suficiente, não nos deixamos apanhar mais pelas muitas situações difíceis. Podemos sair dessas situações muito facilmente. Quando mudamos as nossas vidas cotidianas – a maneira que pensamos, falamos e agimos – mudamos também o mundo. É importante para nós viver de modo a que, em cada momento, estejamos profundamente nele com nossa verdadeira presença, sempre vivos e alimentando o insight do interser. Sem paz e felicidade, não poderemos tomar conta de nós, nem das outras espécies e nem do planeta. Por isso a melhor maneira de cuidar do meio ambiente é cuidar do ambientalista.

Existem muitos ensinamentos budistas que podem nos ajudar a compreender nossa interconectividade com a Mãe Terra. Um dos mais importantes é o Sutra do Diamante, escrito sob a forma de um diálogo entre o Buda e um de seus mais importantes discípulos, Subhuti. O Sutra do Diamante é o texto mais antigo relativo á ecologia profunda. Começa com uma pergunta de Subhuti: “Se filhas e filhos de boas famílias quiserem gerar a mente mais desperta e realizada, em que eles devem se basear e o que eles deveriam fazer para dominar seus pensamentos?”.

Isto é o mesmo que perguntar “Se eu quiser usar todo o meu ser para proteger a vida, que métodos e princípios eu devo usar?”.

O Buda respondeu “Devemos fazer o melhor possível para ajudar a cada ser vivo a cruzar o oceano do sofrimento. Mas, depois de todos terem chegado às margens da libertação, nenhum ser em absoluto foi carregado até o outro lado. Se você se deixar apanhar pelas idéias de eu, pessoa, ser viv ou tempo de vida, você não será um autêntico bodhisattva”.

Eu, pessoa, ser vivo e tempo de vida são as quatro noções que nos impedem de ver a realidade.

A vida é uma unidade, não precisamos cortá-la em pedaços e chamar este pedaço de “eu”. O que chamamos de eu é feito de elementos não-eu. Quando olhamos uma flor, por exemplo, podemos pensar que ela é diferente das coisas que são “não-flor”. Mas se olharmos com mais profundidade, poderemos ver que tudo no cosmos está na flor. Sem algum dos elementos não-flor – sol, nuvens, terra, jardineiro, minerais, rios e consciência – uma flor não pode existir. É por isto que o Buda ensina que o eu não existe. Temos que descartar todas distinções entre eu e não-eu. Como é que alguém pode proteger o meio-ambiente sem este insight?

A segunda noção do Sutra do Diamante nos recomenda jogar fora é a noção de pessoa, de ser humano. Isto também não é difícil. Ao olharmos para o ser humano, poderemos ver os ancestrais humanos, os ancestrais animais, os ancestrais vegetais e os ancestrais minerais. Poderemos ver que o humano é feito de elementos não-humanos. Usualmente, costumamos discriminar entre humanos e não-humanos, pensando que somos mais importantes que as outras espécies. Mas já que somos feitos de elementos não-humanos, para protegermos a nós mesmos temos que proteger todos os elementos não-humanos. Não existe outro jeito. Se você pensar que Deus criou os seres humanos à sua imagem e semelhança e que Ele criou todos os outros seres para uso deles, então você já está discriminando e tornando as pessoas mais importantes que os outros seres. Ao vermos que os seres humanos são desprovidos de eu, vemos também que ao cuidar do meio-ambiente (dos elementos não-humanos) cuidamos da humanidade. Temos que respeitar e proteger as outras espécies para podermos ter uma chance. A melhor maneira de tomar conta dos seres humanos de modo a que eles fiquem verdadeiramente saudáveis e felizes é tomar conta dos outros seres e do meio-ambiente.

Conheço ecologistas que não estão felizes com suas famílias. Eles trabalham duro para melhorar o meio-ambiente parcialmente por que querem escapar de sua vidas familiares infelizes. Mas se alguém não é feliz consigo mesmo, como poderá ajudar o meio-ambiente? Proteger os elementos não-humanos é proteger os seres humanos e proteger os seres humanos é proteger os elementos não-humanos.

A terceira noção que devemos quebrar é a noção de ser vivo. Pensamos que os seres vivos são diferentes dos objetos inanimados, mas , de acordo com o princípio do interser, seres vivos são compostos de seres não-vivos. Quando olhamos para dentro de nós, podemos ver os minerais e outros seres não-vivos. Por que discriminar contra aquilo a que chamamos de inanimado? Para proteger os seres vivos temos que proteger as pedras, o solo, os oceanos. Antes da bomba ser jogada sbre Hiroshima, existiam muitas bancos de pedra nos parques. Quando os japoneses estavam reconstruindo a cidade eles tiveram a sensação de que aquelas pedras estavam mortas. Então eles as levaram embora e enterraram-nas e trocaram-nas por pedras vivas. Não pense que essas coisas não são vivas. Os átomos estão sempre se movimentando. Elétrons se movem quase à velocidade da luz. De acordo com o ensinamento do budismo, átomos e consciência são eles mesmos a própria consciência. É por isso que essa discriminação entre seres vivos e não-vivos deve ser descartada.

A última noção é a de tempo de vida. Costumamos pensar que nossa vida começa num determinado ponto do tempo e que antes deste momento nossa ela não existia. Esta distinção entre vida e não-vida não é correta. A vida é feita de morte e a morte é feita de vida. Temos que aceitar a morte; ela torna a vida possível. As células do nosso corpo estão morrendo todos os dias, mas nunca pensamos em organizar um funeral para elas. A morte de uma célula permite o nascimento de outra. Vida e morte são dois aspectos da mesma realidade. Precisamos aprender a morrer em paz para que outros possam viver. Esta profunda meditação produz o não-medo, a não-raiva, o não-desespero, as forças que precisamos para nosso trabalho. Nau ausência do medo, mesmo que o problema seja grande não perderemos o controle. Saberemos dar pequenos e firmes passos.

Se aqueles que trabalham para proteger o meio-ambiente olharem profundamente para essas quatro noções, eles saberão como continuar e como agir. Eles terão energia suficiente e insight para ser um bodhisattva no caminho da ação.

Existe muito sofrimento no mundo e é importante que nós estejamos em contato com esse sofrimento para sermos solidários. Mas para sermos fortes, também precisamos abraçar os elementos positivos. Quando vemos um grupo de pessoas vivendo de maneira consciente, sorrindo e se comportando com amor, ganhamos confiança no futuro. Quando praticamos a respiraçao, o descanso, o caminhar e o trabalho conscientes, nós mesmos nos tornamos um elemento positivo na sociedade e inspiraremos confiança em todos que estão à nossa volta. Esta é a maneira de evitar que o desespero tome conta de nós. Também é uma maneira de ajudar as jovens gerações a não perderem a esperança. É muito importante que possamos viver o dia-a-dia de nossas vidas de tal modo a demonstrar que o futuro é possível.

Para produzir uma mudança real na situação ecológica global, nossos esforços devem ser harmoniosos e coletivos, baseados no amor e no respeito por nós mesmos e pelos outros, e pelos nossos ancestrais e futuras gerações. Se a raiva causada pela injustiça é a fonte de nossa energia, iremos provocar mais danos, coisas que iremos nos arrepender depois. De acordo com o budismo, a solidariedade (Karuna, NT) é a única fonte de energia que é útil e segura. Com a solidariedade, nossa energia nasce do insight; não é uma energia cega. Somente sentir compaixão, não é suficiente, temos que aprender a expressá-la. É por isso que o amor tem andar sempre junto com a compreensão. Compreensão e insight nos mostram como agir.

O termo “budismo engajado” foi criado para restaurar o verdadeiro significado do budismo. Budismo engajado é simplesmente o budismo aplicado em nosso dia-a-dia. Se não é engajado, não pode ser chamado budismo. As práticas budistas não devem ser feitas somente nos monastérios, centros de meditação e institutos budistas, mas em qualquer situação na qual nos encontremos. Budismo engajado significa atividades do dia-a-dia combinadas com a prática da plena consciência.

Existe uma real necessidade de levarmos o budismo para a sociedade, especialmente quando você se encontra em uma situação de guerra ou injustiça social. Durante a guerra do vietnã se tornou muito claro que deveríamos praticar o budismo engajado, para que a solidariedade e a compreensão pudessem se tornar parte da vida do povo. Quando sua vila é bombardeada e destruída e quando seus vizinhos se tornam refugiados, você não pode simplesmente continuar a praticar a meditação sentada na sala de meditação. Mesmo que o templo não tenha sido bombardeado e a sua sala de meditação esteja intacta, ainda assim você poderá ouvir os gritos das crianças feridase poderá ver a dor dos adultos que perderam suas casas. Como é que você pode continuar a se sentar lá de manhã cedo, à tarde e à noite? É por isso que você tem que encontrar um jeito de levar a sua prática para a vida cotidiana e sair para ajudar as outras pessoas. Você pode fazer tudo o que você puder para aliviar o sofrimento. Mesmo que você saiba que se abandonar a prática de sentar-se e caminhar com plena consciência, você não será capaz de retomá-la por um longo tempo.

É importante que ao mesmo tempo em que nos tornemos voluntários ou tomemos parte no ativismo ambiental, encontremos uma maneira de continuar nossa prática de respirar, caminhar e falar com plena consciência. Não nos deixemos cair na raiva ou no desespero ao refletir sobre o estado atual do mundo, ou quando confrontados com aqueles que se engajam no desperdício dos recursos naturais. Pelo contrário, podemos fazer de nossa vida um exemplo de vida simples. A escuta profunda e a fala amorosa podem nos ajudar a apoiar a transformação dos indivíduos e da sociedade e nutrir o despertar coletivo que irá salvar nosso planeta e nossa civilização.

Se quisermos ter sucesso na prática da fala amorosa, precisamos saber como lidar com nossas emoções quando elas nos chegam à superfície. Toda vez que a raiva, a frustração ou a tristeza sugirem, temos que ter a capacidade de lidar com elas. Isso não significa lutar com elas, suprimí-las ou expulsá-las. Nossa raiva e nosso desapontamento são parte de nós, não devemos fazer isso. Quando oprimimos a nós mesmos, cometemos um ato de violência contra nós mesmos. Se soubermos como retornar à respiração consciente, criaremos um ambiente de verdadeira presença e geraremos a energia do contato. Com essa energia reconheceremos e abraçaremos nossa tristeza, raiva ou desapontamento com bondade e amor.

Trabalho social e de ajuda realizados sem a prática da plena consciência não podem ser descritos como budismo engajado. Todos os que fazem esse trabalho correm o risco de se perder no desespero, na raiva ou na frustração. Se você estiver realmente praticando o budismo engajado, então você saberá preservar-se a si próprio como praticante, ao mesmo tempo em que faz coisas para ajudar as pessoas no mundo. Budismo verdadeiramente engajado é, antes de tudo, a prática da plena consciência em tudo o que fizermos.

A prática da plena consciência nos ajuda a ficarmos vigilantes sobre o que está acontecendo. Uma vez sejamos capazes de olhar profundamente no sofrimento e reconhecer sua raízes, seremos motivados a agir e a praticar. A energia que precisamos não é o medo ou a raiva ou mas a energia da compreensão e da solidariedade. Não há necessidade de culpar ou condenar. Aqueles que estão destruindo a si mesmos, a sociedade e o planeta não o fazem intencionalmente. A dor e a solidão deles é avassaladora e eles querem escapar. Eles precisam de ajuda e não de punição. Somente a compreensão e a solidariedade no nível coletivo pode nos libertar.

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sábado, 22 de novembro de 2008

Os Sinos da Plena Consciência

Os Sinos da Plena Consciência

(Capítulo do livro de Thich Nhat Hanh "The World We Have",
tradução de Samuel Cavalcante)


Os sinos da plena consciência estão soando. Em toda a Terra, estamos experimentando inundações, secas e grandes incêndios naturais. O gelo está derretendo no Ártico e os furacões e ondas de calor estão matando milhares. As florestas estão desaparacendo rapidamente, os desertos estão se expandindo, espécies estão se extinguindo todos os dias e, mesmo assim, continuamos a consumir ignorando esses sinos que estão soando.

Todos nós sabemos que o nosso lindo planeta verde está em perigo. Nossa maneira de caminhar na Terra exerce uma grande influência nos animais e nas plantas. Mesmo assim, agimos como se nossas vidas cotidianas não tivessem nada a ver com as condições do mundo. Estamos como sonâmbulos, sem saber o que estamos fazendo ou para onde estamos indo. Se podemos acordar ou não vai depender de podermos caminhar com plena consciência sobre nossa Mãe Terra. O futuro de toda a vida, incluindo a nossa própria depende dos nossos passos vigilantes. Temos que ouvir os sinos da plena consciência que estão soando por toda a terra. Temos que começar a aprender a viver de um modo que o futuro seja possível para nossos filhos e netos.

Tenho sentado com o Buda por um longo tempo e o tenho consultado sobre o aquecimento global, e o seu ensinamento é bastante claro. Se continuarmos a viver como temos vivido até agora, consumindo sem pensar no futuro, destruindo nossas florestas e emitindo quantidades perigosas de dióxido de carbono, então mudanças climáticas devastadoras serão inevitáveis. Muito do nosso ecossistema será destruido. O nível do mar se elevará e cidades costeiras serão inundadas, forçando a saída de milhões de refugiados, criando guerras e epidemias de doenças doenças infecciosas.

Precisamos de um tipo de despertar coletivo. Entre nós, existem homens e mulheres que estão atentos, mas isso não é o suficiente; a maioria das pessoas está dormindo. Construímos um sistema que não podemos controlar. Ele se impôs a nós e nos tornamos seus escravos e vítimas. Para a maioria de nós que deseja ter uma casa, um carro, uma geladeira, uma televisão etc, precisamos sacrificar, em troca, nosso tempo e nossas vidas. Vivemos sob constante pressão do tempo. Antigamente, poderiamos dedicar três horas para tomar uma xícara de chá, desfrutando da companhia dos amigos em uma atmosfera serena e espiritual. Podíamos organizar festas para celebrar o desabrochar de uma orquídea em nosso jardim. Mas hoje não podemos mais fazer tais coisas. Dizemos que tempo é dinheiro. Criamos uma sociedade na qual os ricos se tornam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e na qual ficamos tão emaranhados em nossos próprios problemas imediatos que não temos mais condições de estar atentos ao que está acontecendo com o resto da família humana em nosso planeta terra. Na minha mente eu vejo um grupo de galinhas numa gaiola disputando um punhado de grãos, sem se darem conta de que em poucas horas irão todas ser mortas.

Os povos da China, Índia, Vietnã e outros países em desenvolvimento ainda estão sonhando o “sonho americano”, como se esse sonho fosse o objetivo absoluto da humanidade – todo mundo tem que ter um carro, uma conta bancária, um celular, uma televisão, só para si. Em vinte e cinco anos a população da China será de 1,5 bilhões de pessoas e se cada uma quiser dirigir seu próprio carro, ela precisará de 99 milhões de barris de petróleo por dia. Mas o mudo só produz 84 milhões de barris por dia. Então, o sonho americano não é possível para os povos da China, Índia ou Vietnã. O sonho americano não é mais possível nem mesmo para os próprios americanos. Não podemos continuar a viver dessa maneira. Não é uma economia sustentável.

Temos que ter um outro sonho, o sonho da fraternidade, da bondade amorosa e da solidariedade. Este sonho é possível aqui e agora. Temos o Dharma, temos os meios e temos sabedoria suficiente para sermos capazes de vivermos esse sonho. A plena consciência é o coração do despertar, da iluminação. Praticamos a respiração consciente para sermos capazes de estar aqui no momento presente de modo a reconhecer o que está acontecendo em nós e em torno de nós. Se o que está acontecendo dentro de nós é desespero, temos que reconhecê-lo e agir imediatamente. Talvez a gente não queira se confrontar com essa formação mental, mas é uma realidade, e temos que reconhecê-la para podermos transformá-la.

Não precisamos afundar no desespero por causa do aquecimento global; podemos agir. Só assinarmos uma petição, um abaixo-assinado, não vai ajudar muito. Ação urgente tem que ser feita nos níveis individual e coletivo. Todos nós temos um grande desejo de sermos capazes de viver em paz e em uma sociedade ambientalmente sustentável. O que a maioria de nós ainda não tem são maneiras concretas de fazer do nosso compromisso de viver de forma sustentável uma realidade de nossa vida no dia-a-dia. Não nos organizamos para tal. Não podemos apenas culpar os governos e as corporações da indústria química que poluem nossa água de beber, pela violência em nossos bairros, pela guerra que destrói tantas vidas. Já é tempo de cada um de nós acordar e tomar uma atitude em nossas próprias vidas.

Nós testemunhamos a violência, a corrupção e a destruição à nossa volta. Todos sabemos que as leis que temos não são fortes o bastante para controlar a superstição, a crueldade e os abusos de poder que vemos diariamente. Somente a fé e a determinação podem impedir que caiamos em um profundo desespero.

O budismo é a mais forte forma de humanismo que temos. Ele nos ajuda a aprender a viver com responsabilidade, solidariedade e amor. Cada praticante budista deveria ser um protetor do meio ambiente. Temos o poder de decidir o destino de nosso planeta. Se acordamos para nossa situação, haverá uma mudança na nossa consciência coletiva. Temos que fazer algo para despertar as pessoas. Temos que ajudar o Buda a despertar as pessoas que estão vivendo em um sonho.

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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Natureza e Não-Violência

Natureza e Não-Violência


(Capítulo do livro de Thich Nhat Hanh "The World We Have",
tradução de Samuel Cavalcante)


Suponhamos que a gente pegue uma semente de milho e a plantemos em um solo úmido. Uma semana depois ou mais, a semente irá germinar. Depois de três dias, podemos voltar e perguntar ao brotinho “querida planta, você se lembra do tempo em que você ainda era uma semente?”. O brotinho pode ter esquecido, mas como ficamos observando, sabemos que o brotinho de milho realmente veio do grão.

Quando olhamos para a planta não vemos mais a semente e, assim, pensamos que a semente morreu. Mas ela não morreu, ela se tornou a planta. Se você for capaz de ver a semente de milho no pé de milho, você tem um tipo de sabedoria que o Buda chamou de sabedoria da não-dsicriminação. Você não dsicrimina entre a semente e a planta. Você vê que elas intersão entre si, que elas são a mesma coisa. Você não pode distinguir a semente da planta e nem a planta da semente. Olhando com profundidade uma espiguinha de milho você pode ver a semente de milho lá, ainda viva, mas com uma nova aparência. A planta é a continuação da semente.

A prática da meditação nos ajuda a ver coisas que as outras pessoas não vêem. Olhamos profundamente e podemos ver que o pai e o filho , pai e filha, mãe e filho, mãe e filha, grão de milho e espiga de milho têm uma relação muito próxima. É por isso que temos que praticar pra despertamos para o fato, para a verdade de que intersomos. O sofrimento de um é o sofrimento de outro. Quando muçulmanos e cristãos, hindus e muçulmanos, israelenses e palestinos, perceberem que são irmãos e irmãs uns pros outros, que o sofrimento de um lado é o sofrimento do outro lado, então essas guerras logo acabarão. Quando virmos que nós e todos os seres vivos somos feitos da mesma natureza, como é que poderão existir ainda divisões entre nós? Como poderá ainda existir essa falta de harmonia? Quando percebermos o interser da nossa natureza, pararemos de culpar, explorar e matar, pois saberemos que todos intersomos. Este é o grande despertar que devemos cultivar para que a Terra seja salva.

Nós, seres humanos, sempre tivemos a pretensão de sermos únicos, de estarmos fora da natureza. Classificamos os outros animais e seres vivos como “natureza”, como algo aparte de nós, e agimos como se fôssemos mesmo separados. Então nos perguntamos “Como devemos tratar a natureza?”. Ora, nós devíamos tratar a natureza da mesma maneira que devemos tratar a nós mesmos: de maneira não-violenta. Seres humanos e natureza são inseparáveis. Assim como não devemos ferir a nós mesmos, não devemos ferir a natureza e vice-versa.

Causar danos em outros seres humanos, causa danos em nós mesmos. Acumular excessivamente riquezas e possuir porções excessivas dos recursos naturais tiram dos outros seres humanos a chance de viver. Participar em sistemas sociais opressivos e injustos cria um abismo entre ricos e pobres e agrava a situação da injustiça social. Toleramos excessos, injustiças e guerras sem nos atentarmos para o fato de que a espécie humana sofre como uma família. Enquanto o resto da família humana sofre e passa fome, o gozo da falsa segurança e a riqueza são ilusões.

Está claro que o destino de cada indivíduo está inextrincavelmente ligado com o destino de toda a espécie humana. Temos que deixar os outros viver se quisermos viver. A única alternativa para a coexistência é a co-não-existência. Uma civilização na qual temos que matar e explorar outros para viver não é uma civilização sadia. Para criarmos uma civilização sadia, todos temos que ter igual acesso à educação, trabalho, comida, abrigo, cidadania mundial, ar puro e água limpa e a capacidade de circular livremente e escolhermos morar em qualquer lugar do planeta. Sistemas políticos e econômicos que negam a alguém esses direitos ferem toda a família humana. A vigilância acerca do que está se passando com a família humana é necessária para reparar os danos já provocados.

Para gerar a paz no interior da família humana temos que trabalhar por uma coexistência harmônica. Se continuarmos a nos isolar do resto do universo, aprisionando-nos em preocupações estreitas e problemas imediatos, vai parecer que não queremos construir a paz ou sobreviver. A espécie humana é parte da natureza. Precisamos cultivar este insight antes para podermos ter harmonia entre as pessoas. Crueldade e destrutividade destróem a harmonia da família humana e destróem a natureza. Entre as medidas para remediar essa situação está uma legislação que não seja violenta nem para nós nem para a natureza e que nos ajude a evitar nos tornarmos destrutivos e cruéis.

Cada indivíduo e toda a humanidade é parte da natureza e deveria ser capaz de viver em harmonia com ela. A natureza pode ser cruel e destrutiva. Mas nós precisamos tratar a natureza do mesmo jeito que tratamos a nós mesmos como indivíduos e como família humana. Se a gente tentar dominar e oprimir a natureza, ela se rebela. Devemos ser amigos da natureza para lidarmos com alguns de seus aspectos e criarmos harmonia com o nosso meio ambiente. Isto requer uma compreensão inteira da natureza. Tufões, tornados, secas, enchentes, erupções vulcânicas, proliferação de insetos perigosos, tudo isso se consitui em perigo para a vida. Podemos evitar grande parte da destruição que os desastres naturais causam se trabalharmos com o ambiente desde o início, fazendo planos e construindo decisões que levam em conta a natureza do lugar, ao invés de tentar impor o controle completo sobre ela com barragens, desmatamento e outros dispositivos e políticas que, no final, causam só mais prejuízos.

Um exemplo do que acontece quando tentamos controlar completamente a natureza é o nosso uso excessivo de pesticidas, que mata indiscriminadamente muitos insetos e pássaros e perturba o equilíbrio ecológico. Um crescimento econômico que devasta a natureza ao poluir e exaurir recursos não renováveis torna impossível para os seres vivos viver no planeta Terra. Tal crescimento pode parecer temporariamente benéfico para algumas pessoas, mas na realidade, rasga e destrói a natureza como um todo. A harmonia e o equilíbrio entre os indivíduos, sociedade e a natureza está sendo destruída. Os indivíduos estão doentes, a sociedade está doente e a natureza está doente. Precisamos restabelecer o equilíbrio, mas como? Por onde começar o trabalho de cura – pelo indivíduo, pela sociedade ou pela natureza? Precisamos trabalhar nos três domínios. Pessoas de diferentes disciplinas científicas tendem a focar suas áreas particulares. Por exemplo, políticos consideram que um efetivo rearranjamento da sociedade é necessário para a salvação dos humanos e da natureza, e, portanto, enfatizam que todos devem se engajar na luta para mudar o sistema político.

Os monges budistas são como psicoterapeutas, tendemos a ver o problema pela ótica da saúde mental. A meditação objetiva criar harmonia e equilíbrio na vida do indivíduo. A meditação budista lida tanto com o corpo quanto com a mente e usa a respiração como instrumento para acalmar e harmonizar o ser humano como um todo. Como em qualquer prática terapeutica, o paciente é colocado em um ambiente que favoreça a restauração da harmonia. Usualmente os terapeutas passam o tempo observando e pontuando seus pacientes. Portanto, eu conheço alguns que, como os monges, observam a si mesmos primeiro, reconhecendo a necessidade de libertarem-se primeiro a si mesmos dos medos, ansiedade e desespero que existem dentro de cada um de nós. Muitos terapeutas parecem pensar que não têm problemas mentais, mas o monge reconhece em si mesmo sua própria suscetibilidade aos medos e ansiedades, e à doença mental causada pelo caráter desumano de nossos sistemas sociais e econômicos.

Os praticantes budistas acreditam que a natureza interconectada do indivíduo, da sociedade e da ambiente físico se revelará a nós à medida em que nos curamos e assim não seremos mais possuídos pelas ansiedades, medo e pela dispersão da mente. Dentre os três domínios – indivíduo, sociedade, natureza – é o individuo que começa a efetivar a mudança. Mas para isso, o indivíduo tem que estar inteiro. E já que isso requer um ambiente favorável à cura, o indivíudo tem que buscar um estilo de vida livre da destrutividade. Nossos esforços para mudar a nós mesmos e o meio ambiente são ambos necessários, mas um não pode acontecer sem o outro. Sabemos como é difícil mudar o meio ambiente se os indivíduos não estiverem em equilíbrio. Nossa saúde mental tem como premissa que o nosso esforço de recuperar nossa humanidade deve ser nossa prioridade.

Restaurar nossa saúde mental não significa simplesmente nos ajustarmos ao mundo moderno, de rápido crescimento econômico. O mundo está doente e se adaptar a um ambiente doente assim não trará saúde real. Muitas pessoas que precisam de psicoterapia são, na realidade, vítimas da vida moderna que nos separa uns dos outros e do resto da família humana. Uma maneira de ajudar é se mudar para uma área rural, onde se têm a chance de cultivar a terra, plantar e colher o próprio alimento, lavar as roupas no rio e viver de maneira simples, partilhando da mesma vida que milhões de camponeses mundo afora.

Para que a terapia seja efetiva, precisamos de uma mudança do meio ambiente. Atividades políticas são um recurso apenas, mas não o único. Tranquilizarmo-nos através do consumo descontrolado não é a solução. O envenenamento do nosso ecossistema, a explosão de bombas, a violência nos bairros e na sociedade, a pressão do tempo, o barulho, as multidões solitárias – tudo isso foi criado no curso desse nosso crescimento econômico e são fontes de doenças mentais. Ao fazer o que quer que seja para eliminar estas causas, estaremos praticando uma medicina preventiva.

Manter nossa saúde mental como nossa prioridade número um significa também reconhecer nossa responsabilidade pela família humana inteira. Precisamos agir para evitar que os outros fiquem doentes ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria humanidade. Quer sejamos monges , monjas, professores, terapeutas, artistas, carpinteiros ou políticos, somos todos humanos também. Se aplicarmos a nós mesmos o que tentamos ensinar aos outros, tornaremo-nos mentalmente doentes. Se apenas continuarmos com nossas vidas, convivendo com o status quo, gradualmente nos tornaremos vítimas do medo, da ansiedade e do egoismo. Uma árvore se revela a si mesma para um artista quando ele consegue estabelecer uma certa relação com ela. Alguém não suficientemente humano poderá olhar para seus similares humanos e não vê-los, poderá olhar para uma árvore e não vê-la. Muitos de nós não conseguimos ver as coisas por que não somos completamente nós mesmos. Quando somos completos, podemos ver uma pessoa e, através de uma vida integral, demonstrar para todos que a vida é possível, que o futuro é possível. Mas a questão “O futuro é possível?” não tem sentido se não formos capazes de ver os milhões de outros seres humanos que sofrem, vivem e morrem à nossa volta. Depois de conseguirmos vê-los realmente, seremos capazes de ver a nós mesmos e ver a natureza. Lembremos o tsunami no Oceano Índico de 2004, que matou centenas de milhares de pessoas da Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Índia e África. Gente vinda da Europa, Austrália e Estado Unidos, que ali passavam as férias, também morreram. Todo mundo sofreu muito e ficamos nos perguntando por quê? Por que Deus permitiu que isso acontecesse? Por que essas pessoas morreram? Eu também sofri. Mas eu pratiquei. Sentei-me e pratiquei o olhar profundo. E o que eu vi foi que quando essas pessoas morreram, nós também morremos com elas, por que todos nós intersomos com elas.

Você sabe que quando uma pessoa amada morre, uma parte de você também morre; de alguma maneira você morre com essa pessoa. Isso é fácil de entender. Assim, se tivermos compreensão e solidariedade, quando virmos outras pessoas morrendo, mesmo pessoas estranhas do outro lado do mundo, nós sofreremos e morreremos com elas. O que descobrimos é que elas morrem por nós. Assim, temos que viver por elas. Temos que viver de tal modo que o futuro seja possível para as nossas crianças e para as crianças delas. Se a morte delas terá ou não um significado, dependerá de nosso modo de vida. Este é o insight do interser. Elas são nós e nós somos elas. Quando elas morrem, também morremos. Quando continuamos a viver, elas continuam a viver conosco. Com este insight, você sofrerá menos e saberá como continuar. Você as carrega dentro de si e, sabendo disso, fica em paz.

Praticar a plena consciência e olhar profundamente na natureza das coisas é descobrir sua verdadeira natureza, a natureza do interser. Encontraremos a paz e podemos gerar a força que precisamos para estar em contato com tudo. Com este entendimento, podemos facilmente sustentar o trabalho de amor e cuidado pela Terra, e por nós mesmos, por um longo tempo.

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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Que Acontece Quando Morremos?

Transcrição de uma palestra de
Dharma dada por Thây em Hong Kong, em 15 de Maio de 2007
Tradução: Samuel Cavalcante




Para responder ao que acontece conosco quando morremos, precisamos responder a uma outra questão: o que acontece quando estamos vivos? O que está acontecendo agora mesmo conosco? Em inglês costumamos dizer 'nós somos', mas é mais adequado dizer 'nós nos tornamos', por que as coisas estão sempre se tornando algo. Não somos a mesma pessoa em dois minutos consecutivos. Uma foto de quando você era bebê é diferente de você agora. De fato, você não é exatamente a mesma pessoa quando bebê e nem uma pessoa totalmente diferente. Em uma foto sua com cinco anos, você não é exatamente o mesmo e nem outra pessoa - a forma, os sentimentos e as formações mentais são diferentes.

No caminho do meio não existe nem a condição do que é o mesmo e nem a condição do que é diferente. Você pode pensar que ainda está vivo mas, de fato, você tem morrido todos os dias, a cada minuto células morrem e nascem - e nem por isso realizamos funerais ou aniversários (risos). A morte é a principal condição para o nascimento. Sem morte, não há nascimento. Eles intersão* e acontecem a todo momento para o praticante experiente. Por exemplo uma nuvem deve ter morrido muitas vezes, sob a forma de chuvas, rios, água. A nuvem deve querer cair rumo a si mesma na terra. A chuva é a continuação da nuvem. Praticando-se a meditação, nada fica escondido. Quando eu bebo chá, tenho a certeza de que estou bebendo nuvens.

Quando somos pais, morremos e renascemos como nossos filhos. "Vocês são minha continuação. Amo vocês". O Buda nos disse como assegurar uma linda continuação - um pensamento solidário**, um pensamento belo. Perdão é nossa continuação. Se raiva, separação e ódio surgem, então conseguiremos assegurar uma bela continuação. Ao pronunciarmos uma palavra que é solidária**, boa e bela, assim também será nossa continuação.

Quando uma nuvem é poluída, a chuva é poluída. Assim, ao purificarmos nossos pensamentos, palavras e ações, criaremos uma bela continuação. Podemos ver os efeitos de nossa fala em nossas crianças. Meus discípulos são minha continuação - tanto os monásticos, quanto os leigos. Desejo transmitir a fala, a ação e o pensamento amáveis. Isto é chamado karma no budismo.

O meu corpo se desintegrará, mas meu karma irá continuar - karma significa ação. Meu karma já está no mundo. Minha continuação está em toda parte. Quando você observar um dos meus discípulos caminhando de maneira solidária**, saberá que ele é minha continuação. Não quero transmitir minhas emoções negativas, quero transformá-las antes de transmití-las. A dissolução deste corpo não é o meu fim. Com certeza eu continuarei após a essa dissolução. Portanto não se preocupem com a minha morte, eu não morrerei.

Vamos meditar acerca do nascimento de uma nuvem. Ela tem uma certidão de nascimento? (Thay ri). Examine a noção de nascimento - a noção de que algo pode vir do nada, de ninguém, tornar-se alguém. É possível alguma coisa coisa vir do nada? Do ponto de vista da ciência, isto não é possível. A nuvem era água no oceano, nos lagos, rios e o calor do sol deu origem a ela - o momento de continuação da água. Por exemplo, nascimento - antes de você nascer você estava no ventre de sua mãe. O momento do nascimento é um momento de continuação. O momento da concepção é o começo? Metade de você provém do seu pai e metade da sua mãe, também isso faz parte do momento de continuação. Ao praticar a meditação você poderá ver coisas como essas.

É impossível a nuvem morrer. Ela pode se tornar água, neve - ela não poderá se tornar nada. É impossível nós morrermos. A nossa fala, ação e pensamento irão continuar no futuro. A pessoa que morre ainda continua, se não vemos isso é por que não somos capazes de usar nossa meditação para ver. Ela continua em nós e em torno de nós. Todos os ancestrais estão vivos em nós. Nossos ancestrais estão em nossos cromossomos. Há um tempo atrás, escrevi um livro chamado "Sem morte e nem medo" (No Death , No Fear publicado pela Parallax Press). Quando as condições são suficientes eu me manifesto e quando não são, não. Não existe vir ou ir. Antes de algo se manifestar, costumamos dizer que era algo não existente. Mas antes de sua manifestação, você não podia chamá-lo de não-ser. Ser e não-ser são pares de opostos.

Meditar sobre a natureza da criação e do ser é a melhor maneira de entender Deus. O teólogo Paul König descreve Deus como sendo a "Base do Ser". Quem então seria a base do não-Ser? Isto diminui Deus. No budismo, ambas as noçoes de ser e não-ser não podem descrever a realidade. De maneira similar, acima e abaixo, Europa e aqui. Nirvana é a ausência de todas as noções, nascimento e morte, ir e vir, mesmo e diferente. De acordo com o Budismo 'ser ou não-ser' não é realmente uma questão. A meditação nos leva para além, para um lugar onde não há medo. Somos demasiado ocupados, assim nos tornamos vítimas da raiva e do medo. Se conseguirmos tocar nossa natureza sem nascimento/morte, saberemos que morrer é uma das condições para nos tornarmos reais.

Temos que aprender a morrer em cada momento para estarmos verdadeiramento vivos. Este ensinamento do caminho do meio é o melhor do ensinamento do Buda. Muitos dos nossos ancestrais realizarm isso e não tinha medo da morte. Devemos ser capazes de relaxar nossas tensões. Nós somos o karma que produzimos no dia a dia de nosso cotidiano.(...) Tenho um discípulo que quer construir uma Stupa para guardar as minhas cinzas. Ele quer pôr uma placa com os dizeres " Aqui jaz o meu amado professor". Mas eu escreveria "Aqui não existe nada!" (muitos risos). Por que se você observar em profundidade existe uma continuação. Eu guardo o tempo que me resta principalmente para a minha prática. Quero gerar energia de amor, solidariedade e compreensão, para que assim eu continue de uma maneira bela.

Gostaria que vocês fizessem o mesmo. Usem o seu tempo de maneira sábia. A cada momento, produza belos pensamentos, bondade amorosa, perdão. Diga coisas bonitas, inspire, perdoe, aja no sentido de proteger e ajudar. Sabemos que somos capazes de produzir um belo karma para uma boa continuação e para a felicidade de outras pessoas.

Quando chegar a hora da dissolução do corpo, você poderá soltá-lo facilmente. Não desejará se agarrar a ele - liberando tanto o corpo quanto a percepção. Lembre-se da imagem da nuvem no céu vendo sua continuação no arroz ou no sorvete. Você já pode ver sua continuação. A arte de viver é uma continuação. Para mim e para todos os seres.


* intersão - verbo (inter+ser) criado por Thây para definir uma existência interdependente.
** solidário = compasivo. Ver nota do tradutor)

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terça-feira, 8 de julho de 2008

Nota de Tradução

Já li diversas vezes em textos do Thây que a tradução de karuna por "compaixão" não era uma boa tradução. No livro "Ensinamentos Sobre o Amor" ele nos diz explicitamente:

"O segundo do aspecto do amor verdadeiro é karuna, a intenção e a capacidade de aliviar e transformar o sofrimento e abrandar as tristezas. Em geral, a tradução de karuna é compaixão, mas isso não está inteiramente correto. 'Compaixão' compõe-se de com (junto com) e paixão (sofrimento). Mas não precisamos sofrer para eliminar a dor de outra pessoa. Os médicos, por exemplo, podem aliviar a dor de seus pacientes sem que eles padeçam da mesma doença. Se sofrermos muito, poderemos ficar arrasados e incapazes de ajudar os outros".

Outros tradutores, os que são budistas pelo menos, também sentem o mesmo incômodo ao usar a palavra compaixão, principalmente devido ao fato de ela ser carregada de conotações cristãs tradicionais ligadas à piedade, etc. Além disso, a palavra compaixão carrega um sentido altamente dualista que fere a unidade budista original, isolando o sujeito (aquele que age com compaixão) e o objeto (aquele que interage na ação), fazendo-nos esquecer de que ambos intersão, segundo verbo cunhado por Thây (interbeing/interser), que ambos são interdependentes.

Uma senhora certa vez criticou o meu uso dessa tradução dizendo que poderia sentir compaixão por um assassino, mas jamais sentiria solidariedade. Essa crítica só fez acender mais ainda um alerta para o uso indevido da palavra "compaixão" em um contexto não-cristão.

Tenho percebido que quando alguém diz que sente compaixão por alguém que comete um crime, mesmo que horrendo, na verdade ela está pensando "Que Deus tenha piedade dessa alma, eu não posso fazer nada!". Mas o Budismo não encara dessa maneira, o budista estende a mão a essa pessoa, por que sabe que ela está sofrendo e não consegue lidar com o seu sofrimento. E essa pessoa pode qualquer um mesmo, eu, você, Hitler, Thich Nhat Hanh, o casal Nardoni, a moça que matou os pais e assim por diante.

O praticante budista sabe que nós mesmos carregamos essas sementes que espalham terror, guerra e morte em nós mesmos, ao lado das sementes de amor, fraternidade, bondade, liberdade e felicidade que devemos cultivar.

Por outro lado, a palavra solidariedade se encaixa perfeitamente na definição budista tradicional de karuna. Solidariedade vem da palavra solidário que por sua vez vem da palavra latina solidu (sólido). É interessante notar que é raro alguém se lembrar que a palavra solidariedade tem a mesma raiz de solidez – e me parece óbvio que a solidariedade só pode ser praticada se houver solidez. Uma palavra que se baseia em solidez e compartilha, inclusive, a mesma raiz, em minha opinião, só pode ser a palavra mais adequada para traduzir a palavra karuna. E com a vantagem de não ser trazer em si sentido religioso algum (sei que isso pode ser também uma desvantagem, para alguns).

Em todos os seus textos e palestras, Thây sempre enfatiza o fato de que para uma ação ser realmente “compassiva”, ou seja, ser impregnada por karuna, é preciso solidez e estabilidade – mesmo na curta citação acima isso é claro. Solidez é necessária para que ocorra a transformação do sofrimento, a libertação, a felicidade. Não podemos simplesmente nos lançar a ajudar os outros, temos que cultivar a estabilidade e a solidez em nós mesmos para não sermos arrasados pela dor e sofrimento dos outros, para sermos capazes de ajudá-los a transformar seu sofrimento tal como fizemos nós mesmos.

No texto Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, o filósofo André Comte-Sponville nos diz:

“... ser solidário é pertencer a um conjunto in solido, como se dizia em latim, isto é, “para o todo”. Assim devedores são ditos solidários, na linguagem jurídica, se cada um pode e deve responder pela totalidade da soma que tomou emprestada coletivamente. Isso tem suas relações com a solidez, de que a palavra provém: um corpo sólido é um corpo em que todas as partes se sustentam”.


Talvez essa não seja a melhor solução, talvez fosse melhor recorrer ao um neologismo. Mas acho que é melhor usar expressões consagradas pelo uso do que criar novas palavras que podem criar mais confusão e dar um ar demasiado intelectual aos textos que, essencialmente, têm finalidade prática e não especulativa.

Por favor, se você não concordar com a minha visão pessoal, basta substituir mentalmente a palavra solidariedade por compaixão de novo para entrar em contato com o sentido mais adequado à sua prática – pelo menos era isso que eu fazia (secretamente). Agora torno pública a minha interpretação.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Princípios Para a Prática da Plena Consciência

Princípios Para a Prática da Plena Consciência

Traduzido do livro de Thich Nhat Hanh, Transformation and Healing –
Sutra On The Four Establishments of Mindfulness, Capítulo VI,
Parallax Press. Tradução: Samuel Cavalcante

1. Os Dharmas São Mente

Todos os dharmas – físicos, fisiológicos e psicológicos – são objetos da mente, mas isso não significa que eles existam separadamente (da mente). Todos os Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência – corpo, sensações, mente e dharmas – são objetos da mente. Como a mente e os dharmas são um, ao observar seus objetos, a mente é essencialmente mente observadora. A palavra dharma no budismo é entendida como significando tanto o objeto quanto o conteúdo da mente. Os dharmas são classificados em doze reinos (em sânscrito, ayatanas). Os primeiros seis são os órgãos do sentido: olhos, ouvido, nariz, língua, corpo e mente. Os seis restantes são: forma, som, cheiro, gosto, tato e dharmas. Os dharmas são os objetos da mente assim como os sons são os objetos dos ouvidos. O objeto da cognição e o sujeito da cognição não existem independentemente um do outro. Tudo o que existe tem que emergir da mente. A melhor maneira de expressar essa verdade é “Tudo é apenas mente. Todas as coisas são somente consciência”, conceito que se desenvolveu na escola Vijñanavada do Budismo Mahayana.

Nas tradições do Budismo do Sul, a idéia da mente como fonte de todos os dharmas também é muito clara. O termo cittasamutthana (o que emerge da mente) e o termo cittaraja (nascido da mente) são freqüentemente usados nos escritos do Abhidhamma em Páli. No Patthana (equivalente ao sânscrito Mahapakarana) encontramos a frase cittam samutthanam ca rupanam (“e a mente é o ponto de emergência das formas”).

O objeto de nossa observação consciente pode ser a nossa respiração ou nosso dedo do pé (objeto fisiológico), uma sensação, uma percepção (objeto psicológico) ou uma forma (objeto físico). Seja o fenômeno que observamos fisiológico, psicológico ou físico, sabemos que ele não é separado da nossa mente e é substância única com ela. A mente pode ser entendida como individual e coletiva. Os ensinamentos da Escola Vijñanavada dizem de maneira clara. Precisamos evitar a noção de que o objeto que observamos é independente de nossa mente. Temos que nos lembrar que esse objeto se manifesta a partir de nossa consciência individual e coletiva. Nossa mente observadora é também um fenômeno que se manifesta devido à consciência. Observamos de modo a que nossa mão direita tome a nossa mão esquerda e se tornem um.

2. Observar é ser um com o objeto da observação

O sujeito de nossa observação é a nossa plena consciência, a qual também emana da mente. A plena consciência tem a função de iluminar e transformar. Quando, por exemplo, a nossa respiração é objeto da nossa plena consciência, ela se torna respiração consciente. A plena consciência joga sua luz sobre nossa respiração, transforma o esquecimento embutido nela em plena consciência e dá a ela sua qualidade de calma e cura. Nosso corpo e nossas sensações também são iluminados e transformados sob a luz da consciência. A plena consciência é a mente observadora, mas ela não fica fora do objeto de observação. Ela vai diretamente no objeto e se torna um com ele. Justamente porque a natureza da mente observadora é a plena consciência, ela não se perde no objeto, mas o transforma ao iluminá-lo, como faz a luz penetrante do sol ao transformar árvores e plantas.

Se quisermos ver e compreender, teremos que penetrar e se tornar um com o objeto. Se ficarmos fora do objeto para observá-lo, não poderemos vê-lo e entendê-lo. O trabalho de observação é um trabalho de penetrar e transformar. É por isso que o Sutra (Acerca dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência, NT) diz “observar o corpo no corpo, observar as sensações nas sensações, observar a mente na mente, observar os dharmas nos dharmas”. A descrição é muito clara. A mente da observação profunda não é meramente observadora, mas participante. Somente quando o observador é participante poderá haver transformação.

Na prática chamada de observação una, a plena consciência já influencia o objeto da consciência. Quando chamamos uma inspiração de “inspiração”, a existência da nossa respiração se torna muito clara. A plena consciência já penetrou nossa respiração. Ao continuarmos a nossa observação consciente, não haverá mais dualidade entre observador e observado. Plena consciência e respiração são um. Nós e nossa respiração somos um. Se nossa respiração é calma, estamos calmos. Nossa respiração acalma o nosso corpo e nossas sensações. Este é o método ensinado no Sutra Acerca dos Quatro estabelecimentos da Plena Consciência e no Sutra Sobre a Plena Consciência da Respiração. Quando a nossa mente é consumida por um desejo ou por aquilo que observamos, a plena consciência não está presente. A respiração consciente alimenta a plena consciência e esta gera a respiração consciente. Quando a plena consciência está presente, não temos nada a temer. O objeto de nossa observação se torna vívido e sua fonte, origem e verdadeira natureza se tornam evidentes. É assim que ele (o objeto, NT) será transformado. Não terá mais o efeito de nos segurar.

Quando o objeto de nossa observação consciente é totalmente claro, a mente que observa é também revelada completamente com grande clareza. Ver os dharmas claramente é ver a mente claramente. Quando os dharmas se revelam na sua verdadeira natureza, a mente obtém a natureza da mais alta compreensão. O sujeito e o objeto da cognição não são separados.

3. A Mente Verdadeira e a Mente Ilusória São Um.

“Mente Verdadeira” e “Mente Ilusória” são dois aspectos da mente. Ambas emergem da mente. A mente ilusória é a mente esquecida e dispersa que emerge do esquecimento. A base da mente verdadeira é a compreensão desperta, o qual emerge da plena consciência. A observação consciente revela a luz que existe na mente verdadeira, de modo que a vida poderá ser revelada em sua realidade. Sob esta luz, confusão se torna compreensão, visões errôneas se tornam visões corretas, miragens se tornam realidade e a mente ilusória se torna mente verdadeira. Uma vez que a observação consciente nasça, penetrará o objeto da observação, iluminá-lo-á e, gradualmente, revelará sua verdadeira natureza. A mente verdadeira emerge da mente ilusória. As coisas em sua verdadeira natureza e as ilusões são da mesma substância básica. É por isso que praticar é uma questão de transformar a mente ilusória e não buscar a mente verdadeira em outro lugar. Do mesmo modo como a superfície de um mar agitado e a de um mar tranqüilo são, ambas, manifestações do mesmo mar, a mente verdadeira não poderia existir se não houvesse a mente ilusória. No ensinamento das Três Portas da Libertação (em páli: vimokkhamukha), a ausência de meta (em sânscrito: apranihita) é uma das fundações para a realização. O que a ausência de meta quer dizer é que não devemos procurar algo fora de nós mesmos. No Budismo Mahayana, o ensinamento da não-realização é a mais alta expressão da unidade entre a mente verdadeira e a mente ilusória.

Se a rosa está a caminho de se tornar lixo, o lixo também está a caminho de se tornar uma rosa. Aquela que observa com discernimento verá o caráter não-dual da rosa e do lixo. Ela será capaz de ver que existe lixo na rosa e que existem rosas no lixo. Ela saberá que a rosa precisa do lixo para sua existência e que o lixo precisa da rosa, pois logo ela se tornará lixo. Portanto, ela saberá aceitar o lixo para transformá-lo em rosas e não sentirá medo quando a rosa murchar e se transformar em lixo. Este é o princípio da não-dualidade. Se a mente verdadeira (a rosa) pode ser descoberta no material bruto da mente ilusória (o lixo), então poderemos reconhecer a mente verdadeira na substância mesma da ilusão, na substância mesma da ilusão, na substância do nascimento e da morte.

Libertar-se não é fugir ou abandonar os Cinco Skhandas, forma, sensações, percepções, formações mentais e consciência. Mesmo que nosso corpo seja cheio de impurezas e mesmo que o mundo seja da natureza da ilusão, isso não significa que para nos libertarmos tenhamos que fugir do nosso corpo ou do mundo. O mundo da libertação e da compreensão desperta vem diretamente deste corpo e deste mundo. Uma vez que a Correta Compreensão se realize, transcendemos as discriminações entre puro e impuro e entre objetos da percepção ilusórios e reais. Se o jardineiro for capaz de ver que a rosa vem diretamente do lixo, então o praticante no caminho da meditação poderá ver que o nirvana vem diretamente do nascimento e da morte, e não mais fugirá ou buscará o nirvana (fora de si mesmo, NT). “As raízes da aflição (em sânscrito: klesha) são as mesmas do estado desperto. O nirvana e o nascimento/morte são imagens ilusórias no espaço”. Esta citação expressa um profundo insight acerca da não-dualidade. A substância deste insight é a equanimidade ou o largar (to let go, NT. Em sânscrito: upeksha), uma das Quatro Mentes Incomensuráveis (também conhecida como as Quatro Moradas de Brahma, brahmaviharas em sânscrito, NT).
O Buda ensinou muito claramente que não deveríamos nos apegar ao ser ou ao não-ser. Ser significa o reino do desejo. Não-ser significa o reino do niilismo. Libertar-se é tornar-se livre de ambos.

4. O Caminho do Não-Conflito

A realização da não-dualidade naturalmente leva à prática de oferecermos alegria, paz e não-violência. Se o jardineiro sabe lidar com o lixo orgânico sem conflito e nem discriminação, então o praticante de meditação também deveria saber como lidar com os Cinco Agregados sem conflito e nem discriminação. Os Cinco Agregados são a base do sofrimento e da confusão, mas também são a base da paz, da alegria e da libertação. Não deveríamos desenvolver uma atitude de apego ou aversão a eles. É claramente dito no Sutra (Acerca dos Quatros Estabelecimentos da Plena Consciência, NT) que o praticante faz a observação pondo de lado todo sentimento de apego e rejeição para com esta vida (vineyya loke abhijjha domanassam).

Antes de realizar o estado desperto, Siddharta manteve práticas austeras, reprimindo seu corpo e suas sensações. Este tipo de método é violento por natureza e os resultados são sempre negativos. Depois desta fase, ele mudou e praticou a não-violência e o não-conflito em relação ao seu corpo e às suas sensações.
O método ensinado pelo Buda no Sutra Acerca dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência claramente expressa o espírito da não-violência e do não-conflito. A plena consciência reconhece o que está acontecendo no corpo e na mente e continua a iluminar e observar em profundidade esses objetos. Durante essa prática, não há apego, busca ou repressão do objeto. Este é o verdadeiro significado do termo observação nua. Não há cobiça e nem rejeição. Sabemos que o nosso corpo e as nossas sensações somos nós mesmos e, portanto, não os reprimimos, pois se assim o fizermos estaremos reprimindo a nós mesmos. Ao contrário, aceitamos nosso corpo e nossas sensações. Aceitar não significa apegar-se. Ao aceitar, atingimos um grau de paz e compreensão. Paz e alegria surgem quando abandonamos as discriminações entre certo e errado; entre mente que observa e corpo observado (que costumamos dizer que é impuro); entre a mente que observa e as sensações que são observadas (que costumamos dizer que são dolorosas).

Ao aceitarmos nosso corpo e nossas sensações, nós os tratamos de maneira terna e não-violenta. O Buda nos ensinou a praticar a plena consciência dos fenômenos fisiológicos e psicológicos para observá-los e não para suprimi-los. Quando aceitamos nosso corpo, fazemos as pazes com ele e acalmamos o seu funcionamento, sem sentirmos aversão, estamos seguindo os ensinamentos do Buda: “Inspirando, sou consciente de todo o meu corpo, expirando acalmo as funções do meu corpo” (Sutra Acerca dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência). Na observação feita enquanto meditamos, não nos transformamos num campo de batalha entre um lado bom e um lado mal. Se pudermos ver a não-dualidade da rosa e do lixo, das raízes da aflição e da mente desperta, não sentiremos mais medo. Aceitaremos essas aflições e as trataremos como as mães tratam os filho, conseguindo assim transformá-las.
Quando reconhecemos as raízes da aflição em nós e nos tornamos um com elas, a possibilidade de nos enredarmos nelas ou não vai depender do estado da nossa mente. Quando estamos em estado de esquecimento, podemos ser apanhados por essas raízes transformando-nos nelas. Quando estamos conscientes, podemos ver claramente as raízes da nossa aflição e transformá-las. Portanto, é essencial ver as raízes de nossa aflição com plena consciência. Enquanto a lâmpada da plena consciência jorrar sua luz, as trevas serão transformadas. Precisamos nutrir a plena consciência em nós mesmos pela prática da respiração consciente, da escuta do sino, da recitação de gathas e de muitos outros meios hábeis.

Precisamos de uma atitude de ternura e não-violência em relação ao nosso corpo. Não devemos olhar o nosso corpo apenas como um instrumento ou tratá-lo mal. Quando estamos cansados ou sentindo dor, nosso corpo está tentando nos dizer que ele não está feliz e nem tranqüilo. O corpo tem sua própria linguagem. Como praticantes da plena consciência, deveríamos saber o que o nosso corpo está querendo nos dizer. Se sentirmos muita dor nas pernas durante a meditação sentada, devemos sorrir e mudar a posição nossa posição lenta e gentilmente, com plena consciência. Não há nada de mal em mudar nossa posição. Não é perda de tempo. Enquanto a plena consciência for mantida o trabalho de meditação continua. Não devemos nos intimidar. Quando fazemos força demais não apenas perdemos a nossa paz e nossa alegria, perdemos também a plena consciência e a concentração. Nós praticamos a meditação sentada para sentirmos libertação, paz e alegria e não para nos tornarmos heróis capazes de agüentar dor.

Também precisamos de uma atitude não-violenta em relação às nossas sensações. Quando somo conscientes de que somos as nossas sensações, não as negligenciamos e nem as oprimimos. Nós as abraçamos afetivamente com os braços da plena consciência, como uma mãe abraça seu filho recém-nascido quando ele chora. Uma mãe abraça o filho com todo o seu amor para que ele se sinta confortável e pare de chorar. A plena consciência, nutrida pela respiração consciente, tomas as sensações nos seus braços, torna-se um com elas, acalma-as e transforma-as.

Antes de o Buda atingir a plena realização do caminho, tentou vários métodos que usavam a mente para suprimir a mente, mas nunca conseguiu. Foi por isso que ele terminou por escolher praticar de um modo não-violento. No Mahasaccaka Sutra (Madhyama Agama 36) o Buda nos diz:

“Então pensei, por que não trinco meus dentes, pressiono a língua contra o céu da boca e utilizo a mente para reprimir a minha própria mente? Como um lutador que segura firmemente a cabeça ou o torço de alguém mais fraco e, para restringi-lo e coagi-lo, tem que segurá-lo todo o tempo sem relaxar nem um momento, assim trinquei meus dentes, pressionei minha língua contra o palato e usei minha mente para dominar e reprimir a minha mente. Ao fazer isso, fiquei banhado de suor. Apesar de não me faltar forças, e apesar de ter mantido a plena consciência sem cessar, meu corpo e minha mente não estavam em paz e senti-me exaurido por esses esforços. Esta prática causou outras sensações de dor, além das dores associadas às práticas austeras, e não fui capaz de domar minha mente”.

Torna-se claro, a partir dessa passagem, que o Buda encarava esse tipo de prática como inútil. Apesar disso, a seguinte passagem foi inserida no Vitakkasanthana Sutra (Madhyama Agama 20), com o sentido oposto à intenção do Buda:

“Da mesma forma que um lutador pega a cabeça ou o torço de alguém mais fraco, restringe-o e o coage e o segura sem relaxar um só momento, assim também um monge que medita para frear todos os pensamentos não-saudáveis de desejo e aversão, e eles continuam a emergir, deve trincar os dentes, pressionar a língua contra o palato e fazer o possível para usar sua mente para abater e derrotar sua mente”.

A mesma passagem foi inserida no Sutra Acerca dos Quatro Fundamentos da Plena Consciência, que aparece como a segunda versão neste livro: “O praticante que observa o corpo enquanto corpo fecha seus lábios com força ou trinca seus dentes, pressiona sua língua contra o palato e usa sua mente para restringir e se opor à sua mente”. Esta passagem não aparece na maioria das versões do Sutra (observem a primeira e terceira versões), mas se acha também no Kayasmrti Sutra (Madhyama Agama 81) cujo conteúdo é bastante similar ao da segunda versão. Como os sutras foram, por séculos, transmitidos oralmente antes de serem registrados por escrito, esse tipo de erro era inevitável. É necessário fazer estudos comparativos dos sutras, à luz de nossa própria experiência de meditação, para ver o que é o material original e o que foi adicionado depois.

5. Observação Não Significa Doutrinação

Em centros budistas espalhados pelo mundo, ensina-se aos estudantes a recitação de frases do tipo “corpo é impuro, sensações são sofrimento, mente é impermanente, dharmas não possuem ego” enquanto observam os Quatro Estabelecimentos. O autor dessas linhas foi ensinado dessa maneira, quando era noviço, e sentiu que era um tipo de lavagem cerebral.

O método dos Quatro Estabelecimentos da Plena Consciência é observar profundamente no espírito do “não-desejo e sem sentir repugnância“. A plena consciência não se apega, despreza, repreende ou reprime, desse modo a verdadeira natureza de todos os dharmas pode revelar-se à luz da observação consciente. Que a natureza impermanente, impura e sem identidade intrínseca de todos os dharmas tem por efeito causar sofrimento, pode ser vista enquanto observamos, não é por que repetimos fórmulas como essas acima de maneira automática. Quando olhamos em profundidade e vemos a natureza de todos os dharmas, eles se revelarão por si mesmos.

Se repetirmos mecanicamente, “o corpo é impuro”, estaremos recitando um dogma. Se observarmos todos os fenômenos fisiológicos e vemos sua natureza impura, isto não é dogma. É nossa experiência. Se, durante a nossa observação consciente, vemos que os fenômenos são, às vezes, puros e, às vezes, impuros, então esta é a nossa experiência. Se olharmos ainda mais profundamente e vermos que os fenômenos não são puros ou impuros, que eles transcendem os conceitos de puro e impuro, descobriremos aquilo que é ensinado no Sutra do Coração Prajñaparamita. Este sutra também nos ensina a resistir a todas as atitudes dogmáticas. Não devemos nos forçar a ver o corpo como impuro ou as sensações como sofrimento. Mesmo que haja alguma verdade nessas sentenças, repeti-las dogmaticamente tem apenas o efeito de nos encher com conhecimento. Enquanto observamos com plena consciência, veremos que existem muitas sensações dolorosas, mas também vemos que também existem sensações de alegria e paz e muitas sensações neutras. E se olharmos mais profundamente, veremos que as sensações neutras podem se tornar sensações de alegria e que sofrimento e felicidade são interdependentes. O sofrimento é porque a felicidade é e a felicidade é porque o sofrimento é. Ao repetirmos “mente é impermanente”, nossa atitude ainda é dogmática. Se a mente é impermanente, então o corpo deve ser impermanente e assim também as sensações. O mesmo é verdadeiro para “dharmas são sem ego”.Se os dharmas são sem ego, assim também o são o corpo, a mente e as sensações.

Portanto, o ensinamento especial do Sutra Acerca dos Quatro estabelecimentos da Plena Consciência é observar todos os dharmas sem ter, sobre eles, nenhuma idéia fixa, apenas manter a observação consciente sem comentar, sem assumir nenhuma atitude em relação ao objeto que se está observando. Dessa maneira, a verdadeira natureza do objeto será capaz de revelar-se por si mesma à luz da observação consciente, e você poderá obter insight sobre descobertas maravilhosas tais como o não-nascimento, não-morte, nem puro nem impuro, nem crescente e nem decrescente, interpenetração e interser.


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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Transformação na Base

Transformação na Base

("Transformation At The Base" -
traduzido do livro The Path of Transformation,
de Thich Nhat Hanh, Parallax Press.
Tradução: Samuel Cavalcante
)

Transformação significa transformação na base (ashraya-paravritti), que significa verdadeira transformação e não apenas alívio temporário. Para que a transformação na base tenha lugar, você tem que praticar a observação profunda. Somente olhando profundamente a natureza do nosso sofrimento podemos descobrir suas causas e identificar as fontes dos elementos que o alimentam e trazem à existência. Depois de praticarmos por algum tempo, veremos que a transformação sempre ocorre nas profundezas da consciência. Nossa consciência armazenadora é como o suporte, a base, a fundação de nossa consciência – do mesmo modo que as pernas são um suporte para a mesa. Ashraya significa suporte ou base e paravritti significa transformação na base.

Observando profundamente, ganhamos insights que podem nos libertar e transformar nossas aflições que estão em forma de semente. A formação mental é manifestada no nível da mente, mas a semente da formação mental permanece na consciência armazenadora. Se soubermos como reconhecer e ver a presença das formações mentais, abraçá-las, acalmá-las e observá-las em profundidade, ganharemos insight. Se a semente da raiva se manifesta e a semente da plena consciência também se manifesta, a energia da plena consciência abraça a energia da raiva.

Transformação e emancipação somente podem ter lugar quando o insight é atingido. O insight é atingido pela prática de parar e olhar profundamente. Meditação é composta de dois elementos. O primeiro é shamatha, parar, concentrar-se e acalmar-se. Se você for à China você verá um símbolo muito comum nas estradas. Significa “Pare”. Sugiro que você ponha esse símbolo em algum lugar da sua casa. Quando você o olhar você poderá praticar a respiração consciente por 5 ou 10 minutos e assim conseguir parar. O segundo elemento da meditação é a vipashyana. Significa observar profundamente, analisar, olhar. É difícil observar profundamente sem parar. Se você é capaz de olhar profundamente, então você é capaz de parar.

Como já sabemos, temos que lidar com a energia que está sempre nos pressionando e nos impedindo de parar. Descrevi, certa vez, nossa energia de hábito como um cavalo em fuga. O Buda propôs parar a energia do hábito com a plena consciência. Toda vez que nos sentimos agitados – não importa a hora do dia ou o que estamos fazendo – devemos praticar a respiração consciente para reconhecer nossa energia de hábito. Dizemos “Oi, energia de hábito. Sei que você está aí”. E sorrimos para ela. Vashana é o nome desta energia. Como mencionei antes, todos nós recebemos essa energia de nossos pais e ancestrais, que foram inábeis em transformá-la. Por causa disso, ela nos foi transmitida. Devemos aprender a lidar com ela. Se não soubermos como transformá-la, iremos transmiti-la aos nossos filhos.

Todo verão, em Plum Village, celebramos o Dia de Ação de Graças à nossa maneira. Grupos de estudantes de diferentes países se reúnem, cozinham algum prato nacional e o colocam no altar dos ancestrais. Se tivermos pessoas de 25 países praticando, teremos 25 pratos diferentes. Cada grupo se reúne e discute que prato irá oferecer. Os estudantes preparam seus pratos com plena consciência, tocando seus ancestrais e sua cultura nacional.

Transmissão

Certa vez, um jovem americano foi comprar provisões em Sainte-Foy-La Grande. Ele estava em Plum Village havia três semanas e sentia maravilhoso – em paz e com muita alegria. Cercado por uma Sangha de praticantes, ele praticava meditação andando e sentada e trabalho com plena consciência. Sozinho em Sainte-Foy-La Grande, ele se sentiu subitamente com pressa. Mas com sua prática de três semanas de respiração e caminhada consciente, ele foi capaz de identificar a energia negativa da agitação e da pressa . Sua plena consciência foi suficiente para que ele retornasse à sua respiração. Ele inspirou e expirou, sorrindo, e disse: “Oi mãe, sei que você está aqui!”. Ele percebeu que a energia da agitação vinha de sua mãe. Sempre agitada e com pressa, ela transmitiu essa energia para ele. Durante três semanas de prática no Upper Hamlet (Plum Village, NT) ele estava cercado por uma Sangha poderosa e a semente da agitação não teve oportunidade de aparecer. Somente quando foi ao mercado sozinho, o ambiente pôde tocar aquela semente que estava nele e permitiu que ela se manifestasse. Depois que ele reconheceu essa energia com a respiração consciente, a agitação desapareceu e retornou à sua forma de semente. Daquele dia em diante, ele continuou a prática da respiração consciente mantendo sua paz e alegria.

Regando Nossas Sementes Positivas

Como disse antes, todos nós recebemos sementes negativas e positivas de nossos pais e ancestrais. Alguns de nós foram abusados quando crianças – tratados violentamente pelos nossos pais – e sofreram muito. Comprometemo-nos a nunca nos comportarmos como eles depois que crescermos. Mas se não soubermos transformar nossa energia negativa, trataremos nossos filhos exatamente como nossos pais nos trataram.

Vi isto acontecer muitas vezes. Quando criança, você sofreu por que seus pais lhe trataram mal e lhe abandonaram. A criança ferida em você ainda está viva. Você está vulnerável e com medo que seus amigos, companheiros e outras pessoas também lhe tratem mal. Você conhece a dor de ser abandonado e você não quer que os outros sofram como você. Mas se você não souber como curar a criança ferida dentro de você ou transformar suas energias negativas, você fará seus filhos e amigos sofrer como você sofreu. Você culpará as pessoas por terem feito você sofrer. Você sabe que não é bom abusar dos outros, tratá-los mal, excluí-los ou ferir a já ferida criança interior deles, mas mesmo assim você age do mesmo jeito. Se os seus filhos não tiverem a chance de estar com uma Sangha e com um bom professor eles não serão capazes de transformar essas sementes em si mesmos e irão transmitir essas sementes aos filhos deles. Este é o ciclo vicioso chamado samsara. Praticar significa interromper este ciclo e terminar com ele. Deveríamos reconhecer nossas aflições negativas – nossos elementos negativos – e perceber que elas estão na base da nossa consciência. Temos que intervir e praticar para que haja uma verdadeira transformação, não apenas um alívio temporário. Isso é o que chamamos de transformação na base e pode ser atingida de duas maneiras.

A primeira maneira é a contemplação direta da natureza da semente. Convidamos a semente do sofrimento a vir para a superfície. Se já tivermos cultivado a energia da plena consciência, não será difícil convidá-la a vir á tona, abraçá-la e olhar profundamente a sua natureza. Esta é a maneira direta de desintegrá-la. Somente à luz do insight e da compreensão pode transformar nossas sementes de aflição. A segunda maneira é indireta e igualmente efetiva. Nós plantamos e regamos nossas sementes positivas. Ao invés de chamar a semente para cima, para abraçá-la e observá-la profundamente, nós a deixamos onde está e fazemos outras coisas para ajudar a sua transformação. Podemos fazer isso individualmente ou como uma Sangha. Tocar os elementos positivos, refrescantes e curativos da vida todos os dias é uma prática prazeirosa que pode levar à cura e à transformação.

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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Como Chegar em Plum Village em 7 Passos

Guia para chegar a Plum Village/ Village des Pruniers na França, centro de prática da plena consciência fundado pelo Mestre Thich Nhat Hanh.

1. Você deve preencher um formulário disponível aqui e enviar para um dos seguintes endereços:

Upper Hamlet / Hameau du Haut / Aldeia de Cima
(para homens desacompanhados e casais)
Le Pey, 24240
Thenac, France
Tel.: +(33) 5.53.58.48.58
Fax.: +(33) 5.53.58.49.17
E-mail: UH-office@plumvillage.org
Website: www.plumvillage.org

New Hamlet / Hameau Nouveau / Aldeia Nova
(para mulheres desacompanhadas e casais)
13 Martineau
33580 Dieulivol, France
Tel.: +(33) 5.56.61.66.88
Fax.: +(33) 5.56.61.61.51
E-mail: NH-office@plumvillage.org
Website: www.plumvillage.org

Lower Hamlet / Hameau du Bas / Aldeia de Baixo
(para mulheres desacompanhadas e casais)
Meyrac 47120
Loubes-Bernac, France
Tel.: +(33) 5.53.94.75.40
Fax.: +(33) 5.53.94.75.90
E-mail: LH-office@plumvillage.org
Website: www.plumvillage.org

Son Ha / Templo do Sopé da Montanha
(para homens desacompanhados e casais)
Fontagnane 24240
Puyguilhem , France
Tel.: +( 33) 5.53.22.88.89
Fax.: +( 33) 5.53.22.88.90
Email: sonhatemple@orange.fr
Website: www.plumvillage.org

2. Normalmente os períodos de retiro são definidos anualmente mais existe um padrão:
- abril, maio e junho - período bastante tranqüilo, poucas pessoas, muito silêncio. Durante esse período, muitas vezes, Thay não está presente em Plum Village, pois viaja frequentemente para conduzir retiros em outros países da Europa;
- julho - retiro de verão, milhares de pessoas, muitos jovens da europa, estados unidos e canadá. É o principal retiro de Plum Village, o mais internacional e o mais focado na família. Thay dá palestras de Dharma quase diariamente;
- agosto, setembro, outubro - outro período tranquilo - e também aqui, com uma freqüente ausência de Thay que nesse período viaja à Ásia;
- novembro, dezembro, janeiro, fevereiro - retiro de inverno - milhares de pessoas também,neste período temos vários eventos com muita gente (durante o natal, fim do ano, ano novo chinês e cerimônias de ordenação); é um período interessante por causa da diversidade de coisas interessantes que acontecem neste período. Thay utiliza esse período para ensinar baseado especialmente nos sutras/suttas.

3. Prefira um vôo direto para Bordeaux, o preço de trem de Paris para Bordeaux é quase o mesmo e tornará a viagem mais cansativa.

4. Ao chegar em Bordeaux, na frente do aeroporto, caminhe para a parada de ônibus onde pára o "Shuttle". É um micro-ônibus que vai do Aeroporto e passa por diversos pontos de Bordeaux terminando na estação (Gare) Saint Jean. Eles custa cerca de 5 euros.

5. Na Gare Saint Jean pegue um trem para a cidade de Saint Foy La Grande. O bilhete deve custar cerca de 11 euros. A viagem dura cerca de 1 hora.

6. Ao chegar em Sainte Foy la Grande, existem duas hipóteses: a) se você chegar na sexta-feira você pode combinar com os monges que eles irão buscar você na estação; b) você pode pegar um taxi direto para o hamlet onde você se registrou - existe um hotelzinho perto da estação onde você pode ligar por alguns centavos, pode inclusive pedir ao atendente para pedir um taxi para você se você não for muito fluente no francês. As pessoas no sudoeste da França são muito cordiais e simpáticas. O taxi irá custar cerca de 25 euros.
Importante: não diga ao taxista que deseja ir à "Plum Village" ou ao "Village des Pruniers", diga o nome da aldeia onde quer chegar e o endereço por exemplo: Hameau du Bas, Meyrac 47120 Loubes-Bernac ( Meyrac é o nome do lugarejo e Loubés Bernac é o nome do município).

7. Finalmente: preços (para maiores de 17 anos) - pode variar , mas é útil para se ter uma base:
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Quarto com 2 camas e banheiro - 456 euros por semana;
Quarto com 2 camas sem banheiro - 371 euros por semana;
Quarto com 3 a 4 camas e banheiro - 392 euros por semana;
Quarto com 3 a 4 camas sem banheiro - 350 euros por semana;
Quarto com 5 a 10 camas e banheiro -328 euros por semana;
Quarto com 5 a 10 camas sem banheiro -297 euros por semana;

Pode parecer caro, mas em relação aos preços de pousadas na França, é muito mais barato. Todas as refeições (fartos café, almoço e janta) e lanches entre as refeições, chás, cafés, estão inclusos nessas taxas.

PS: Os preços são por semana, não se pode passar menos que isso. Outros detalhes só podem ser resolvidos pessoalmente com o monge responsável...Eles são muito compreensíveis, abertos e tolerantes.

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